Alta nas renegociações revela pressão sobre orçamento das famílias em Goiás
Estado registrou mais de 673 mil acordos no período, enquanto especialistas alertam para os cuidados necessários para evitar novo endividamento
A busca por uma saída para as contas atrasadas aumentou em Goiás. Entre 5 de maio e 31 de agosto de 2026, consumidores do Estado fecharam 673.581 acordos para renegociar dívidas, segundo dados da Serasa. O resultado representa crescimento de 36% na comparação com o mesmo período de 2025, quando foram contabilizados 496.686 acordos.
O movimento acompanha uma tendência nacional. No Brasil, foram realizados 19,7 milhões de acordos entre maio e agosto deste ano, também com alta de 36% em relação ao mesmo período do ano anterior. O número de pessoas que buscaram regularizar as dívidas passou de 7,1 milhões para 9,4 milhões.
Em Goiás, 327.452 consumidores únicos procuraram negociar suas dívidas entre maio e agosto. O número é diferente do total de acordos porque uma mesma pessoa pode ter fechado mais de uma negociação no período.
Para o economista Leonardo Ferraz, o crescimento das renegociações mostra que existe uma parcela considerável das famílias tentando reorganizar as finanças depois de um período de maior endividamento. Ao mesmo tempo, segundo Ferraz, o número também revela pressão sobre o orçamento dos consumidores.
“Mais acordos não significam necessariamente que a inadimplência está piorando”, explica. O especialista destaca que o aumento das renegociações ocorre paralelamente à desaceleração do crescimento do número de inadimplentes, o que pode indicar maior procura por alternativas para regularizar pendências.
Pressão sobre o orçamento
Apesar da procura por acordos, o cenário ainda exige atenção. Em agosto, o Brasil tinha 83,98 milhões de consumidores com alguma dívida em atraso. Em julho, eram 83,93 milhões. O crescimento mensal foi de 0,06%, menor avanço registrado ao longo de 2026 de acordo com o Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas da Serasa.
Em Goiás, a alta de inadimplentes entre julho e agosto foi de 0,2%, segundo dados apresentados pela Serasa. Para Aline Vieira, especialista da empresa em educação financeira do Serasa, condições mais favoráveis de pagamento podem ajudar o consumidor a organizar as contas antes que a dívida aumente ainda mais.
A especialista ressalta, porém, que a renegociação não encerra sozinha o problema. Depois de fechar um acordo, é necessário incluir as novas parcelas no orçamento e acompanhar os gastos para evitar que uma nova dívida seja formada.
O alerta ganha importância com a aproximação do fim do ano, período em que as famílias costumam ter despesas adicionais e maior volume de compras. Para quem já possui parte da renda comprometida com dívidas, assumir novas parcelas pode dificultar a manutenção dos acordos feitos anteriormente.
Leonardo Ferraz explica que os juros também pesam nesse cenário. Segundo o economias, taxas elevadas aumentam o custo do crédito e o valor das parcelas. Dessa forma, mesmo quando há possibilidade de renegociação, é necessário verificar se a nova prestação realmente cabe no orçamento.
“Trocar uma dívida cara por outra mais barata pode fazer sentido”, afirma o economista. No entanto, Ferraz alerta que o consumidor precisa comparar juros, prazo e valor total da operação. Caso contrário, pode apenas trocar um credor por outro sem resolver o desequilíbrio financeiro.
Dívida que cresce
A esteticista Franciele Rita conhece essa dificuldade. A profissional conta que atualmente possui uma dívida superior a R$ 20 mil no cartão de crédito. Com a incidência dos juros, o valor total já se aproxima de R$ 26 mil. Segundo Franciele, a pendência se arrasta há cerca de sete meses.
Franciele afirma que tenta encontrar uma forma de renegociar o débito, mas enfrenta dificuldades diante dos valores das parcelas. “Sempre tento renegociar, mas sempre é complicado. São valores altos mensais, com mais juros e com mais tempo para pagar”, relata.
Segundo a esteticista, as cobranças também chegam durante o mês, quando nem sempre há dinheiro disponível para assumir uma parcela elevada. O caso mostra uma das dificuldades enfrentadas por consumidores que, apesar de procurarem uma solução, precisam encontrar uma condição compatível com a própria renda.
Para Aline Vieira, o planejamento financeiro depois da renegociação é fundamental para evitar a repetição do problema. A Serasa aponta que a educação financeira pode ajudar o consumidor a compreender melhor o orçamento, o uso do crédito e a organização das contas.
Entre os indicadores que devem ser observados estão o número de inadimplentes, o valor médio das dívidas, o percentual da renda comprometido e a reincidência na inadimplência.
A proximidade do fim do ano acrescenta outro desafio. Com o aumento das despesas e das compras, famílias que acabaram de reorganizar as contas podem voltar a comprometer o orçamento.
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