terça-feira, 30 de junho de 2026
PALANQUE SOCIAL

Entrega de veículos em Goiás vira palco de disputa política em ano eleitoral

Agenda do governo federal em Goiânia expôs diferentes estratégias entre PT e PL sobre como capitalizar, ou neutralizar, a presença de Brasília em Goiás.

Luma Silveirapor Luma Silveira em 30 de junho de 2026
Ao todo, 87 veículos do programa MobSUAS foram entregues em Goiás para reforçar a rede de assistência social em dezenas de municípios
Ao todo, 87 veículos do programa MobSUAS foram entregues em Goiás para reforçar a rede de assistência social em dezenas de municípios | Foto: Luma Silveira

A entrega de 87 veículos do programa MobSUAS, realizada nesta terça-feira (30), em Goiânia, ultrapassou o caráter institucional de reforço à assistência social e evidenciou a disputa política em curso no estado. A agenda, comandada pelo ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias, reuniu parlamentares de diferentes campos ideológicos e mostrou como aliados e opositores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tentam construir narrativas distintas sobre a presença do governo federal em Goiás.

Com investimento de R$ 25,9 milhões, a iniciativa contempla vans adaptadas e caminhonetes destinadas ao fortalecimento da rede socioassistencial em dezenas de municípios goianos. Os veículos serão utilizados no atendimento a famílias inscritas no Cadastro Único, beneficiários do Bolsa Família, idosos, pessoas com deficiência e população em situação de vulnerabilidade. Apesar do foco social, o componente político dominou a agenda.

Durante a coletiva, Wellington Dias evitou associar diretamente a entrega a uma estratégia eleitoral. Ao ser questionado sobre o impacto político da agenda, o ministro insistiu em um discurso institucional, centrado na recuperação econômica e no fortalecimento das políticas públicas. “O Brasil voltou a crescer, o país voltou a ter saldo positivo de emprego”, afirmou, antes de reforçar que o governo busca integrar crescimento econômico e proteção social.

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O mesmo padrão se repetiu quando foi questionado sobre os critérios de escolha dos municípios contemplados. Em vez de detalhar parâmetros objetivos, o ministro ampliou a resposta para a importância da assistência social e da articulação com os municípios. “Goiás é um modelo que deve ser seguido por outros estados do Brasil, porque o resultado está chegando”, disse. A postura indicou uma tentativa do governo de manter o foco no caráter institucional da agenda, evitando alimentar um debate eleitoral mais explícito.

PT aposta na comparação entre governos

O ministro Wellington Dias participou da cerimônia de entrega ao lado de parlamentares e autoridades em Goiânia | Foto: Luma Silveira

Se Wellington evitou politizar o evento, a deputada federal Adriana Accorsi (PT) fez justamente o oposto. A parlamentar tratou de associar as entregas ao debate eleitoral e deixou claro que a estratégia petista passa pela comparação entre gestões. “Esse ano é o ano da comparação”, declarou, ao defender que a população avalie resultados concretos antes de decidir qual projeto político deve continuar governando o país.

Adriana elevou o tom ao comparar o governo Lula com a gestão anterior, usando a política habitacional como exemplo. “Nós estamos entregando milhares de casas e apartamentos do Minha Casa Minha Vida em Goiás. Quantos o Bolsonaro entregou da Casa Verde e Amarela? Nenhuma”, afirmou. A deputada também fez questão de destacar protagonismo pessoal na agenda. “Eu indiquei 13 dessas vans”, disse, acrescentando que os municípios contemplados pertencem a diferentes campos partidários, mas tinham necessidade comprovada.

O discurso reforça um movimento já perceptível dentro do PT goiano: transformar entregas federais em capital político capaz de ampliar a presença de Lula em um estado tradicionalmente mais conservador.

PL busca manter distância do Planalto

Deputada federal Magda Mofatto posa ao lado de beneficiários durante entrega de veículo destinado por emenda parlamentar a município goiano o | Foto: Luma Silveira

Já a deputada federal Magda Mofatto (PL) adotou uma postura mais cautelosa e tratou de conter qualquer interpretação de aproximação política com o governo federal. Presente no evento em razão de emendas destinadas a municípios goianos, Magda fez questão de estabelecer uma separação entre relação institucional e alinhamento político.

“Um relacionamento de cortesia não significa aproximação de maneira nenhuma”, afirmou. Ao justificar sua presença, a parlamentar argumentou que a interlocução com Brasília é parte da atividade legislativa, já que a execução de emendas depende de articulação técnica e administrativa com o governo federal. “Eu sou deputada federal e as nossas emendas dependem do governo federal”, disse.

A declaração foi interpretada como um recado claro ao eleitorado bolsonarista: dialogar com o Planalto não significa aderir politicamente ao governo Lula.

O desconforto aumentou quando Magda foi questionada sobre recentes episódios envolvendo o PL em Goiás. Visivelmente incomodada, a deputada interrompeu a entrevista e recusou comentar o assunto, encerrando a conversa. A reação evidenciou a tensão política que atravessou o evento e mostrou que, em ano eleitoral, até agendas voltadas à assistência social deixam de ser exclusivamente administrativas.

Em um cenário em que entregas institucionais também alimentam narrativas eleitorais, a agenda em Goiânia reforçou como políticas públicas e articulação política seguem caminhando lado a lado no estado.

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