além da carne

Do couro ao biodiesel: como o aproveitamento integral do boi movimenta 49 setores da economia

Aproveitamento integral do animal fortalece a economia circular e abre novas oportunidades de negócios para a pecuária

Anna Salgadopor Anna Salgado em 8 de junho de 2026
gados no pasto
Legenda: Couro, colágeno, gelatina, medicamentos e biocombustíveis ganham espaço em uma cadeia que busca maior rentabilidade e sustentabilidade Foto: Divulgação

Durante décadas, a pecuária brasileira construiu sua força econômica com base na produção de carne. No entanto, a evolução da cadeia produtiva tem mostrado que o valor do boi vai muito além dos cortes comercializados nos açougues e supermercados. Em busca de maior eficiência, sustentabilidade e rentabilidade, frigoríficos e indústrias passaram a aproveitar praticamente todas as partes do animal, transformando subprodutos em matérias-primas para dezenas de segmentos da economia.

Segundo informações da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), cerca de 49 segmentos industriais dependem direta ou indiretamente dos subprodutos bovinos. O número demonstra como a pecuária moderna deixou de enxergar o animal apenas como fonte de proteína animal para atuar em uma lógica de aproveitamento integral, capaz de abastecer setores como os de cosméticos, medicamentos, energia, vestuário, alimentação e até tecnologia.

A mudança acompanha uma tendência global de economia circular, modelo que busca reduzir desperdícios e aumentar o aproveitamento dos recursos já disponíveis. Nesse contexto, aquilo que antes era considerado resíduo passou a representar novas oportunidades de negócios e geração de receita.

Do couro ao colágeno: os produtos que ganharam espaço

Entre os derivados que mais despertam interesse da indústria está o couro bovino. Tradicionalmente associado à fabricação de calçados, o material passou a atender uma gama muito maior de mercados. Depois de tratado pelos curtumes, o couro é utilizado na produção de bolsas, cintos, roupas, estofamentos de veículos, sofás, revestimentos de aeronaves e materiais esportivos, como bolas, luvas e chuteiras.

Além disso, a própria pele do animal fornece outra matéria-prima que vem ganhando destaque nos últimos anos: o colágeno. Extraído da pele, dos tendões e dos cascos, ele é utilizado em suplementos alimentares, cosméticos, medicamentos e biomateriais empregados na área da saúde. O crescimento da demanda por produtos voltados ao bem-estar, à estética e ao envelhecimento saudável tem ampliado o interesse da indústria por esse segmento.

A gelatina também integra essa cadeia de aproveitamento. Produzida a partir de cartilagens, ligamentos e tecidos ricos em proteína, ela está presente não apenas em alimentos, mas também na fabricação de cápsulas farmacêuticas, filmes radiológicos e diversos produtos industriais.

Essa diversificação demonstra que o valor econômico do boi não está concentrado exclusivamente na carne. Pelo contrário, a indústria tem buscado explorar mercados capazes de agregar valor às partes do animal que anteriormente possuíam menor importância comercial.

Economia circular fortalece a pecuária moderna

A busca por novas fontes de receita não se limita ao couro e ao colágeno. Diversos outros componentes do boi abastecem cadeias produtivas estratégicas. O sebo bovino, por exemplo, tornou-se uma importante matéria-prima para a produção de biodiesel, combustível renovável que ganha espaço na matriz energética brasileira. Além disso, ele também é utilizado na fabricação de sabões, sabonetes, velas, lubrificantes industriais e produtos cosméticos.

As glândulas do animal fornecem substâncias utilizadas pela indústria farmacêutica e pela perfumaria. O pâncreas bovino, por exemplo, já foi amplamente utilizado na obtenção de insulina para tratamento de diabetes. Outros tecidos e órgãos fornecem componentes empregados na produção de medicamentos e materiais médicos.

Os ossos também possuem elevado valor econômico. Ricos em cálcio e fósforo, eles são transformados em farinhas utilizadas na alimentação animal. Depois de processados, ainda podem ser empregados na fabricação de porcelanas, cerâmicas e em processos industriais de refino.

Até mesmo o sangue é reaproveitado. Dele são obtidos plasma, soro e farinhas utilizadas tanto na indústria alimentícia quanto na produção de fertilizantes e rações. Já os pelos, chifres e cascos encontram aplicação na fabricação de pincéis, escovas, botões, pentes e diversos outros produtos.

Esse amplo aproveitamento reforça uma característica singular da cadeia bovina: praticamente todas as partes do animal possuem algum valor econômico. Mais do que uma estratégia para aumentar lucros, o modelo contribui para reduzir desperdícios e tornar a atividade mais sustentável.

 

Leia também: Brasil perde autorização para exportar carne bovina e de frango à União Europeia

Siga o Canal do Jornal O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do Jornal O Hoje.
Tags:
boi
Veja também