sexta-feira, 3 de julho de 2026
Interdependência

Com 70% da soja brasileira, China e Brasil vivem relação de mútua dependência

Principal compradora da soja brasileira, a China respondeu por cerca de 41 milhões de toneladas embarcadas nos cinco primeiros meses de 2026

Lalice Fernandespor Lalice Fernandes em 2 de julho de 2026
soja
Apesar de concentração das exportações, especialistas avaliam que Brasil e China dependem um do outro (Foto: James Baltz/Unsplash)

A China continua sendo um dos principais destinos da soja brasileira. Entre janeiro e maio de 2026, o Brasil embarcou 58,5 milhões de toneladas da oleaginosa, segundo a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec). Desse total, 70% tiveram como destino o mercado chinês, o equivalente a cerca de 41 milhões de toneladas. O volume supera o registrado no mesmo período de 2025 e reforça a posição do Brasil como maior fornecedor da commodity.

Apesar da forte concentração das exportações, especialistas ouvidos pela reportagem do O HOJE afirmam que a relação comercial entre Brasil e China não pode ser interpretada como uma dependência exclusiva dos brasileiros. Na avaliação deles, o fluxo é sustentado por uma necessidade mútua entre os dois países.

Relação é de interdependência

O consultor de agronegócio Ênio Fernandes explica ao O HOJE que o comércio internacional está cada vez mais integrado e que a soja é um exemplo dessa interdependência. Segundo o especialista, “é muito simplista falar que o Brasil é dependente da China”. “Ele é dependente da China, ele também é dependente dos Estados Unidos, mas essas economias também são dependentes. A China é hiper dependente do Brasil”, afirma. 

Enquanto o debate sobre essa relação ganha espaço, os embarques brasileiros continuam elevados. A Anec estima que, somente em junho, foram exportadas cerca de 14 milhões de toneladas de soja. No acumulado do primeiro semestre, os embarques alcançaram 72,79 milhões de toneladas. Além do grão, o Brasil exportou 12,85 milhões de toneladas de farelo de soja e 6,25 milhões de toneladas de milho.

Os dados também mostram a distância entre a China e os demais compradores da soja brasileira. Depois do mercado chinês aparecem Espanha, com 5% das compras; Turquia (4%); Tailândia (3%); Paquistão, Holanda, Irã, México e Argélia, todos com participações significativamente menores.

Para o economista Luiz Carlos Ongaratto, a importância da China vai além do volume adquirido. Segundo o especialista, o país influencia o mercado internacional principalmente pela formação de estoques e pelo comportamento do consumo interno, mas isso não significa que determine sozinho o preço da commodity. “O Brasil não é formador de preço da soja. Tudo é negociado via bolsa; o que muda é o prêmio pago pela soja posta no porto no Brasil”, afirma ao O HOJE.

Segundo o economista, o recuo observado nas cotações decorre principalmente do aumento da oferta mundial. Com safras recordes, a produção passou a superar o consumo e os estoques globais cresceram, pressionando os preços.

 Para Ênio Fernandes, a desvalorização da soja deve ser analisada com cautela. Fernandes destaca que, em dólar, as cotações permanecem próximas das médias históricas e que o cenário atual representa uma normalização após os preços excepcionalmente elevados registrados durante a pandemia. Na avaliação do especialista, o principal desafio hoje não é o valor da soja, mas o elevado endividamento dos produtores.

Troca da soja pelo milho

Outro ponto que vem sendo discutido pelo mercado é a possibilidade de produtores substituírem parte da área de soja pelo milho. A hipótese ganhou força diante da oferta elevada da oleaginosa, mas os especialistas descartam uma migração expressiva.

Segundo Ênio, o crédito rural pesa nessa decisão. O consultor afirma que o milho exige um investimento maior por hectare e que muitos produtores enfrentam dificuldades para acessar financiamento. Por isso, a tendência não seria trocar a soja pelo milho, mas, em alguns casos, devolver áreas agrícolas à pecuária.

Ongaratto também descarta uma substituição relevante entre as duas culturas. Segundo o economista, a soja normalmente ocupa a primeira safra por apresentar maior valor agregado, enquanto o milho é cultivado na safrinha, quando as condições permitem.

“O milho teria que aumentar muito de preço para substituir a soja, e isso não acontece. A concorrência não é soja x milho, porque, nas áreas em que se planta soja, nem sempre é possível plantar outra coisa”, afirma. “A soja vai concorrer com a cana-de-açúcar em Goiás, por exemplo, ou com a pecuária” completa.

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