Resposta às tarifas dos EUA exige cuidado com efeitos na economia
Governo inicia procedimento previsto na Lei da Reciprocidade com consultas diplomáticas antes de uma eventual contramedida
O governo brasileiro iniciou o procedimento previsto na Lei da Reciprocidade Econômica contra os Estados Unidos, em uma tentativa de abrir espaço para negociação diante das tarifas impostas pelo país. A medida prevê uma etapa de consultas diplomáticas entre os dois governos antes de qualquer eventual contramedida.
O processo foi aberto após os Estados Unidos ampliarem as barreiras comerciais sobre parte dos produtos brasileiros. Em 15 de julho, a Casa Branca anunciou uma tarifa adicional de 25%. Na semana seguinte, e apenas 2 dias após a primeira taxa entrar em vigor, uma sobretaxa de 12,5% passou a atingir mercadorias sob a alegação de que o Brasil não impede a importação de produtos produzidos com trabalho forçado. Em determinados casos, as cobranças chegam a 37,5%.
Para o economista Leonardo Ferraz, o início do procedimento representa uma mudança na postura brasileira, mas não significa uma retaliação imediata. Segundo Ferraz, a abertura das consultas mantém a negociação como principal caminho e mostra que o País dispõe de instrumentos para responder às medidas americanas. “O Brasil passa a utilizar formalmente um instrumento de pressão e negociação diante das tarifas americanas”, afirma ao O HOJE.
Efeitos internos
A escolha de uma eventual contramedida, segundo Ferraz, também precisa considerar os efeitos sobre a própria economia brasileira. Uma resposta que inclua produtos importados dos Estados Unidos pode elevar os custos de empresas que dependem desses itens. “A reciprocidade precisa funcionar como instrumento de negociação, e não simplesmente como retaliação”, afirma Ferraz.
Em Goiás, a Secretaria de Indústria, Comércio e Serviços (SIC) já havia chamado atenção para esse risco após o anúncio da tarifa de 25%, especialmente em relação a insumos estratégicos utilizados pela indústria e pelo agronegócio. Em Anápolis, 90,8% dos US$ 46 milhões importados dos Estados Unidos no primeiro semestre corresponderam a medicamentos, vacinas e soros, instrumentos médicos e insumos químicos utilizados pela indústria farmacêutica.
O secretário da SIC, Joel de Sant’Anna Braga Filho, afirmou na época que “o agronegócio goiano também pode ser impactado, uma vez que depende da importação de máquinas, equipamentos, componentes eletrônicos e outros insumos de alta tecnologia utilizados na produção agrícola”.
A possibilidade de uma resposta brasileira envolve não apenas os produtos exportados aos Estados Unidos, mas também os efeitos que uma eventual elevação de tarifas sobre mercadorias americanas poderia produzir dentro do país.
Exportações goianas têm exposição concentrada
Os Estados Unidos responderam por 6,55% das exportações de Goiás no primeiro semestre. Entre janeiro e junho, o Estado exportou US$ 7,06 bilhões, dos quais US$ 462,5 milhões tiveram como destino o mercado americano. As principais vendas foram de carnes bovinas congeladas, ferro-ligas, carnes bovinas frescas ou refrigeradas, gorduras de origem bovina, ovina e caprina e açúcar. Cerca de 85% do valor exportado pelo Estado no primeiro semestre corresponde a produtos que ficaram fora da sobretaxa.
Entre os segmentos que estão no radar estão a cadeia sucroenergética, máquinas e equipamentos, produtos metalúrgicos, manufaturados, calçados, vestuário, madeira, papel e mobiliário. A Seapa também havia apontado atenção para açúcar, algodão, café verde e indústria de base florestal.
Para Ferraz, os efeitos em Goiás tendem a ficar concentrados em determinadas cadeias, empresas e municípios, sem representar um choque generalizado sobre a economia estadual. O especialista, porém, ressalta que “uma escalada comercial pode atingir tanto quem vende quanto quem compra”, por isso “se o Brasil responder aumentando barreiras sobre produtos americanos, empresas brasileiras que utilizam máquinas, equipamentos, tecnologia ou outros insumos dos Estados Unidos também podem enfrentar custos maiores”.
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