Tarifa dos EUA ameaça exportações goianas de açúcar, milho e pescados
Proposta apresentada pelo governo dos Estados Unidos prevê sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, carne bovina, café e frutas ficaram fora da lista de cobrança adicional
O governo dos Estados Unidos, propôs a aplicação de uma tarifa de 25% sobre uma ampla lista de produtos importados do Brasil. A medida foi anunciada em 1º de junho de 2026 e decorre de uma investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Segundo o relatório final, o Brasil adota práticas que o órgão considera prejudiciais aos interesses comerciais norte-americanos.
A proposta ainda está em fase de consulta pública e negociação, mas já mobiliza setores produtivos brasileiros. Em Goiás, a preocupação está concentrada nos segmentos que não foram incluídos na lista de exceções divulgada pelo governo norte-americano.
O relatório do USTR apresenta seis áreas que fundamentam a proposta de tarifação. Entre elas está o sistema de pagamentos PIX. O documento afirma que o Banco Central do Brasil atua simultaneamente como regulador e operador do sistema, o que, na avaliação do governo norte-americano, colocaria empresas privadas do setor em desvantagem.
Na área de comércio digital, o relatório menciona decisões judiciais brasileiras que determinaram a remoção de conteúdos e a suspensão de perfis em plataformas de mídia social, incluindo contas de residentes nos Estados Unidos.
O documento também aborda questões ambientais, apontando problemas relacionados ao combate ao desmatamento ilegal na Amazônia. Além disso, os Estados Unidos questionam a política brasileira para o etanol importado, alegando falta de reciprocidade para o produto norte-americano desde 2017.
Outros pontos citados são a anulação de processos da Operação Lava Jato, utilizada como exemplo em discussões sobre corrupção, a demora na análise de patentes farmacêuticas pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e a concessão de tarifas preferenciais pelo Brasil a países como México e Índia sem condições equivalentes aos Estados Unidos.

Produtos goianos fora da exceção podem perder competitividade
Apesar da abrangência da medida, o governo norte-americano divulgou uma lista de produtos que ficariam de fora da cobrança adicional. Entre eles estão carne bovina, café, frutas, aeronaves e peças aeronáuticas, minerais e terras raras.
De acordo com o gerente técnico da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), Edson Novaes, a exclusão desses produtos reduz os impactos sobre parte das exportações goianas. No entanto, outros segmentos permanecem sujeitos à tarifa.
“Qualquer tarifa aplicada sobre as exportações brasileiras é ruim, porque afetará os produtos atingidos, retirando competitividade devido ao aumento dos custos para exportação”, afirma.
Segundo Novaes, os principais efeitos para Goiás devem ocorrer nas cadeias de açúcar, milho e pescados, produtos que continuam incluídos na lista tarifária proposta pelos Estados Unidos.
Embora esses setores representem uma participação menor na pauta exportadora goiana quando comparados à carne bovina, a medida pode gerar impactos para empresas e produtores que têm o mercado norte-americano como destino relevante para suas vendas.
A Faeg defende que o governo brasileiro utilize o período de negociação para buscar a inclusão de mais produtos na lista de exceções. A entidade acompanha as discussões e avalia que a ampliação das isenções pode reduzir os efeitos da medida sobre o agronegócio goiano.
Caso a tarifa seja confirmada, a avaliação da federação é que os setores atingidos poderão buscar alternativas comerciais em outros mercados. Segundo Novaes, o agronegócio goiano possui histórico de diversificação de destinos e presença em diferentes países compradores.
O gerente técnico destaca que a abertura e a ampliação de mercados têm sido estratégias adotadas pelo setor nos últimos anos. Ainda assim, a prioridade, segundo ele, é a manutenção do acesso ao mercado norte-americano sem a incidência da sobretaxa.
O governo brasileiro criticou a proposta apresentada por Washington e afirmou que a medida não possui fundamentação técnica consistente. Paralelamente, representantes dos dois países mantêm negociações sobre os pontos levantados na investigação.
O cronograma divulgado pelos Estados Unidos prevê até 1º de julho de 2026 para o envio de comentários por escrito ao governo norte-americano. Em 6 de julho está prevista a realização de uma audiência pública para discussão da proposta. Já o dia 15 marca o prazo legal para a decisão final e eventual início da aplicação das tarifas.
Até lá, as negociações continuam entre os dois governos. O resultado do processo poderá influenciar o fluxo comercial entre Brasil e Estados Unidos e os embarques de produtos goianos que permanecem na lista sujeita à cobrança adicional. Atualmente, produtores e entidades do setor acompanham as tratativas e aguardam a definição sobre a medida.