sábado, 31 de outubro de 2026
Família Bolsonaro

Embate entre Michelle e Flávio abre disputa por poder no bolsonarismo

Analistas avaliam que crise vai além de um conflito familiar e revela uma disputa pelo legado político de Jair Bolsonaro

Bruno Goulartpor em
Flávio e Michelle
Para especialistas, Michelle sai fortalecida nos bastidores, enquanto Flávio enfrenta novo desgaste. Foto: Reprodução

Bruno Goulart

A troca pública de críticas entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) expôs uma disputa que, segundo especialistas ouvidos pelo O HOJE, já existia nos bastidores do bolsonarismo. O episódio começou depois que Michelle afirmou ter sido humilhada pelo enteado durante uma conversa sobre decisões do partido. 

Após a repercussão do vídeo publicado na quarta-feira (24), a ex-primeira-dama publicou uma mensagem em que afirmava que “não há briga nem competição” e pediu paz. Na tarde de quinta-feira (25), Flávio respondeu com um novo pedido de desculpas e disse que jamais desrespeitou a esposa do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Apesar da tentativa de reduzir a tensão, analistas entendem que o desgaste deixou marcas na pré-campanha presidencial do senador e fortaleceu a posição política de Michelle.

Estratégia planejada

Para o especialista em Marketing Político e mestre em Comunicação pela UFG, Felipe Fulquim, o vídeo divulgado por Michelle foi cuidadosamente planejado e não pode ser interpretado apenas como um desabafo emocional. Segundo Fulquim, a mensagem foi construída sobre três pilares: Deus, família e política. “Ela preparou o ambiente, a narrativa e o cenário. Falou de mulher para mulher e construiu uma comunicação baseada em símbolos que dialogam diretamente com o eleitorado conservador”, afirma o mestre em Comunicação.

Na avaliação de Fulquim, Michelle utiliza a linguagem religiosa para transmitir uma mensagem de perdão, mas também de firmeza. Ao repetir que “não chegou ontem”, reivindica o espaço que conquistou durante o governo Bolsonaro e reforça sua legitimidade dentro do grupo político. “Ela está dizendo, nas entrelinhas, que sempre foi a pessoa número um ao lado de Bolsonaro”, analisa. Para o mestre em Comunicação, outro recado importante foi direcionado ao futuro. “Michelle conseguiu se defender, responder aos ataques internos e se apresentar como uma alternativa caso o bolsonarismo precise de uma nova liderança.”

Estratégia na manifestação

O estrategista político Marcos Marinho também vê estratégia por trás da manifestação da ex-primeira-dama. Segundo Marinho, cada detalhe do vídeo foi pensado para fortalecer sua imagem dentro do campo conservador. “Michelle construiu toda uma narrativa para resgatar sua legitimidade como primeira-dama do bolsonarismo”, afirma. Na avaliação do estrategista, o principal efeito imediato ainda ocorre nos bastidores. “Vejo muito mais uma redistribuição de poder dentro do grupo do que uma mudança imediata na intenção de voto.”

Marinho considera que Flávio terá de recalibrar sua pré-campanha diante do episódio. “Não é vantagem para ele entrar em rota de colisão com Michelle Bolsonaro neste momento”, observa. Isso porque a ex-primeira-dama mantém forte identificação com dois segmentos considerados estratégicos para a direita: mulheres e evangélicos. “Ela colocou as cartas na mesa e obrigou a família Bolsonaro a reconhecer novamente seu protagonismo”, resume o estrategista político.

Para o especialista em Marketing Político Luiz Carlos Fernandes, o conflito faz parte da disputa pela herança política do ex-presidente Jair Bolsonaro. “É uma disputa de poder entre Michelle, que tem maior proximidade com o grupo evangélico, e Flávio, que carrega o vínculo de sangue com Bolsonaro”, afirma. Na avaliação de Fernandes, a crise pode ampliar um desgaste que o senador já enfrentava junto ao eleitorado evangélico. “Essa briga pode enfraquecer ainda mais a candidatura de Flávio entre os evangélicos”, diz.

Fernandes avalia ainda que a tendência é de fragmentação desse segmento religioso, ao deixar de gravitar exclusivamente em torno do bolsonarismo. O especialista lembra que Flávio também enfrenta outros desafios políticos e entende que o cenário da campanha ficou mais difícil. “Não acredito que ele desista da candidatura, mas a situação se torna mais complicada”, avalia.

“Parece ter sido fulminante”

O sociólogo político Jones Matos reforça essa avaliação. Segundo Matos, a pré-campanha de Flávio já acumulava desgastes antes mesmo da crise familiar. “Depois do escândalo do Banco Master, a campanha do senador tem produzido crises quase que diárias. A fala de Michelle parece ter sido fulminante e deverá produzir ainda mais instabilidade com os aliados nos Estados”, pontua. (Especial para O HOJE)

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