MP-GO obtém liminar que suspende corte de árvores no Lago das Rosas em Goiânia
Decisão da Justiça paralisa intervenções previstas no projeto de revitalização da Amma, exige apresentação de estudos ambientais completos e prevê multa por árvore removida ou danificada
A 2ª Vara da Fazenda Pública Municipal de Goiânia determinou, na última quarta-feira (27), a suspensão imediata de qualquer ato de corte, poda ou extirpação de árvores no Parque Lago das Rosas. A decisão liminar, proferida pela juíza Simone Monteiro, atende a um pedido de tutela de urgência cautelar do Ministério Público de Goiás (MP-GO), que identificou riscos de danos ambientais irreversíveis na execução do projeto de revitalização proposto pela Prefeitura de Goiânia e pela Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma).
A controvérsia central gira em torno da retirada prevista de 48 exemplares arbóreos, muitos dos quais seriam removidos para dar lugar a uma estrutura de lazer para animais de estimação, o chamado “Pet Place”. O Ministério Público argumentou que o processo administrativo municipal tramitava com acesso restrito e sem a participação de órgãos técnicos essenciais, como a Secretaria de Planejamento e Urbanismo (Seplan). Segundo o promotor Marcelo Fernandes de Melo, o laudo da Amma autorizava a retirada não apenas de árvores doentes, mas também de espécimes saudáveis, jovens e mudas recém-plantadas, justificadas apenas pela necessidade de espaço para a obra.
Em sua decisão, a magistrada destacou que a supressão de dezenas de árvores consolida um prejuízo de natureza irreversível, uma vez que tais indivíduos exercem funções ecológicas e climáticas que levam décadas para serem repostas. A juíza fundamentou a ordem no princípio da precaução, que orienta que, diante de incertezas técnicas ou indícios de irregularidades, a prudência deve prevalecer para proteger o meio ambiente.
Além da suspensão dos cortes, a Justiça determinou que a Amma apresente, em cinco dias, a cópia integral do processo administrativo, incluindo estudos ambientais e laudos fitossanitários individualizados para as árvores cuja remoção seja considerada estritamente inevitável. Em caso de descumprimento, foi fixada uma multa de R$ 5 mil por árvore cortada ou danificada, com teto de R$ 500 mil, além de possíveis sanções civis e criminais para as autoridades envolvidas.

A Amma, por sua vez, sustenta que as remoções têm caráter técnico e preventivo. A presidente da agência, Zilma Peixoto, defendeu que o manejo visa substituir árvores inadequadas ou condenadas por espécies mais frondosas. Técnicos da agência apresentaram, por exemplo, o caso de uma Paineira-Branca (Barriguda) de mais de 80 anos, que estaria infestada pela praga Eucroma Giganteia e correria risco iminente de queda sobre a pista de caminhada.
Entretanto, essa justificativa é contestada por moradores e especialistas. O arquiteto e urbanista Fred Le Blue aponta que existem alternativas técnicas, como o cabeamento, estaiamento e escoramento, que funcionam como “suportes ortopédicos” para preservar árvores antigas sem a necessidade de remoção imediata. Segundo o analista ambiental Kadu, do grupo Goiânia Verde, a substituição de árvores consolidadas por mudas jovens não compensa os benefícios ambientais e de conforto térmico perdidos no curto e médio prazo.
O projeto de revitalização do Lago das Rosas conta com um investimento de R$ 2,7 milhões, viabilizado por meio de uma compensação ambiental da Opus Incorporadora. Se por um lado a prefeitura promete melhorias necessárias, como drenagem para evitar alagamentos, nova iluminação e restauração de monumentos Art Déco (o trampolim e a mureta), por outro, críticos veem na obra sinais de uma “maquiagem urbana”.
Fred Le Blue argumenta que a proposta prioriza o mobiliário urbano e estratégias de city marketing, podendo levar a uma elitização simbólica do espaço público. “O planejamento urbano do bem comum passa a ser orientado por uma perspectiva corporativa. A empresa transforma uma obrigação legal em estratégia de marketing”, critica o urbanista ao comentar o modelo de financiamento via iniciativa privada.
A mobilização dos moradores foi decisiva para que o caso chegasse ao Judiciário. Manifestações no parque e a atuação da Associação dos Moradores e Frequentadores do Lago das Rosas (Alagro) forçaram um recuo inicial da prefeitura. O próprio prefeito Sandro Mabel chegou a admitir publicamente que as ações da Amma foram “precipitadas”, reconhecendo que o impacto visual e ambiental gerado assustou a população.
Com a decisão judicial, o MP-GO poderá agora realizar uma perícia detalhada nos documentos da Amma para verificar se as autorizações de corte respeitam o Plano Diretor de Arborização Urbana e a Constituição Federal. Por enquanto, as intervenções estéticas e estruturais que dependem da remoção da vegetação permanecem paralisadas, garantindo que o debate técnico e a participação popular ocorram antes de qualquer nova motosserra ser ligada em um dos parques mais antigos da cidade.