Carros chineses pressionam valor de revenda dos usados no Brasil
Preços mais competitivos dos zero-quilômetro estão mudando as referências usadas na avaliação de seminovos e veículos de segunda mão
A expansão dos carros chineses no Brasil está provocando mudanças também no mercado de veículos usados. A chegada de modelos com preços competitivos, mais equipamentos e condições comerciais agressivas reduziu a distância entre alguns carros zero-quilômetro e seminovos. Com isso, concessionárias passaram a lidar com novas referências na hora de avaliar veículos usados.
O impacto foi destacado por Roger Corassa, vice-presidente executivo da Omoda & Jaecoo no Brasil, durante entrevista ao programa Show Business. Para Corassa, a mudança já pode ser observada na formação dos preços dos seminovos dentro da rede de concessionárias.
“Como os carros são muito mais acessíveis do ponto de vista de preço e condições comerciais para aquisição, não é só preço, as condições comerciais de acessibilidade são bem agressivas também. Isso está fazendo com que o mercado de seminovos tenha um valor mais achatado”, afirmou Corassa.
O cenário ocorre em meio ao avanço das fabricantes chinesas no país. Em setembro de 2026, as marcas chinesas responderam por 21% das vendas de veículos leves no Brasil, segundo dados da Bright Consulting divulgados após o fechamento do mês. A participação foi o dobro da registrada no mesmo período do ano anterior.
Carro novo mais barato afeta o preço do usado
A relação entre os dois mercados aparece principalmente na comparação de preços. Quando um veículo novo passa a custar menos ou oferece mais equipamentos pela mesma faixa de preço, o seminovo equivalente precisa competir com essa nova referência.
Um levantamento da Bright Consulting mostrou que o preço efetivamente pago pelos consumidores por veículos leves novos caiu 3,5% entre junho de 2025 e junho de 2026. O valor médio passou de R$ 157,7 mil para R$ 152,1 mil no período.
A pesquisa também identificou uma redução real de 1,5% no preço público médio dos veículos leves. Foi a primeira queda registrada após seis anos consecutivos de alta.
A maior concorrência no mercado brasileiro está entre os fatores apontados para essa mudança. Marcas como BYD, GWM, Geely, GAC, Omoda & Jaecoo e Caoa Chery ampliaram a oferta de modelos no país, incluindo veículos elétricos, híbridos e a combustão.
O reflexo chega aos seminovos. Dados do IBV Auto, índice do banco BV, mostraram que os preços dos veículos usados subiram apenas 0,07% em julho de 2026. Em junho, a alta havia sido de 0,57%. No acumulado do ano, porém, o índice ainda registrava alta de 3,56%.
Para Roberto Padovani, economista-chefe do banco BV, a maior concorrência das montadoras chinesas e a queda dos preços dos veículos novos fazem parte de um conjunto de fatores que influenciam o mercado de usados. Também entram nessa conta as condições de crédito, a inadimplência e o comprometimento da renda das famílias.
Corassa aponta justamente essa mudança na referência de preços. “Então, o valor dentro de um carro seminovo numa concessionária está com uma tendência à diminuição de preço, porque você está tendo um novo balizamento de tabela Fipe, um novo balizamento de carro zero que vai impulsionar o mercado de carro usado mais para baixo”, explicou.
Chineses também atraem compradores de seminovos
A mudança não está relacionada apenas à formação dos preços. A expansão dos modelos chineses também está alterando a escolha de consumidores que anteriormente buscavam veículos seminovos.
Uma análise da Bright Consulting sobre setembro apontou uma migração de compradores de carros com até três anos de uso para veículos chineses zero-quilômetro. Segundo a consultoria, esse movimento contribui para pressionar os preços dos seminovos.
O avanço pode ser observado nas vendas. Em setembro, o mercado brasileiro registrou 265,2 mil emplacamentos de automóveis e comerciais leves, alta de 14,5% em relação ao mesmo mês de 2025.
No mesmo mês, o mercado brasileiro como um todo chegou a 509,7 mil veículos novos emplacados, considerando automóveis, comerciais leves, caminhões, ônibus, motos e implementos. O resultado foi o melhor setembro da série histórica.
Entre os modelos, os chineses também ganharam espaço em categorias antes dominadas por fabricantes tradicionais. O GWM Haval H6, por exemplo, liderou as vendas entre os SUVs médios em setembro, com 6.234 unidades. O Caoa Chery Tiggo 7 ficou à frente do Jeep Compass no mês.
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Elétricos enfrentam desafio maior na revenda
A questão da desvalorização ganha outra dimensão quando envolve os carros elétricos. A rápida evolução tecnológica e a redução dos preços de modelos novos podem afetar veículos de gerações anteriores.
Roger Corassa também chamou atenção para essa questão durante a entrevista. “Como é que vai ser o valor de revenda de um carro elétrico e até o interesse de um comprador daqui a cinco anos?”, questionou.
Dados do banco BV mostram que a preocupação já aparece no mercado brasileiro. Carros elétricos vendidos novos em 2022 acumulavam desvalorização média de 50,10% até agosto de 2026. Para veículos a combustão de características comparáveis, a queda foi de 14,07%. Entre os híbridos, chegou a 22,59%.
Nos modelos de 2023, a diferença diminuiu, mas permaneceu significativa. Os elétricos acumulavam desvalorização de 46,15%, enquanto os híbridos registravam 26,36% e os veículos a combustão, 21,72%.
A análise do banco BV relaciona esse comportamento à evolução tecnológica dos veículos eletrificados, à chegada de novos modelos com maior autonomia e à redução dos preços dos zero-quilômetro.
O levantamento do IBV Auto também mostrou que os elétricos continuam entre os veículos com maior depreciação no mercado brasileiro. Entre modelos 2023, a desvalorização acumulada chegou a 46,15%, enquanto os híbridos ficaram em 26,85% e os veículos a combustão comparáveis, em 21,40%.
Pressão chega à formação do preço de revenda
A mudança no mercado brasileiro, portanto, envolve mais do que a chegada de novas marcas. O preço do zero-quilômetro, as condições oferecidas pelas concessionárias, a oferta de modelos e a evolução dos veículos eletrificados passaram a interferir na avaliação dos carros usados.
Um levantamento da Auto Avaliar com os 25 usados mais buscados no Brasil apontou queda média de 10,2% nos preços praticados nos 12 meses até agosto de 2026. No mesmo intervalo, a tabela Fipe registrou redução média de 4%.
Entre os modelos analisados, o Jeep Compass teve queda de 15,7%, seguido pelo Jeep Renegade, com 13,8%, e pelo Chevrolet Tracker, com 13,5%. Os números mostram que a pressão não atinge apenas veículos que concorrem diretamente com marcas chinesas.
Assim, o mercado de usados passa a incorporar uma nova referência: o preço e o pacote oferecido por um veículo zero-quilômetro concorrente. Para quem pretende vender ou trocar um carro, essa relação pode aparecer diretamente no valor oferecido pela concessionária.
Na avaliação de Corassa, esse é o primeiro efeito percebido no setor diante da nova dinâmica de preços.
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