Estresse crônico pode comprometer sono, memória e imunidade
O estresse crônico costuma se instalar de forma gradual, o que dificulta sua identificação nos estágios iniciais
Em uma rotina marcada por excesso de compromissos, cobranças constantes e estímulos ininterruptos, o estresse tem deixado de ser uma reação pontual para se tornar uma condição frequente na vida de muitas pessoas. Quando prolongado, o problema passa a afetar não apenas a saúde emocional, mas também o funcionamento do organismo, comprometendo o sono, a digestão, a memória e o sistema imunológico.
Segundo a neuropsicóloga Roberta Martins, o estresse crônico costuma se instalar de forma gradual, o que dificulta sua identificação nos estágios iniciais. “O estresse crônico é sorrateiro. Ele não surge de um dia para o outro, mas se constrói aos poucos, no excesso de tarefas, na falta de descanso e até na autocrítica exagerada”, explica.
A especialista destaca que reconhecer os sinais precocemente é fundamental para evitar que o corpo permaneça em estado constante de alerta. Para isso, pequenas mudanças nos hábitos diários podem contribuir significativamente para a redução dos impactos causados pelo estresse.
Entre as recomendações está o respeito aos limites do próprio organismo. Dormir adequadamente, fazer pausas durante o dia e evitar refeições apressadas são atitudes que ajudam a regular o sistema nervoso e a diminuir a produção de cortisol, hormônio associado ao estresse.
“Vivemos num ritmo que desrespeita nossa biologia. Dormir pouco, comer rápido e pular pausas envia ao cérebro a mensagem de que estamos em perigo constante. Respeitar o sono e criar intervalos reais de descanso ajuda a regular o sistema nervoso e reduzir a liberação de cortisol”, afirma.
Outro fator apontado pela neuropsicóloga é o uso excessivo da tecnologia. A exposição contínua a notificações, mensagens e informações mantém o cérebro em estado de vigilância, dificultando o relaxamento e prejudicando a qualidade do descanso. Estabelecer momentos de desconexão, especialmente antes de dormir, pode favorecer o equilíbrio emocional e melhorar a concentração.
Além das pausas de lazer, especialistas destacam a prática regular de exercícios físicos como uma das principais ferramentas para reduzir os impactos do estresse e melhorar a saúde mental. Nesse contexto, as artes marciais vêm ganhando espaço por aliarem atividade física, disciplina e desenvolvimento emocional.

Modalidades como jiu-jitsu, judô e capoeira exigem concentração, técnica e controle corporal, fatores que contribuem para o alívio da tensão e o fortalecimento do equilíbrio psicológico. Mais do que esportes, essas práticas são frequentemente associadas a uma filosofia de vida baseada em valores como respeito, autocontrole e perseverança.
Diferentemente de atividades voltadas exclusivamente para o desempenho competitivo, as artes marciais oferecem um ambiente estruturado em que aspectos como cooperação, disciplina e convivência são incentivados. Essa combinação favorece a liberação de neurotransmissores relacionados ao bem-estar, como serotonina, dopamina e endorfina, além de estimular a criação de vínculos sociais que podem funcionar como importantes redes de apoio emocional.
Um artigo publicado em 2024 pelo portal Artista Marcial destaca que modalidades como judô, capoeira, jiu-jitsu, karatê e taekwondo contribuem para a redução de sintomas de ansiedade, estresse e depressão, além de favorecer o desenvolvimento cognitivo e o fortalecimento da autoestima.
O impacto dessas práticas também se estende ao campo social. Em comunidades e regiões de maior vulnerabilidade, projetos ligados às artes marciais têm sido utilizados como ferramentas de transformação, oferecendo disciplina, senso de pertencimento e novas perspectivas para crianças e adolescentes.
A capoeira é um dos exemplos mais emblemáticos dessa relação entre cultura, esporte e inclusão. Em 2014, a roda de capoeira foi reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, reconhecimento que reforça sua relevância histórica, cultural e social. Além de preservar tradições afro-brasileiras, a modalidade é frequentemente apontada por educadores e mestres como uma importante ferramenta de formação cidadã e prevenção da violência entre jovens.
Autocrítica e estresse em foco
A especialista também alerta para o impacto da autocrítica excessiva na saúde mental. Segundo a neuropsicóloga, a forma como cada indivíduo lida com suas próprias cobranças pode contribuir para a manutenção de níveis elevados de estresse ao longo do tempo.
“O cérebro não diferencia bem uma ameaça real de uma ameaça interna, como o medo de errar. Ser mais gentil consigo mesmo é também uma estratégia neurológica de proteção”, explica.
Outra medida apontada como aliada no controle do estresse é a prática da respiração consciente. Embora simples, a técnica auxilia na regulação do sistema nervoso, contribuindo para a redução da ansiedade e promovendo maior sensação de bem-estar.
Para a especialista, o desafio não está em eliminar completamente o estresse, já que ele faz parte dos mecanismos naturais de adaptação do organismo, mas em desenvolver estratégias para administrá-lo de forma equilibrada e saudável.
“O estresse é uma resposta natural do cérebro, mas quando se torna contínuo, ele adoece o corpo e a mente. Cuidar do equilíbrio diário é uma forma de autoconsciência, e também de prevenção”, conclui.