terça-feira, 7 de julho de 2026
Papo Xadrez

Ao O HOJE, Caio Megale diz que 2027 será decisivo para economia brasileira

Economista-chefe da XP Investimentos afirma que o principal desafio do País é equilibrar as contas públicas e alerta que projetos com alto impacto fiscal podem dificultar a queda dos juros e comprometer o crescimento econômico

Bruno Goulartpor Bruno Goulart em 12 de junho de 2026
Caio Megale
“Se conseguirmos reorganizar as contas do País, controlar a inflação e reduzir os juros, o Brasil tem enorme potencial de crescimento", avalia Megale. Foto: O HOJE/Youtube

Bruno Goulart

O principal desafio da economia brasileira não está na arrecadação de impostos, mas no controle dos gastos públicos. Essa é a avaliação do economista-chefe da XP Investimentos, Caio Megale, que participou do programa Papo Xadrez, do O HOJE, nesta quinta-feira (11). Durante a entrevista, Megale analisa o cenário econômico nacional, comenta a aprovação do projeto de securitização das dívidas rurais, fala sobre juros, contas públicas, tarifas americanas e traça perspectivas para o Brasil a partir de 2027.

Ao comentar a aprovação pelo Senado Federal do projeto que cria uma linha especial de financiamento para renegociação de dívidas de produtores rurais afetados por eventos climáticos e dificuldades econômicas, Megale reconheceu a importância do apoio ao setor agropecuário, especialmente para Estados como Goiás, onde o agronegócio tem papel fundamental na geração de emprego e renda. Segundo cálculos preliminares da equipe econômica do governo federal, o custo para o Tesouro Nacional poderá alcançar R$ 140 bilhões ao longo dos próximos anos.

O tema se insere no debate das chamadas “pautas-bomba”, expressão utilizada para designar projetos que criam despesas bilionárias ou reduzem a arrecadação pública. Embora reconheça a importância de preservar setores estratégicos da economia, Megale fez um alerta sobre os impactos dessas iniciativas nas contas públicas. “O problema é que existe um limite para os gastos do governo, e esse limite já foi ultrapassado”, afirma.

Segundo Megale, o Brasil vive uma situação contraditória. Apesar do aumento expressivo da arrecadação, as contas públicas continuam deficitárias. “Tudo indica que 2026 será o ano de maior arrecadação da história do governo federal. Mesmo assim, o País deve encerrar o ano com déficit”, aponta.

Despesas crescem rápido

Para o economista, esse cenário demonstra que as despesas crescem em ritmo superior ao das receitas. “O principal desafio da economia brasileira hoje é reequilibrar as contas públicas”, destaca. Na avaliação de Megale, o desequilíbrio fiscal está na origem de diversos problemas econômicos, entre eles os juros elevados e o aumento da dívida pública.

Megale também rebate uma percepção comum de que o setor financeiro se beneficia dos juros altos. “Existe uma percepção de que juros altos beneficiam o sistema financeiro. É uma espécie de lenda urbana”, afirma.

Segundo o economista-chefe da XP Investimentos, quando os juros permanecem elevados, muitos investidores deixam de aplicar recursos em ações, fundos de investimento ou títulos privados e preferem direcionar seus recursos para títulos públicos. O economista ressalta ainda que o crédito caro afeta diretamente as empresas. “Quando o empresário deixa de investir e o investidor prefere ficar apenas em aplicações conservadoras, toda a economia perde dinamismo”, acrescenta.

Estados Unidos

Wilson Silvestre
Wilson Silvestre conduziu a entrevista. Foto: O HOJE

Outro assunto abordado é a política comercial dos Estados Unidos e os possíveis reflexos para o Brasil. Para Megale, as tarifas impostas pelo governo americano tendem a ter impacto limitado sobre a economia nacional como um todo.

“Para a economia brasileira, acredito que o impacto seja pequeno”, afirmou. Segundo o economista, as exportações brasileiras para os Estados Unidos representam menos de 10% das vendas externas do País, o que reduz o potencial de impacto sobre o Produto Interno Bruto (PIB).

Apesar disso, alguns setores específicos podem ser afetados. “Não é um problema capaz de alterar significativamente as projeções para o PIB brasileiro, mas pode afetar empresas específicas, regiões inteiras e até o nível de emprego em determinados setores”, explica.

2027 decisivo

Ao projetar os próximos anos, Megale afirma que 2027 será um período decisivo para a economia nacional. Segundo o economista, o modelo de crescimento baseado na expansão do consumo, aumento do crédito e transferência de renda começa a dar sinais de esgotamento.

“Vejo 2027 como um ano decisivo”, afirma. Para Megale, o País precisará enfrentar discussões mais profundas sobre despesas públicas e reformas estruturais para criar condições de crescimento sustentável.

Megale avalia que o Brasil possui vantagens competitivas importantes, como a força do agronegócio, a capacidade de exportação de commodities, o potencial industrial e a presença de recursos estratégicos, como as terras raras. No entanto, diz acreditar que essas oportunidades só serão plenamente aproveitadas se houver equilíbrio fiscal. “Se conseguirmos reorganizar as contas do País, controlar a inflação e reduzir os juros, o Brasil tem enorme potencial de crescimento”, afirma.

O economista demonstra preocupação com a tramitação de projetos de elevado impacto fiscal e alerta para a necessidade de a sociedade acompanhar os debates econômicos. “É preciso ficar muito de olho nessas medidas no Congresso. Esse é o nosso calcanhar de Aquiles”, declara.

Segundo Megale, a proximidade da Copa do Mundo e do período eleitoral pode reduzir a atenção da população para temas relevantes. “As pessoas olham para a tabela da Copa e acabam esquecendo de monitorar o Brasil real. É nesse momento que algumas coisas acontecem e a gente não percebe”, conclui. (Especial para O HOJE)

 

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