sexta-feira, 30 de outubro de 2026
Atenção

Vai ao supermercado no domingo? Nova regra muda horário de funcionamento em Goiás

Convenção homologada pelo Ministério do Trabalho prevê multas para empresas que descumprirem as regras

Renata Ferrazpor em
Supermercado
Divulgação/Agência Brasil

Os supermercados de Goiás passarão a funcionar apenas até as 11 horas aos domingos e feriados. A medida foi definida na nova Convenção Coletiva de Trabalho (CCT), firmada entre o Sindicato dos Empregados no Comércio Varejista de Gêneros Alimentícios no Estado de Goiás (Secom-GO) e o Sindicato do Comércio Varejista de Gêneros Alimentícios no Estado de Goiás (Sincovaga-GO). O acordo já foi homologado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e passa a valer em praticamente todo o Estado.

A regra não se aplica aos municípios de Catalão, Rio Verde e Itumbiara. Nessas cidades, os trabalhadores são representados por sindicatos próprios, que realizam negociações independentes com as entidades patronais locais.

Além de limitar o funcionamento aos domingos e feriados, a convenção estabelece regras de fiscalização e penalidades em caso de descumprimento. Os detalhes das sanções estão previstos no documento firmado entre as entidades sindicais.

Segundo o procurador jurídico do Secom-GO, José Nilton Carvalho, a convenção representa uma conquista para os trabalhadores e busca melhorar as condições de trabalho no setor supermercadista sem inviabilizar a atividade econômica.

Negociação entre sindicatos resultou em acordo

De acordo com José Nilton, a convenção é resultado de negociações entre representantes dos trabalhadores e dos empregadores. Inicialmente, o sindicato defendia o fechamento dos supermercados aos domingos, mas as partes chegaram a um consenso para permitir o funcionamento até as 11 horas.

O procurador destaca que, ao contrário do que parte do setor empresarial tem alegado, a medida não gera prejuízos aos trabalhadores nem ameaça empregos. “Não existe impacto negativo para os empregados. Pelo contrário, há benefícios. O objetivo é garantir mais dignidade, qualidade de vida e melhores condições de trabalho para a categoria”, explicou.

José Nilton afirma que a medida representa um avanço para os trabalhadores e que o sindicato irá intensificar a fiscalização do cumprimento da convenção. Segundo ele, cerca de 50 fiscais percorrerão municípios goianos para verificar o respeito às novas regras e aos direitos trabalhistas.

Fiscalização terá foco especial na proteção das mulheres

Um dos principais pontos destacados pelo procurador é a aplicação do artigo 386 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que garante às mulheres o direito de folgar dois domingos por mês.

Segundo José Nilton, embora a legislação exista há anos, muitas empresas ainda não cumprem a determinação. “O artigo 386 da CLT foi consolidado pelo Supremo Tribunal Federal e determina que a trabalhadora tenha direito a folgar dois domingos por mês. Isso precisa ser respeitado e será um dos focos da fiscalização”, afirmou.

Além dos domingos, a convenção também prevê regras específicas para o trabalho em feriados. Conforme o acordo, os supermercados não poderão funcionar nos dias 1º de maio (Dia do Trabalhador), 4 de outubro (antecipação do Dia do Comerciário) e 25 de dezembro (Natal). Nos demais feriados, o funcionamento poderá ocorrer mediante celebração de acordo coletivo específico entre a empresa e o sindicato.

Segundo o procurador, o objetivo é equilibrar a necessidade de funcionamento do comércio com a proteção dos trabalhadores. “Existem muitos feriados durante a semana. A sociedade continua consumindo, e muitos trabalhadores também querem trabalhar nessas datas. O que buscamos é garantir dignidade e respeito para quem está trabalhando”, ressaltou.

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Convenção prevê multas e banco de horas

A convenção estabelece multa de R$ 500 por empregado e por dia de irregularidade para empresas que mantiverem trabalhadores atuando fora do horário permitido. Do valor arrecadado, 50% serão destinados ao trabalhador, e os outros 50%, ao sindicato da categoria.

O documento também prevê punições para empresas que dificultarem ou impedirem a fiscalização sindical. Nesses casos, a multa pode chegar a R$ 5 mil para empresas de pequeno porte e a R$ 50 mil para grandes redes supermercadistas.

Além disso, a convenção autoriza a criação de banco de horas, desde que haja acordo coletivo firmado com o Secom-GO. Empresas filiadas e adimplentes junto ao Sincovaga-GO também poderão ter condições diferenciadas para ampliar o horário de funcionamento em situações previstas no documento.

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Debate envolve falta de mão de obra, escala 5×2 e Bolsa Família

Durante a entrevista, o procurador afirmou que a nova convenção coletiva também busca enfrentar um problema que, segundo ele, afeta o setor supermercadista em Goiás e no país: a falta de mão de obra.

Segundo José Nilton, os supermercados goianos empregam cerca de 50 mil trabalhadores, mas ainda enfrentam dificuldades para preencher vagas. Levantamento apresentado pelo sindicato aponta que o setor opera com aproximadamente 51% da força de trabalho necessária, o que representaria um déficit de cerca de 48 mil profissionais.

Para ele, a limitação do funcionamento aos domingos, a adoção de escalas mais equilibradas e o fortalecimento dos direitos trabalhistas são medidas necessárias para evitar um possível colapso da categoria nos próximos anos.

“Essa convenção coletiva não representa uma queda de braço entre trabalhadores e empresários. Estamos buscando soluções para um problema que já afeta o setor, que é a dificuldade de contratar e manter funcionários”, afirmou.

O procurador também relacionou a escassez de mão de obra ao número de beneficiários do Bolsa Família. Segundo ele, Goiás possui cerca de 436 mil pessoas atendidas pelo programa social, e parte delas poderia ingressar no mercado formal caso houvesse regras de transição mais flexíveis entre o benefício e o emprego com carteira assinada.

José Nilton defende a revisão dos critérios de renda do programa para evitar que famílias deixem de buscar emprego por receio de perder imediatamente o auxílio. Na avaliação dele, parte das cerca de 48 mil vagas abertas no setor poderia ser preenchida por beneficiários do Bolsa Família.

“Hoje, muitas famílias têm receio de ingressar no mercado formal e perder o benefício. Precisamos discutir mecanismos que garantam uma transição mais segura para essas pessoas”, disse. Apesar disso, o procurador ressaltou que a principal solução continua sendo a melhoria das condições de trabalho.

AGOS critica medida e fala em impacto econômico

Em nota, a Associação Goiana de Supermercados (AGOS) afirmou que a limitação do funcionamento até as 11 horas pode gerar impactos econômicos para parte das empresas. Segundo a entidade, abrir lojas por poucas horas aumenta os custos operacionais e reduz a viabilidade financeira da operação. A associação informou ainda que buscará medidas legais e institucionais para defender a livre iniciativa, a livre concorrência e a segurança jurídica do setor.

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