domingo, 8 de novembro de 2026
PALANQUE SOCIAL

Entrega de veículos em Goiás vira palco de disputa política em ano eleitoral

Agenda do governo federal em Goiânia expôs diferentes estratégias entre PT e PL sobre como capitalizar, ou neutralizar, a presença de Brasília em Goiás.

Luma Silveirapor em
Ao todo, 87 veículos do programa MobSUAS foram entregues em Goiás para reforçar a rede de assistência social em dezenas de municípios
Ao todo, 87 veículos do programa MobSUAS foram entregues em Goiás para reforçar a rede de assistência social em dezenas de municípios | Foto: Luma Silveira

A entrega de 87 veículos do programa MobSUAS, realizada nesta terça-feira (30), em Goiânia, ultrapassou o caráter institucional de reforço à assistência social e evidenciou a disputa política em curso no estado. A agenda, comandada pelo ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias, reuniu parlamentares de diferentes campos ideológicos e mostrou como aliados e opositores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tentam construir narrativas distintas sobre a presença do governo federal em Goiás.

Com investimento de R$ 25,9 milhões, a iniciativa contempla vans adaptadas e caminhonetes destinadas ao fortalecimento da rede socioassistencial em dezenas de municípios goianos. Os veículos serão utilizados no atendimento a famílias inscritas no Cadastro Único, beneficiários do Bolsa Família, idosos, pessoas com deficiência e população em situação de vulnerabilidade. Apesar do foco social, o componente político dominou a agenda.

Durante a coletiva, Wellington Dias evitou associar diretamente a entrega a uma estratégia eleitoral. Ao ser questionado sobre o impacto político da agenda, o ministro insistiu em um discurso institucional, centrado na recuperação econômica e no fortalecimento das políticas públicas. “O Brasil voltou a crescer, o país voltou a ter saldo positivo de emprego”, afirmou, antes de reforçar que o governo busca integrar crescimento econômico e proteção social.

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O mesmo padrão se repetiu quando foi questionado sobre os critérios de escolha dos municípios contemplados. Em vez de detalhar parâmetros objetivos, o ministro ampliou a resposta para a importância da assistência social e da articulação com os municípios. “Goiás é um modelo que deve ser seguido por outros estados do Brasil, porque o resultado está chegando”, disse. A postura indicou uma tentativa do governo de manter o foco no caráter institucional da agenda, evitando alimentar um debate eleitoral mais explícito.

PT aposta na comparação entre governos

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O ministro Wellington Dias participou da cerimônia de entrega ao lado de parlamentares e autoridades em Goiânia | Foto: Luma Silveira

Se Wellington evitou politizar o evento, a deputada federal Adriana Accorsi (PT) fez justamente o oposto. A parlamentar tratou de associar as entregas ao debate eleitoral e deixou claro que a estratégia petista passa pela comparação entre gestões. “Esse ano é o ano da comparação”, declarou, ao defender que a população avalie resultados concretos antes de decidir qual projeto político deve continuar governando o país.

Adriana elevou o tom ao comparar o governo Lula com a gestão anterior, usando a política habitacional como exemplo. “Nós estamos entregando milhares de casas e apartamentos do Minha Casa Minha Vida em Goiás. Quantos o Bolsonaro entregou da Casa Verde e Amarela? Nenhuma”, afirmou. A deputada também fez questão de destacar protagonismo pessoal na agenda. “Eu indiquei 13 dessas vans”, disse, acrescentando que os municípios contemplados pertencem a diferentes campos partidários, mas tinham necessidade comprovada.

O discurso reforça um movimento já perceptível dentro do PT goiano: transformar entregas federais em capital político capaz de ampliar a presença de Lula em um estado tradicionalmente mais conservador.

PL busca manter distância do Planalto

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Deputada federal Magda Mofatto posa ao lado de beneficiários durante entrega de veículo destinado por emenda parlamentar a município goiano o | Foto: Luma Silveira

Já a deputada federal Magda Mofatto (PL) adotou uma postura mais cautelosa e tratou de conter qualquer interpretação de aproximação política com o governo federal. Presente no evento em razão de emendas destinadas a municípios goianos, Magda fez questão de estabelecer uma separação entre relação institucional e alinhamento político.

“Um relacionamento de cortesia não significa aproximação de maneira nenhuma”, afirmou. Ao justificar sua presença, a parlamentar argumentou que a interlocução com Brasília é parte da atividade legislativa, já que a execução de emendas depende de articulação técnica e administrativa com o governo federal. “Eu sou deputada federal e as nossas emendas dependem do governo federal”, disse.

A declaração foi interpretada como um recado claro ao eleitorado bolsonarista: dialogar com o Planalto não significa aderir politicamente ao governo Lula.

O desconforto aumentou quando Magda foi questionada sobre recentes episódios envolvendo o PL em Goiás. Visivelmente incomodada, a deputada interrompeu a entrevista e recusou comentar o assunto, encerrando a conversa. A reação evidenciou a tensão política que atravessou o evento e mostrou que, em ano eleitoral, até agendas voltadas à assistência social deixam de ser exclusivamente administrativas.

Em um cenário em que entregas institucionais também alimentam narrativas eleitorais, a agenda em Goiânia reforçou como políticas públicas e articulação política seguem caminhando lado a lado no estado.

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