Calor e baixa umidade elevam riscos para culturas agrícolas em Goiás
Tempo seco favorece a colheita, mas calor e menor disponibilidade de água no solo preocupam áreas em desenvolvimento
O calor intenso e a baixa umidade registrados em Goiás nesta semana chegam ao campo em um momento de avanço da colheita e levantam preocupações distintas entre as culturas agrícolas. Enquanto o tempo seco favorece a retirada de lavouras já maduras, o estresse térmico e a menor disponibilidade de água no solo podem comprometer o rendimento de áreas que ainda estão em desenvolvimento. O cenário também aumenta o risco de incêndios e de perdas provocadas por ventos fortes.
Na segunda-feira (10), a cidade de Goiás registrou 41,4°C e São Miguel do Araguaia, 41,1°C. Em Goiânia, os 38,3°C foram a maior temperatura para agosto desde o início da série histórica, em 1937. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) também emitiu alerta de perigo potencial para vendavais em 17 municípios das regiões norte e leste, com ventos entre 40 km/h e 60 km/h. A previsão do Centro de Informações Meteorológicas e Hidrológicas de Goiás (Cimehgo) é de continuidade do calor e da baixa umidade nos próximos dias e semanas.
Os reflexos sobre a produção, porém, já aparecem antes mesmo do atual pico de calor. O Sistema Faeg Senar/Ifag estima redução de 28,9% na produção de milho de segunda safra no Estado. A área plantada foi estimada em cerca de 1,7 milhão de hectares e, considerando a redução da área e da produtividade, a entidade calcula queda entre 3,5 milhões e 4 milhões de toneladas.
Segundo o assessor técnico da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), Lucas Lopes, as áreas plantadas mais tarde ficaram mais expostas à menor disponibilidade hídrica registrada em abril e maio. “O déficit hídrico registrado durante fases críticas do desenvolvimento do milho, especialmente durante a floração e o enchimento de grãos, já comprometeu parte do potencial produtivo das lavouras”, afirmou ao O HOJE.
Ao mesmo tempo, o clima seco pode ajudar quem está na fase final da produção. Cerca de 74% da área de milho já foi colhida em Goiás. Para as lavouras que atingiram a maturidade fisiológica, a condição amplia a janela de operação das máquinas e reduz problemas relacionados à umidade dos grãos.
“O clima seco apresenta uma condição de dupla influência: ao mesmo tempo em que favorece e acelera o avanço da colheita, também eleva os riscos operacionais nas áreas que ainda permanecem em campo”, explica Lopes.
Culturas agrícolas sob atenção
Além do milho, a Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa) aponta atenção para outras culturas agrícolas como feijão de terceira safra e algodão. No feijão, temperaturas superiores a 35°C durante a floração podem comprometer o rendimento. No milho, o calor excessivo na polinização afeta a viabilidade do pólen e pode antecipar o ciclo. Já o algodão fica mais exposto ao estresse durante a formação das estruturas reprodutivas quando há temperaturas elevadas associadas à restrição hídrica.
O algodão de sequeiro está em fase de finalização da colheita, enquanto o irrigado iniciou os trabalhos. A cana-de-açúcar apresenta maior tolerância ao calor, mas também pode ter o desenvolvimento prejudicado pela combinação de temperaturas extremas e déficit hídrico. Sorgo e girassol, por sua vez, tiveram impactos na produtividade associados ao estresse hídrico, embora o aumento das áreas semeadas tenha compensado parte das perdas.
A Seapa informa que, até o momento, “não há estimativas numéricas que mensurem impactos sobre a produtividade total do Estado”. O monitoramento considera umidade, temperatura e precipitação, com atenção às principais regiões produtoras. A secretaria também destaca que os efeitos dos indicativos de El Niño para o segundo semestre dependerão da distribuição das chuvas, da umidade do solo e da fase de desenvolvimento de cada cultura agrícola.
Outro risco está nas áreas que ainda passam pela colheita. A vegetação seca e a baixa umidade aumentam a possibilidade de incêndios provocados por fagulhas durante a operação das máquinas. Os vendavais também podem causar danos às lavouras, segundo Lopes, o acamamento e a quebra de plantas podem dificultar a operação das máquinas, reduzir a eficiência da colheita e aumentar as perdas.
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