terça-feira, 6 de outubro de 2026
AGRO GOIANO

Queda de 19,4% nas exportações à Argentina tem efeito limitado em Goiás

Enquanto o setor automotivo puxou a retração nacional, o agronegócio goiano ampliou as vendas para o país vizinho em 2026

Lalice Fernandespor em
argentina
Agronegócio goiano exportou US$ 13,3 milhões à Argentina até julho, ante US$ 10,3 milhões em 2025 (Foto: Lucas van Oort/Unsplash)

No momento em que o Brasil registra perda de espaço no mercado argentino, Goiás segue um caminho diferente. Enquanto as exportações brasileiras para o país vizinho caíram 19,4% no primeiro semestre de 2026, o agronegócio goiano ampliou as vendas para a Argentina no mesmo período. Nacionalmente a retração foi puxada principalmente pelo setor automotivo, enquanto em Goiás, a pauta de exportações é concentrada em commodities agropecuárias.

Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) mostram que o Brasil exportou US$ 7,4 bilhões para a Argentina entre janeiro e junho deste ano, ante US$ 9,1 bilhões no mesmo período de 2025. Com isso, a participação do mercado argentino nas exportações brasileiras caiu de 5,5% para 4%. Apesar da retração, a Argentina permanece como o terceiro principal destino dos produtos brasileiros, atrás apenas da China e dos Estados Unidos.

Abertura comercial favorece concorrência

A maior queda ocorreu justamente entre os produtos que lideram as exportações brasileiras ao país vizinho. As vendas de veículos de passageiros recuaram 28,2% no primeiro semestre, enquanto as de peças e acessórios para veículos diminuíram 28,7%. O desempenho coincide com a ampliação da presença de montadoras chinesas na Argentina, favorecida pela política de abertura comercial do governo Milei.

Segundo a economista Greice Guerra, a concorrência chinesa explica boa parte da perda de mercado brasileira. A especialista afirma que o governo argentino reduziu barreiras para importações e “isso fez com que a China ampliasse suas vendas para a Argentina e superasse o Brasil, principalmente no setor automotivo”. 

O economista Leonardo Ferraz avalia que a retração resulta de uma combinação de fatores, com destaque para o cenário econômico do país vizinho. Segundo o especialista, o “processo de ajuste da economia argentina, que reduziu o consumo” e, consequentemente, as compras externas. “Além disso, oscilações cambiais e um cenário internacional mais incerto também influenciam as decisões de compra das empresas argentinas”.

A divulgação dos números também ocorre em meio ao acirramento das divergências entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Javier Milei. Apesar dos atritos recentes entre os governos, os economistas ouvidos avaliam que a queda das exportações está ligada principalmente às mudanças na política comercial da Argentina, enquanto o ambiente diplomático contribui para aumentar a insegurança nas relações bilaterais. 

Cenário das exportações goianas

Embora o cenário nacional seja de retração, Goiás apresenta comportamento distinto. Dados da Plataforma Aroeira mostram que, entre janeiro e julho deste ano, o agronegócio goiano exportou US$ 13,31 milhões para a Argentina, acima dos US$ 10,33 milhões registrados no mesmo período de 2025.

As carnes responderam por US$ 7,29 milhões, o equivalente a 54,8% das vendas. Na sequência aparecem os produtos hortícolas, leguminosas, raízes e tubérculos, com US$ 3,75 milhões (28,2%), e os demais produtos de origem vegetal, que somaram US$ 846,7 mil (6,4%).

Para Guerra, a diferença ocorre porque Goiás depende menos do mercado argentino do que outras regiões do País. “O Estado tem mais foco nas commodities agrícolas e minerais e exporta principalmente para a Ásia e para a União Europeia. A Argentina não é um mercado tão representativo para as exportações goianas quanto é para outros segmentos da economia brasileira”, afirma.

Leonardo Ferraz também considera que os reflexos para Goiás tendem a ser limitados. Segundo Ferraz, apesar de alguns segmentos manterem relações comerciais com a Argentina, a diversificação dos mercados compradores reduz a exposição da economia goiana às oscilações do comércio bilateral.

Caso a perda de espaço do Brasil no mercado argentino persista, os economistas avaliam que o maior desafio será ampliar a competitividade da indústria brasileira. Para Goiás, entretanto, os “efeitos tendem a ser localizados, já que o Estado possui uma pauta exportadora diversificada e outros mercados importantes”.

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