sábado, 31 de outubro de 2026
Pesquisa

Benefícios ajudam a manter talentos nas empresas, mas desafio é alinhar oferta e expectativa

Pesquisa mostra que 70% dos profissionais consideram os benefícios decisivos para permanecer no emprego, mas menos da metade está satisfeita

Letícia Leitepor em
Benefícios ajudam a manter talentos nas empresas, mas desafio é alinhar oferta e expectativa
Empresas tentam equilibrar custo, flexibilidade e retenção. Foto: Fernando Frazão/ABr

Os benefícios corporativos passaram a ocupar um espaço estratégico nas relações de trabalho e deixaram de ser apenas um item complementar no pacote de remuneração. Em um mercado marcado por alta competitividade, escassez de mão de obra qualificada e mudanças no perfil dos trabalhadores, oferecer benefícios alinhados às novas demandas virou um fator importante de retenção de talentos.

Uma pesquisa da MIT Sloan Management Review Brasil em parceria com a Unico Skill mostra que 70% dos profissionais afirmam que os benefícios influenciam diretamente a decisão de permanecer em um emprego. Apesar disso, apenas 49% dizem estar satisfeitos com o que recebem, o que expõe um desalinhamento entre o que as empresas oferecem e o que os colaboradores valorizam.

O dado revela uma transformação importante no ambiente corporativo. Se antes salário e estabilidade ocupavam o centro da decisão profissional, hoje fatores como qualidade de vida, equilíbrio entre vida pessoal e trabalho, segurança financeira e autonomia ganharam peso.

Plano de saúde e vale-alimentação ainda aparecem entre os benefícios mais desejados, mas a flexibilidade se consolidou como uma nova prioridade. Mais de 90% dos profissionais ouvidos no levantamento disseram que gostariam de ter pacotes mais versáteis, com possibilidade de escolha e adaptação às necessidades individuais. No entanto, apenas 14% das empresas oferecem esse modelo.

“Quando o colaborador percebe que o benefício atende necessidades reais, ele passa a enxergar valor de forma mais concreta, o que impacta na motivação e na permanência”, explica Gabriel Parreira, Diretor de Produtos e Novos Negócios de uma empresa de cartão de benefícios em Goiânia.

Na prática, isso significa uma mudança de lógica. O trabalhador já não quer apenas receber um benefício padronizado; ele quer decidir como usar esse recurso de acordo com seu momento de vida. Para quem tem filhos, educação pode ser prioridade. Para outros, saúde mental, mobilidade ou alimentação podem pesar mais.

Essa mudança de comportamento acompanha uma transformação geracional. Profissionais mais jovens, especialmente das gerações Y e Z, costumam valorizar experiências e autonomia com mais intensidade, o que pressiona empresas a reverem políticas tradicionais de recursos humanos.

Flexibilizar benefícios ainda esbarra em custos e gestão 

Mas o cenário também impõe desafios para o lado empresarial. Embora exista consenso sobre a importância dos benefícios na retenção, adaptar esse modelo exige investimento, tecnologia e revisão de processos internos. Entre gestores, o custo ainda aparece como principal barreira. Segundo o levantamento, 83% das empresas apontam o impacto financeiro como o maior obstáculo para ampliar ou personalizar os benefícios.

Para especialistas em gestão de pessoas, o desafio está em encontrar equilíbrio. De um lado, o colaborador quer personalização e liberdade. Do outro, a empresa precisa manter previsibilidade financeira, controle operacional e conformidade legal.

Empresas do setor de tecnologia para gestão de benefícios têm apostado em soluções mais flexíveis para responder a essa nova demanda. Plataformas multi benefícios, por exemplo, permitem concentrar diferentes categorias — como alimentação, mobilidade, saúde e educação — em um único cartão ou sistema, o que facilita a administração e amplia o poder de escolha do colaborador.

Na visão de especialistas do setor, quando o benefício faz sentido no cotidiano do trabalhador, ele deixa de ser percebido como obrigação da empresa e passa a ser entendido como valor concreto. Essa percepção impacta diretamente indicadores importantes, como engajamento, produtividade e rotatividade.

A substituição de um profissional representa custo alto para as empresas, desde processos seletivos até treinamento e adaptação. Em muitos casos, investir na melhoria dos benefícios pode sair mais barato do que lidar com o turnover. Mas é preciso frisar que benefícios, sozinhos, não resolvem todos os problemas de retenção.

Ambiente saudável, liderança preparada, perspectiva de crescimento e cultura organizacional seguem como fatores decisivos. Os benefícios funcionam como parte de uma estratégia mais ampla de valorização do colaborador. O movimento indica que as relações de trabalho caminham para um modelo mais individualizado, em que a empresa precisa ouvir mais e compreender melhor o perfil de seus profissionais.

A lógica do pacote único perde força diante de uma força de trabalho cada vez mais diversa. Para as empresas, o desafio não está apenas em oferecer mais, mas em oferecer melhor. No fim, a discussão sobre benefícios revela uma mudança maior: a relação entre empresa e trabalhador deixou de ser apenas contratual e passou a exigir troca de valor mais clara.

Se o profissional busca reconhecimento, qualidade de vida e autonomia, as empresas que entenderem esse novo cenário tendem a sair na frente na disputa por talentos. Num mercado em que reter se tornou tão importante quanto contratar, benefícios bem estruturados deixaram de ser diferencial. Passaram a ser estratégia de sobrevivência.

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