quarta-feira, 7 de outubro de 2026
danos na safra

Safra 2026/27 em Goiás entra em alerta com previsão de Super El Niño

Fenômeno tem 81% de probabilidade de ocorrer, segundo a NOAA, e deve atingir o pico entre setembro e novembro

Anna Salgadopor em
safra el niño
Legenda: A previsão de um Super El Niño coloca a safra 2026/27 em Goiás sob monitoramento, diante do risco de perdas no campo, aumento dos custos de produção e impactos na oferta de alimentos Foto: Reprodução

A safra 2026/27 em Goiás entra em período de atenção diante da previsão de um El Niño de forte intensidade, que deve provocar irregularidade nas chuvas, veranicos prolongados e temperaturas acima da média durante o plantio. Segundo os relatórios mais recentes da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), o fenômeno tem 81% de probabilidade de ocorrer e deve atingir o pico entre setembro e novembro.

As projeções indicam aquecimento das águas do Oceano Pacífico superior a 2°C acima da média, configuração classificada por especialistas e pelo mercado como “Super El Niño”. Em Goiás, esse cenário costuma provocar chuvas irregulares, veranicos prolongados e temperaturas elevadas, aumentando os riscos para a produção agrícola.

Ao contrário de anos com precipitações bem distribuídas, o El Niño tende a concentrar chuvas em períodos isolados, seguidos por estiagens prolongadas. Esse comportamento climático afeta principalmente a germinação e o desenvolvimento inicial das lavouras de soja e milho, culturas que dependem de umidade uniforme no solo para manter o potencial produtivo.

O analista técnico do GETEC/Faeg, Lucas Lopes, afirma que a principal preocupação é a desuniformidade do plantio. “A irregularidade das chuvas pode comprometer a emergência das plantas e, em casos severos, exigir o replantio, elevando os custos de produção”, explica. Segundo Lopes, as temperaturas elevadas também aceleram a perda de umidade do solo por evapotranspiração, ampliando o estresse hídrico das plântulas.

A Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (FAEG) alerta que o atraso no plantio da soja provocado pela falta de chuvas pode comprometer o calendário da safra. Com a colheita postergada, a janela ideal para o milho segunda safra (safrinha) é reduzida. “Parte das lavouras de milho passará a ser implantada em períodos de maior risco climático, aumentando a exposição ao déficit hídrico durante o florescimento e enchimento de grãos”, ressalta Lopes.

Os reflexos também podem atingir o setor de hortifrutigranjeiros. Dados da Ceasa-GO apontam alta entre 20% e 50% nos preços de diversos produtos entre maio e junho, movimento que pode ser intensificado pela maior dependência da irrigação.

A economista Greice Guerra avalia que os impactos do El Niño não devem se limitar ao campo e podem alcançar o consumidor. Segundo a especialista, o fenômeno pode figurar entre os eventos climáticos mais severos dos últimos 50 a 150 anos, em um contexto de juros elevados e custos de produção já pressionados.

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“Uma redução na oferta de soja e milho acarreta a elevação do preço desses grãos, que são a base das rações animais”, explica Guerra. De acordo com a economista, esse movimento aumenta os custos da pecuária bovina e da avicultura, pressionando os preços da carne e do frango. Guerra acrescenta que o produtor goiano também enfrenta os impactos da alta do petróleo e dos fertilizantes associados aos conflitos internacionais. “O governo precisa oferecer créditos com taxas de juros menores para atravessar essa crise, e o produtor deve buscar o hedge (seguro) para proteger sua lavoura”, recomenda.

O secretário de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Goiás, Ademar Leal, informa que a Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa) acompanha permanentemente os prognósticos climáticos por meio do Cimehgo e da Semad. Segundo o secretário, a safra 2026/27 exigirá atenção redobrada, embora o setor tenha ampliado os investimentos em agricultura de precisão e em cultivares mais adaptadas às condições climáticas.

A orientação da Seapa é que o planejamento da safra considere o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) e a manutenção da cobertura do solo para preservar a umidade. A secretaria também atua na prevenção de incêndios florestais, orientando produtores sobre a manutenção de aceiros e de pontos de abastecimento de água.

A FAEG destaca que, embora o setor esteja mais preparado do que em episódios anteriores, como o El Niño de 2015/16, a restrição ao crédito rural e a ausência de uma política robusta de Seguro Rural no Plano Safra 2026/27 ampliam a vulnerabilidade da atividade diante das condições climáticas previstas.

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