quinta-feira, 8 de outubro de 2026
safra

Super El Niño pode impulsionar exportações do Brasil com aumento da demanda da China na safra 2026/27

Fenômeno ameaça a produção agrícola e pode aumentar a demanda por carne bovina, soja, milho, açúcar, café e citros

Anna Salgadopor em
el niño china
Legenda: O aquecimento das águas do Pacífico pode alterar o mercado global de commodities e influenciar diretamente o agronegócio goiano | Foto: ABr

A previsão de um Super El Niño para a safra 2026/27 pode alterar o cenário do comércio agrícola internacional e ampliar a demanda chinesa por produtos brasileiros, incluindo soja, milho, carne bovina, açúcar, café e citros. Com probabilidade de 81% de ocorrência e pico previsto entre setembro e novembro de 2026, o fenômeno climático já provoca impactos sobre a produção agrícola na China e pode gerar efeitos diretos para o agronegócio brasileiro e goiano.

O El Niño deste ciclo é classificado por especialistas como um Super El Niño devido ao aquecimento das águas do Oceano Pacífico em mais de 2°C acima da média. Na China, o fenômeno tem provocado extremos climáticos que afetam importantes regiões produtoras.

No norte e no leste do país, uma onda de calor ameaça a produtividade de culturas como milho, arroz e algodão. Segundo relatórios meteorológicos, províncias como Liaoning podem registrar temperaturas de até 38°C, enquanto Xinjiang, principal polo produtor de algodão do país, pode atingir 50°C. O estresse térmico e a seca em determinadas áreas podem reduzir a produção de algodão em Xinjiang em até 5% neste mês. A província de Shandong, responsável por cerca de 10% da produção nacional de milho, também prevê perdas devido às temperaturas persistentes acima de 35°C.

No sul da China, o excesso de chuvas e o encharcamento do solo aumentam o risco de doenças fúngicas, como a brusone do arroz, afetando a produção agrícola. A economista Greice Guerra afirma que o país enfrenta um cenário marcado por tufões, inundações e danos à produção, o que tende a ampliar a necessidade de importação de alimentos e commodities agrícolas.

Segundo Greice Guerra, a redução da produção chinesa pode elevar a demanda por produtos brasileiros, especialmente soja, milho, açúcar, café, citros e carne bovina. O Brasil e a Argentina foram classificados pela Oxford Economics como regiões menos vulneráveis à inflação de alimentos provocada pelo El Niño, o que pode favorecer as exportações durante o período. 

A expectativa é que uma eventual redução da oferta chinesa aumente a necessidade de importação de commodities agrícolas, ampliando o espaço para fornecedores internacionais. Nesse cenário, o Brasil pode ganhar participação nas vendas externas, especialmente em produtos nos quais já possui posição consolidada como um dos principais exportadores mundiais.

A economista ressalta, no entanto, que o Brasil também deverá enfrentar os efeitos do fenômeno climático. No Centro-Oeste, a tendência é de chuvas irregulares e temperaturas acima da média, condições que podem prejudicar o plantio da safra principal e reduzir a janela da segunda safra de milho.

O analista técnico do GETEC/Faeg, Lucas Lopes, afirma que a principal preocupação para Goiás é a desuniformidade do plantio. “A irregularidade das chuvas pode comprometer a emergência das plantas e, em casos severos, exigir o replantio, elevando os custos de produção”, explica. Segundo Lopes, as temperaturas elevadas também aceleram a perda de umidade do solo por evapotranspiração, ampliando o estresse hídrico das plântulas.

Em Goiás, a relação comercial com a China é considerada estratégica. O país asiático absorve cerca de 51% das exportações totais goianas, com destaque para soja e carne bovina. De acordo com Greice Guerra, caso os produtores consigam mitigar os efeitos climáticos locais, o aumento da demanda chinesa poderá compensar parte das oscilações na produtividade da safra 2026/27.

O cenário financeiro também representa um desafio para o setor. Segundo a economista, os produtores rurais iniciam a safra sob pressão de elevado endividamento e de taxas de juros altas, com a Selic mantida em 14,25%. A possível redução da oferta global de grãos pode elevar o custo das rações animais, pressionando os preços da pecuária bovina e da avicultura.

Entre as medidas apontadas por Greice Guerra para reduzir os impactos do Super El Niño estão investimentos em mecanização, sementes tolerantes ao calor e ferramentas de agricultura de precisão para conservação da umidade do solo e melhoria da germinação. A economista também destaca a importância da gestão de risco por meio de mecanismos de proteção, como o hedge e o seguro agrícola, além da ampliação do acesso a crédito com juros menores e de políticas públicas voltadas ao Seguro Rural.

 

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