terça-feira, 6 de outubro de 2026
Minérios

Compra de mina em Goiás por empresa dos EUA expõe disputa global por terras raras

Negócio bilionário coloca o Estado no centro da disputa global por minerais estratégicos e reacende debate sobre soberania, industrialização e dependência externa no setor de terras raras

João César Almeidapor em
Terras Raras
Mina goiana, única operação de terras raras fora da Ásia, passa a integrar estratégia internacional de produção de minerais críticos - Foto: Divulgação/Serra Verde Pesquisa e Mineração

A aquisição da única mina de terras raras em operação no Brasil por uma empresa dos Estados Unidos (EUA) marca um novo capítulo na disputa global por minerais críticos. O negócio, estimado em US$ 2,8 bilhões, envolve a compra integral do grupo responsável pela exploração em Goiás, que hoje abriga a única operação fora da Ásia capaz de produzir em escala comercial elementos considerados essenciais para a indústria de alta tecnologia.

 

Esses minerais, conhecidos como terras raras, são um conjunto de 17 elementos químicos utilizados na fabricação de produtos como veículos elétricos, turbinas eólicas, chips eletrônicos e equipamentos militares. Apesar do nome, eles não são necessariamente escassos, mas sua extração e processamento exigem tecnologia avançada, alto investimento e cuidados ambientais rigorosos, o que limita a produção global a poucos países.

 

Nesse cenário, a China ocupa posição dominante tanto na mineração quanto no processamento desses materiais, o que tem levado outras nações a buscar alternativas para reduzir essa dependência. A aquisição da operação brasileira se insere justamente nesse movimento, com o objetivo de estruturar uma cadeia produtiva fora do eixo asiático.

 

A mina localizada em Goiás é considerada um ativo estratégico por reunir características raras no mercado internacional. Além de extrair os minerais, a operação já conta com capacidade de processamento, o que agrega valor ao produto final. Atualmente, a unidade tem potencial para produzir cerca de 5 mil toneladas por ano de terras raras processadas, com parte da produção já comprometida em contratos de longo prazo.

 

A empresa compradora pretende avançar além da etapa de extração e investir na verticalização da cadeia produtiva. A estratégia envolve integrar a produção brasileira com plantas industriais em países como Estados Unidos, França e Reino Unido, criando um modelo que vai da mineração até a fabricação de ímãs, componentes fundamentais para diversas tecnologias.

 

Essa integração é vista como um dos principais desafios do setor, já que grande parte do processamento mundial ainda está concentrada na Ásia. Ao conectar diferentes etapas da cadeia, o objetivo é garantir maior segurança no fornecimento e reduzir riscos associados a tensões geopolíticas e restrições comerciais.

 

A relevância do negócio também se reflete no contexto econômico e estratégico mais amplo. A crescente demanda por tecnologias de baixo carbono e pela digitalização da economia tem impulsionado a corrida por minerais críticos, colocando países com reservas naturais, como o Brasil, no centro desse debate.

 

Em Goiás, a presença da única mina em operação já havia colocado o Estado no radar internacional. Nos últimos anos, novas descobertas e projetos de exploração reforçaram esse cenário, ampliando as expectativas sobre o potencial mineral da região. Municípios como Minaçu, no Norte do Estado, concentram atividades que vão desde a pesquisa até a produção em escala comercial.

 

Ao mesmo tempo, a crescente valorização desses recursos tem levantado debates sobre soberania e agregação de valor. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou o interesse internacional sobre esses minerais e defendeu que o País avance na industrialização. 

 

“Nós não somos mais países colonizados. Nós conquistamos soberania com a nossa independência. Nós não podemos permitir que alguém possa se intrometer e ferir a integridade territorial de cada país”, afirmou o presidente, em reunião da Cúpula de Chefes de Estado e de Governo da Celac-África, que ocorreu em março, em Bogotá, na Colômbia.

 

Ainda em sua fala, Lula reforçou que o Brasil precisa evitar a repetição de um modelo baseado apenas na exportação de matéria-prima. “Estão querendo nos colonizar outra vez. É preciso que a gente levante a cabeça”, disse, ao destacar que países da América Latina devem aproveitar suas riquezas minerais para desenvolver suas próprias cadeias produtivas.

A discussão ganha relevância diante do potencial econômico das reservas brasileiras. Estudos indicam que o valor das terras raras conhecidas no País pode ultrapassar o equivalente ao Produto Interno Bruto (PIB) nacional, o que evidencia a importância estratégica desses recursos no cenário global.

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