quinta-feira, 15 de outubro de 2026
COMÉRCIO

Corte em cota de açúcar dos EUA pode ter reflexos em Goiás

Medida atinge diretamente produtores do Nordeste, mas pode pressionar preços e margens do setor sucroenergético goiano

Lalice Fernandespor em
açúcar
A redução da cota brasileira amplia a disputa por outros mercados e pode pressionar produtores de açúcar (Foto: Victoria Priessnitz/ Unsplash)

O governo dos Estados Unidos sinalizou que só devolverá ao Brasil quase 60 mil toneladas retiradas da cota de exportação de açúcar caso o País apresente propostas comerciais consideradas “satisfatórias”. Sem acordo, segundo a Folha de S.Paulo, o volume poderá ser redistribuído a outros países, em mais uma medida que amplia as restrições comerciais enfrentadas pelo setor brasileiro.

Para o próximo ciclo, o governo Trump reduziu de 155,9 mil para 100 mil toneladas a parcela brasileira na cota, queda de 35,9%. Embora o volume seja preenchido por produtores do Nordeste, economistas apontam que a medida pode produzir efeitos indiretos em Goiás, onde Goiatuba e Goianésia já estão entre os 100 municípios mais afetados pelas tarifas dos EUA devido às exportações de açúcar orgânico.

A cota permite que o açúcar bruto de cana entre nos Estados Unidos com tarifa reduzida. Fora desse limite, o produto enfrenta uma barreira de aproximadamente US$ 340 por tonelada. Com as medidas comerciais adotadas pelos Estados Unidos, o açúcar vendido fora da cota também está sujeito a sobretaxas de 25% e 12,5% que se acumulam em 37,5%. 

Para o economista Leonardo Ferraz, a redução pode aumentar a dificuldade de acesso do açúcar brasileiro aos Estados Unidos. Com isso, parte da produção pode buscar outros destinos, elevando a oferta e pressionando preços e margens dos produtores goianos. “O setor já enfrenta um cenário de preços internacionais menores em 2026”, afirma ao O HOJE.

Se as 55.993 toneladas forem redistribuídas, Ferraz avalia que os países contemplados passarão a ter acesso mais barato ao mercado norte-americano, enquanto o Brasil perderá espaço. Nesse cenário, Goiás teria de enfrentar maior disputa por outros mercados.

Efeito concentrado

A possibilidade de maior concorrência ocorre enquanto uma parcela específica do setor goiano já sente os efeitos das barreiras norte-americanas. Goiatuba e Goianésia aparecem entre os 100 municípios brasileiros mais afetados pelas tarifas, segundo levantamento do Estadão elaborado com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

As duas cidades concentram parte das exportações de açúcar orgânico destinadas aos Estados Unidos. Das quatro usinas brasileiras dedicadas a esse tipo de produção, duas estão em Goiás, segundo o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg) e do Sindicato da Indústria de Fabricação de Açúcar no Estado (Sifaçúcar), André Rocha.

Em 2025, Goiatuba respondeu por US$ 39,18 milhões das exportações goianas aos Estados Unidos, ou 6,11% das vendas estaduais ao país, conforme dados da Secretaria de Indústria, Comércio e Serviços de Goiás (SIC). Goianésia exportou US$ 35,62 milhões, participação de 5,55%.

No conjunto do Estado, a exposição é menor. Entre janeiro e junho deste ano, Goiás exportou US$ 7,06 bilhões, dos quais US$ 462,5 milhões foram destinados aos Estados Unidos, participação de 6,55%. Cerca de 85% das exportações goianas permaneceram fora das tarifas, segundo levantamento da SIC.

Ampliar a produção de etanol

O economista Luiz Carlos Ongaratto pondera que Goiás não é um grande produtor de açúcar, apesar de algumas usinas exportarem açúcar orgânico, e possui maior produção de etanol. “O Estado em si não é um grande produtor, Goiás produz mais etanol”, afirma ao O HOJE.

Segundo Ongaratto, o preço da commodity é o principal catalisador dos investimentos do setor, enquanto os fatores capazes de alterar essa cotação não estão em jogo na negociação com os Estados Unidos. Uma estratégia disponível às usinas é reduzir a produção de açúcar e ampliar a de etanol.

A possibilidade de direcionar a cana para outros produtos também aparece na avaliação de Ferraz. O economista aponta o etanol e a geração de energia como alternativas diante de uma restrição específica ao açúcar. 

Ongaratto aponta ainda outro fator para o setor neste ano: a possibilidade de menor produção de cana-de-açúcar por conta do El Niño. Na avaliação do economista, o risco climático tem potencial de gerar impacto maior para Goiás do que as sanções dos Estados Unidos.

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