Mabel anuncia obra de R$ 40 milhões para reduzir alagamentos em Goiânia, mas especialista faz alerta
Prefeitura aposta em reservatório para reduzir impactos das chuvas na região da Jamel Cecílio, mas especialista defende medidas distribuídas por toda a cidade para enfrentar os alagamentos
Nesta quarta-feira (24), o prefeito Sandro Mabel (UB) anunciou a primeira obra para contenção de alagamentos na bacia do Córrego Botafogo. Com um investimento de aproximadamente R$ 40 milhões, o objetivo será reduzir os danos causados pelas chuvas intensas que, historicamente, atingem a capital.
O anúncio da intervenção aconteceu 15 dias após a entrega do Plano Diretor de Drenagem Urbana (PDDU) e já coloca em prática ações previstas no documento. No evento desta quarta-feira, Mabel explicou como será realizada essa primeira obra.
“Nesta primeira etapa, está prevista a construção de uma bacia de retenção de água pluvial com capacidade aproximada de 100 mil metros cúbicos, que ficará localizada entre a Rua Nonato Mota e a Avenida 2ª Radial, na Vila Redenção. Essa é uma obra que atua diretamente na redução dos volumes de água que chegam aos pontos mais críticos da bacia do Botafogo e que poderá reduzir em até 50% o volume de descarga de água no Complexo Viário Jamel Cecílio”, comenta.
Com a bacia de contenção, durante a chuva, a água é captada e armazenada temporariamente, sendo liberada aos poucos, de forma controlada, reduzindo a pressão sobre os córregos e galerias. O resultado esperado é que a estrutura proporcione redução dos picos de vazão, diminua o risco de alagamentos e ofereça mais segurança à população.
Além da construção da bacia, também foram anunciadas melhorias na microdrenagem do Complexo Viário Jamel Cecílio para aumentar a capacidade de escoamento das águas da chuva.
“Hoje, a bacia do Córrego Botafogo é uma área altamente urbanizada e, quando chove forte, o grande volume de água em um curto espaço de tempo pressiona o sistema de drenagem e provoca os alagamentos na região da Jamel Cecílio, interrompendo o trânsito, às vezes causando danos ao patrimônio e trazendo risco à população e prejuízos econômicos”, disse o secretário municipal de Infraestrutura Urbana, Francisco Lacerda.
A realização dessa primeira obra será feita por meio de um contrato emergencial, e a expectativa é que esteja pronta para o próximo período chuvoso. “Deve ficar pronta até o final do ano. A construção das outras bacias será feita por meio de licitação que já estamos preparando”, explicou Mabel.
Críticas de especialista
Embora a obra prometa funcionar como um grande reservatório para diminuir a sobrecarga na região, o geógrafo urbano Glauco Gonçalves argumenta que infraestruturas isoladas não resolvem o problema histórico de drenagem da capital se não vierem acompanhadas de medidas preventivas em toda a cidade.
Para Gonçalves, as soluções mais consistentes e duradouras para o combate às enchentes em metrópoles contemporâneas devem ser “pulverizadas” e “distribuídas pela cidade”. O geógrafo alerta que a obra anunciada corre o risco de ser ineficaz caso a prefeitura não adote políticas rigorosas contra a impermeabilização do solo.
“Não adianta a prefeitura produzir um piscinão, seja de 100.000, 200.000 ou 1 milhão de litros, se a cidade inteira for se impermeabilizando na velocidade que está”, afirma o especialista ao O HOJE.
Além dos questionamentos quanto à eficácia do piscinão, Gonçalves explica que o problema da Marginal Botafogo está em sua própria concepção, resultado do equívoco do urbanismo brasileiro ao transformar áreas de várzea em pistas de circulação. “A margem do rio também é rio. A margem do rio não é uma área para construção de pistas automotivas”, enfatiza Gonçalves.
O especialista explica que a área onde os veículos trafegam foi moldada pelas águas ao longo de milhares de anos, apresentando uma configuração topográfica que naturalmente favorece o acúmulo de água durante as chuvas.
Gonçalves também levanta dúvidas sobre a clareza do projeto bilionário anunciado pela gestão municipal. Ele cobra que a prefeitura torne público todo o planejamento, permitindo que a sociedade saiba quais são os arquitetos, geógrafos e urbanistas envolvidos, além dos detalhes técnicos e financeiros da obra.
Obras de contenção de erosão são realizadas na Botafogo

Além da bacia de contenção anunciada por Sandro Mabel, a Prefeitura de Goiânia também iniciou intervenções emergenciais na Marginal Botafogo, um dos principais pontos críticos da capital durante o período chuvoso. Na tarde da última terça-feira (23), a Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana (Seinfra) iniciou obras de contenção e recuperação de um processo erosivo no Setor Norte Ferroviário, no sentido Goiás Norte.
Para a execução dos serviços, uma das faixas da Marginal Botafogo foi interditada. O trânsito segue fluindo pelas outras duas pistas do trecho, mas a Seinfra orienta os motoristas a redobrarem a atenção e respeitarem a sinalização implantada na via durante o período das obras.
“Nossas equipes estão atuando de forma rápida para recuperar a área afetada e impedir o avanço do processo erosivo. É uma intervenção importante para garantir a segurança dos motoristas que trafegam pela Marginal Botafogo”, afirmou o secretário municipal de Infraestrutura Urbana, Francisco Lacerda.
De acordo com o diretor de Execução de Obras Públicas, Vinícius de Mello, a intervenção prevê soluções para estabilizar o terreno e evitar que a erosão avance sobre a estrutura da via. “A intervenção contempla a construção de muro de arrimo e recuperação da concretagem de parte do leito do Córrego Botafogo, para que possa estabilizar o terreno e evitar o avanço da erosão”, pontuou.
A obra reforça o diagnóstico de que os problemas da bacia do Córrego Botafogo não se limitam aos alagamentos. Além do excesso de água durante as chuvas intensas, a região também sofre com processos erosivos, desgaste da infraestrutura e pressão sobre o sistema de drenagem, fatores que tornam necessárias ações emergenciais e medidas estruturais de longo prazo.