segunda-feira, 14 de setembro de 2026
NEGÓCIOS

Pequenos negócios enfrentam alta na recuperação judicial

Número de micro e pequenas empresas em recuperação judicial subiu 41,4% em um ano

Otavio Augustopor em
Pequenos negócios enfrentam alta na recuperação judicial

A recuperação judicial, antes mais associada a grandes companhias, vem ganhando espaço entre micro e pequenas empresas. Em junho de 2026, 2.821 MPEs estavam em recuperação judicial, alta de 41,4% em relação ao mesmo mês de 2025, segundo o Monitor RGF-BizDoc. O avanço foi quase o dobro do registrado no conjunto das empresas brasileiras, que cresceu 21,2% no período.

O cenário mostra uma mudança no perfil da crise empresarial. Desde 2023, o número de microempresas em recuperação judicial praticamente triplicou, passando de 513 para 1.575 CNPJs, enquanto a incidência entre microempresas mais que dobrou. Entre as pequenas empresas, o índice subiu 69%.

 

 

 

Para os pequenos negócios, o problema costuma começar no caixa. O aumento do custo do crédito reduz a margem para absorver quedas nas vendas, enquanto o endividamento das famílias limita o consumo. Em agosto, a Selic estava em 14% ao ano, patamar que ainda mantém elevado o custo de diversas linhas de financiamento.

Comércio concentra parte da pressão sobre as pequenas empresas

O comércio aparece entre os segmentos mais afetados. No primeiro semestre, o avanço dos processos de recuperação judicial chegou a 18,3% entre microempresas e 11,2% entre pequenas empresas, enquanto a taxa geral ficou em 8%.

A dificuldade aumenta porque muitos negócios menores têm estrutura financeira mais limitada e menor capacidade de oferecer patrimônio como garantia. Em empresas familiares, também é comum que decisões pessoais e empresariais se misturem, dificultando a identificação antecipada dos problemas.

O custo do crédito é outro ponto de pressão. No caso do Pronampe, por exemplo, a taxa de juros está vinculada à Selic, acrescida de um percentual definido pelo programa. A diferença em relação ao período em que a taxa básica estava em 2% ao ano ajuda a dimensionar como o ambiente financeiro mudou para quem depende de crédito para capital de giro ou investimento.

negócio

Ao mesmo tempo, o endividamento dos consumidores afeta diretamente empresas que dependem das vendas do dia a dia. Dados do Banco Central citados pelo Sebrae Goiás apontavam que 65% das famílias brasileiras estavam endividadas em 2026.

Renegociação virou ferramenta para preservar o caixa

Antes de chegar à recuperação judicial, a renegociação pode ser uma alternativa para reorganizar as contas. Em 2026, o Novo Desenrola Brasil ampliou as condições para pequenos negócios, permitindo mudanças em prazo, carência e limite de crédito.

 

 

 

Para empresas com faturamento anual de até R$ 360 mil, as regras passaram a prever carência de até 24 meses e prazo de pagamento de até 96 meses. O limite de crédito também foi ampliado de 30% para 50% do faturamento, podendo chegar a 60% para empresas lideradas por mulheres. Para negócios com faturamento de até R$ 4,8 milhões, o limite chegou a R$ 500 mil.

A procura mostra o tamanho do problema. Em maio, cerca de 41 mil operações haviam sido realizadas pelo programa, envolvendo aproximadamente R$ 5,5 bilhões em dívidas renegociadas por MEIs, microempresas e empresas de pequeno porte.

A orientação para o empreendedor é evitar usar um novo empréstimo apenas para cobrir prejuízos antigos. A troca de uma dívida cara por uma linha com melhores condições pode aliviar o caixa, mas não resolve um negócio que continua operando com margem insuficiente.

Gestão financeira ajuda a identificar a crise antes

O primeiro passo é separar as contas pessoais das empresariais e estabelecer um pró-labore compatível com a realidade do negócio. Depois, é necessário levantar valores a receber, dívidas, juros, fornecedores, impostos, estoques e despesas fixas.

O fluxo de caixa deve ser projetado para os meses seguintes, preferencialmente considerando as datas reais de entrada e saída dos recursos. Dessa forma, o empreendedor consegue identificar com antecedência quando faltará dinheiro e negociar antes do vencimento.

Também é importante calcular a margem de cada produto ou serviço. Vendas elevadas não significam necessariamente lucro. Descontos excessivos, custos variáveis altos e preços defasados podem fazer a empresa vender mais e, ainda assim, perder dinheiro.

O Sebrae recomenda comparar taxas, prazos e condições antes de contratar crédito e aponta alternativas como cooperativas, bancos e fundos de garantia. O Fampe, por exemplo, pode complementar garantias e chegar a 80% do valor do empréstimo, conforme as condições da operação.

 

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