sábado, 24 de outubro de 2026
NEGÓCIOS

Adeus à carteira assinada? Jovens impulsionam alta da economia dos bicos

Com crescimento dos aplicativos e do trabalho freelancer, plataformas digitais transformam relações de emprego e avançam no Centro-Oeste

Otavio Augustopor em
Adeus à carteira assinada? Jovens impulsionam alta da economia dos bicos
Marcello Casal Jr

A forma de trabalhar no Brasil está passando por uma transformação acelerada. Cada vez mais jovens têm deixado de enxergar o emprego com carteira assinada como único caminho profissional e migrado para atividades realizadas por aplicativos, plataformas digitais e trabalhos freelancers. A chamada “economia dos bicos”, impulsionada pela tecnologia e pela busca por flexibilidade, já movimenta milhões de brasileiros e altera profundamente as relações de trabalho.

Os números confirmam essa mudança. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que o número de trabalhadores em plataformas digitais passou de aproximadamente 1,3 milhão em 2022 para 1,7 milhão em 2024, crescimento de 25,4% em apenas dois anos. Atualmente, esse grupo representa 1,9% de todos os trabalhadores do setor privado brasileiro, percentual superior aos 1,5% registrados na pesquisa anterior.

Embora o Sudeste concentre mais da metade desses profissionais, o levantamento chama atenção para o avanço acelerado no Centro-Oeste, incluindo Goiás, e na Região Norte, onde o crescimento ultrapassou 50% no período analisado.

Flexibilidade atrai jovens e impulsiona nova cultura profissional

Entre os principais fatores que explicam esse crescimento está a busca por autonomia. A possibilidade de escolher os próprios horários, trabalhar em diferentes períodos do dia e conciliar outras atividades faz com que milhares de brasileiros enxerguem os aplicativos como alternativa ao modelo tradicional de emprego.

Essa é a realidade do entregador por aplicativo Augusto Cesar Sabino Costa, de 34 anos. Para ele, a flexibilidade pesa mais do que a estabilidade oferecida pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

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Divulgação

Segundo Augusto, o aplicativo permite organizar a rotina de acordo com suas necessidades e aumentar a renda conforme a quantidade de horas trabalhadas. Ele afirma que não pretende retornar ao mercado formal porque considera que muitos salários pagos atualmente já não conseguem atender ao custo de vida. Além da renda imediata, o trabalho nas plataformas também funciona como instrumento para financiar projetos pessoais. Augusto utiliza os ganhos para investir no sonho de lançar uma marca própria de roupas, desejo cultivado desde a adolescência.

Plataformas expandem atuação para novos setores

Se, há alguns anos, os aplicativos eram associados quase exclusivamente aos motoristas e entregadores, hoje a realidade é bastante diferente. Segundo levantamento desenvolvido por pesquisadores do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit), da Unicamp, o maior crescimento ocorreu justamente entre trabalhadores de serviços gerais, segmento que avançou 52,1% entre 2022 e 2024.

Atualmente, plataformas digitais conectam consumidores a eletricistas, diaristas, encanadores, manicures, pedreiros, carpinteiros, montadores de móveis, técnicos de informática, pintores e diversos outros profissionais autônomos. Essa ampliação demonstra que a chamada economia de plataformas deixou de ser restrita ao transporte de passageiros e às entregas, tornando-se um modelo de negócios presente em praticamente todos os segmentos de serviços.

Crescimento também amplia debate sobre precarização

Apesar da expansão, pesquisadores alertam que o aumento do número de trabalhadores nas plataformas não significa, necessariamente, melhoria nas condições de trabalho. Dados do IBGE mostram que 71,1% dos trabalhadores plataformizados estão na informalidade, percentual muito superior aos 43,8% registrados entre os demais trabalhadores do setor privado.

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Daniel Teixeira

A proteção previdenciária também preocupa. Apenas 35,9% contribuem para a Previdência Social, enquanto entre os trabalhadores não vinculados às plataformas esse índice chega a 61,9%. Outro dado revela uma diferença importante na remuneração. Embora trabalhem, em média, 5,5 horas a mais por semana, os trabalhadores de plataformas recebem cerca de R$ 15,40 por hora, rendimento 8,3% inferior aos R$ 16,80 registrados entre os demais trabalhadores.

Entre os entregadores que utilizam motocicleta, a situação é ainda mais delicada: apenas 21,6% contribuem para a Previdência, enquanto 84,3% atuam na informalidade.

Enquanto especialistas discutem novas formas de regulamentação, a economia dos bicos continua crescendo e remodelando o mercado de trabalho brasileiro. Em Goiás e em todo o Centro-Oeste, onde a expansão das plataformas supera a média nacional, o fenômeno evidencia uma mudança estrutural nas relações profissionais, marcada pelo equilíbrio entre autonomia, empreendedorismo, geração de renda e os desafios relacionados à proteção social e aos direitos trabalhistas.

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