quinta-feira, 8 de outubro de 2026
NEGÓCIOS

Goiás dobra produção de uvas e transforma o Cerrado em novo polo do vinho

Produção de uvas coloca Goiás entre os destaques da nova vitivinicultura brasileira

Otavio Augustopor em
Goiás dobra produção de uvas e transforma o Cerrado em novo polo do vinho
Divulgação

A produção de uvas em Goiás deixou de ser uma aposta para se consolidar como uma nova atividade econômica no agronegócio estadual. Dados do Panorama da Viticultura no Brasil (2020-2024), elaborado pela Embrapa, mostram que a colheita praticamente dobrou em quatro anos, passando de 1.516 toneladas em 2020 para 3.264 toneladas em 2024. O crescimento ocorre em um estado que, até pouco tempo atrás, não figurava entre as regiões produtoras da fruta e hoje já responde por cerca de 7% da produção brasileira de vinhos de inverno, segundo a Associação Nacional de Produtores de Vinho de Inverno (Anprovin).

A tecnologia que mudou o mapa da produção

Durante décadas, o cultivo de uvas destinadas à produção de vinhos esteve concentrado nas regiões Sul e Sudeste, favorecidas pelo clima temperado. Esse cenário começou a mudar com o desenvolvimento da técnica da poda dupla, sistema que altera o ciclo natural das videiras por meio de duas podas anuais.

O método faz com que a maturação das uvas ocorra durante o inverno, período marcado por baixa umidade, dias ensolarados e noites frias no Centro-Oeste – condições consideradas ideais para a produção de vinhos de maior qualidade.

A inovação abriu espaço para o cultivo em regiões tropicais e impulsionou a chamada viticultura de inverno. Hoje, além de Goiás, estados como Minas Gerais, Bahia e Distrito Federal também ampliam investimentos na atividade. No Brasil, a produção anual de uvas gira em torno de 1,8 milhão de toneladas, destinadas ao consumo in natura, fabricação de sucos e elaboração de vinhos e espumantes.

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Divulgação

Rota dos Pirineus consolida corredor do vinho no Centro-Oeste

O principal símbolo desse avanço em Goiás está na Rota dos Pirineus. Formada pelos municípios de Pirenópolis, Cocalzinho de Goiás e Corumbá de Goiás, a região reúne atualmente nove vinícolas e vem sendo reconhecida como o principal corredor vitivinícola do Centro-Oeste.

Além da produção artesanal de vinhos finos, a região desenvolveu um modelo baseado no enoturismo. As propriedades oferecem visitas guiadas, degustações, harmonizações e experiências que aproximam o consumidor do processo de produção.

A atividade ganhou força ao lado da produção regional de queijos artesanais, formando uma rota gastronômica que amplia o tempo de permanência dos visitantes e distribui renda entre diferentes segmentos da economia local.

Segundo estimativas do setor turístico, a Rota dos Pirineus recebe aproximadamente 80 mil visitantes por mês durante a baixa temporada e pode ultrapassar 120 mil turistas mensais nos períodos de maior movimento, consolidando-se como um dos destinos turísticos que mais crescem em Goiás.

Turismo impulsiona investimentos e valoriza imóveis

O fortalecimento da vitivinicultura também começa a alterar o perfil econômico da região. O crescimento do fluxo de turistas estimulou investimentos em pousadas, restaurantes, hospedagens de curta temporada e condomínios voltados para segunda residência.

Um dos exemplos é o condomínio Salto Imperial, implantado próximo ao Salto Corumbá. Segundo os empreendedores, a primeira etapa comercializou 93% dos lotes lançados. Os terrenos com maior desnível estão entre os mais procurados, principalmente por compradores interessados em construir imóveis integrados à paisagem natural.

Outro movimento observado pelo mercado imobiliário é o aumento da procura por pessoas que adotaram o trabalho remoto e passaram a buscar imóveis em regiões com maior contato com a natureza. Profissionais da área de tecnologia, empresários e investidores figuram entre os principais compradores, atraídos pela possibilidade de conciliar qualidade de vida, turismo e valorização patrimonial. Esse novo perfil amplia a demanda por infraestrutura, comércio, gastronomia e serviços, fortalecendo ainda mais a economia regional.

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Mercado aposta em diferenciação e agrega valor ao Cerrado

Embora a produção goiana ainda seja pequena quando comparada aos grandes polos nacionais, especialistas avaliam que o diferencial competitivo está justamente na qualidade e na identidade regional dos vinhos produzidos no Cerrado.

A combinação entre altitude, clima de inverno seco e tecnologia agrícola permite o desenvolvimento de rótulos voltados para um mercado de maior valor agregado. Ao mesmo tempo, a produção local fortalece pequenas propriedades rurais, amplia oportunidades para agroindústrias e estimula novos empreendimentos ligados ao turismo de experiência.

O crescimento também acompanha uma tendência observada em outros países produtores: consumidores procuram cada vez mais vinhos associados à origem, à produção artesanal e às experiências oferecidas pelas vinícolas.

 

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