CANA-DE-AÇÚCAR

Usinas do Centro-Oeste ampliam produção de etanol em detrimento do açúcar

Goiás ganha protagonismo na safra 2026/2027 com o avanço do etanol de milho, enquanto usinas da região destinam uma parcela maior da cana à produção de biocombustíveis

Anna Salgadopor Anna Salgado em
açúcar etanol
Legenda: A produção de açúcar no Centro-Sul recuou 26,3% em junho, enquanto a fabricação de etanol avançou, refletindo a mudança no mix de produção das usinas | Foto: Elza Fúzia/ABr

O setor sucroenergético brasileiro passa por uma reconfiguração produtiva na safra 2026/2027, com as usinas do Centro-Sul direcionando uma parcela maior da cana-de-açúcar para a produção de etanol em detrimento do açúcar. Dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) e do Ministério da Agricultura indicam que a mudança ocorre em meio à redução da moagem, aos preços internacionais do açúcar e ao avanço da produção de etanol de milho, especialmente em estados como Goiás e Mato Grosso.

O movimento altera a composição do chamado mix de produção das usinas e tem sido observado ao longo do início da safra 2026/2027. A destinação de uma parcela maior da matéria-prima para a fabricação de biocombustíveis ocorre em um cenário de menor processamento de cana e de ajustes nas estratégias industriais adotadas pelas unidades produtoras da região Centro-Sul, principal polo sucroenergético do país.

Em junho de 2026, o processamento de cana-de-açúcar no Centro-Sul caiu 14,5%, totalizando 69,79 milhões de toneladas. A produção de açúcar recuou 26,33% no mesmo período, para 3,90 milhões de toneladas. No acumulado da safra até o início de julho, o volume produzido já era 1,5 milhão de toneladas inferior ao registrado no ciclo anterior.

A redução na fabricação de açúcar foi acompanhada pelo aumento da produção de etanol. Em junho, o volume do biocombustível cresceu 2,47%, alcançando 3,80 bilhões de litros. Na primeira quinzena de julho, a moagem avançou 2,6%, enquanto a produção de açúcar recuou 5,7% e a de etanol aumentou 12,1%.

O avanço da produção de etanol de milho, especialmente em estados como Goiás e Mato Grosso, também integra o contexto da reconfiguração do setor. A expansão dessa modalidade de produção amplia a oferta do biocombustível e passa a influenciar a dinâmica da indústria sucroenergética, contribuindo para mudanças na destinação da matéria-prima processada pelas usinas.

Segundo analistas do setor, a mudança no mix de produção está relacionada principalmente à rentabilidade. O preço do açúcar no mercado internacional permaneceu em níveis baixos em safras recentes, enquanto os custos de produção seguem elevadas. Outro fator apontado é a diferença no fluxo de caixa entre os dois produtos.

De acordo com o analista Enio Fernandes, o etanol proporciona recebimento mais rápido dos recursos, enquanto o açúcar envolve custos de transporte até os portos e processos de exportação mais demorados. “O etanol você paga para o cara carregar”, afirmou o analista.

A expansão do etanol de milho também tem sustentado a oferta do biocombustível mesmo com a redução da moagem de cana. Em junho de 2026, o combustível derivado do cereal respondeu por quase 21% da produção total do Centro-Sul.

Goiás consolidou-se como um dos principais produtores nacionais de etanol de milho. Na safra 2025/2026, o estado produziu cerca de 5,3 bilhões de litros de etanol, dos quais 841,6 milhões de litros tiveram origem no milho. A diversificação das matérias-primas contribui para manter a oferta de combustível mesmo em períodos de dificuldades na colheita da cana, como ocorreu em junho deste ano.

A priorização do etanol também ocorre em um contexto de mudanças regulatórias no mercado de combustíveis. A entrada em vigor da gasolina E32, que elevou a mistura obrigatória de etanol anidro de 30% para 32% por meio da Lei do Combustível do Futuro, ampliou a demanda pelo biocombustível. Estimativas indicam que a medida pode reduzir a necessidade de importação de gasolina em até 1 bilhão de litros por ano.

Em 2026, o etanol hidratado registrou a maior vantagem econômica em relação à gasolina dos últimos oito anos, sendo competitivo em todos os municípios pesquisados em Goiás.

O Brasil permanece como o maior produtor e exportador mundial de açúcar, condição que influencia os preços internacionais do produto. A redução da oferta destinada ao mercado externo tende a pressionar as cotações do açúcar, fator que pode alterar novamente o direcionamento da produção das usinas.

No Centro-Oeste, o etanol apresenta vantagens logísticas e de integração com a produção de milho. Analistas do setor apontam que o milho se tornou momentaneamente mais competitivo para a produção de biocombustível, principalmente devido ao valor agregado pelo DDG (grãos de destilaria secos), utilizado na alimentação animal.

Os estoques de etanol hidratado, entretanto, também aumentaram. Em Goiás, os volumes armazenados em julho de 2026 chegaram a ser 76% superiores aos registrados no mesmo período do ano anterior, indicando ampliação da oferta do biocombustível no estado.

 

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