Membros do governo Daniel ouvidos pelo O HOJE condenam demolição do Hugo em Goiânia
Pesquisas internas e pressão de pré-candidatos podem salvar o Hospital de Urgências de Goiás, que governador diz que vai demolir e levar máquinas e médicos para prédio que comprou por R$ 500 milhões, dinheiro emprestado do BNDES
A expressão “caiu como uma bomba” foi usada demais e caiu em desgaste, mas é perfeita para definir a entrevista do governador Daniel Vilela (MDB) anunciando a demolição do Hospital de Urgências de Goiânia, o Hugo, no Setor Pedro Ludovico. Segundo Daniel, o prédio está de tal maneira imprestável que não comporta mais reforma, sem se esquecer que seu antecessor, o presidenciável Ronaldo Caiado (PSD), reformou o mesmíssimo Hugo, uma obra que custou R$ 100 milhões e durou de agosto de 2024 a agosto de 2025. Levantamentos feitos pelos muitos institutos contratados pelo governo começam a trazer a voz das ruas, com quase unanimidade de opinião contra.
Como precisa do apoio de Caiado na tentativa de se reeleger, o sucessor não diz se a reforma ficou tão ruim que acabou com o Hugo ou se o batom na construção não passou de lorota. O HOJE conversou com diversos profissionais que frequentam o prédio e nenhum confirmou que o estágio é de escombros. Um ex-secretário estadual de Saúde desconfia que o governador tenha recebido informações equivocadas. Os que vão tentar a sorte para deputado estadual e federal começam a ser incomodados por eleitores lamentando a decisão de derrubar o Hugo. Um engenheiro que será candidato na chapa do governo chamou de “loucura, não tem outro nome” o acordo feito por Daniel com a Oncoclínica para, em troca de R$ 500 milhões emprestados pelo BNDES, seu hospital que seria para doentes de câncer receber a estrutura do Hugo.
A opinião técnica é de pouca valia
Porém, a opinião técnica é de pouca valia, pois Daniel já assinou termo se comprometendo a comprar um prédio no Conjunto Fabiana, onde atualmente está sendo edificado o Câncer Center Goiânia. Amigos próximos do governador temem que fique conhecido como uma espécie de “Coisa”, o herói de pedra do Quarteto Fantástico, da Marvel, que com um soco transforma arranha-céu em pedacinhos. Preferem que seja outro personagem de desenho animado, Bob, o Construtor. Um ex-deputado que trabalhou com o pai de Daniel, Maguito Vilela, deseja “por tudo que há de mais sagrado que alguém de bom senso o convença a desistir dessa bobagem” de demolir o Hugo.
Outro ex-secretário da Saúde lembra que o Hospital Estadual Alberto Rassi, quando ainda era o Hospital Geral de Goiânia, ficou fechado durante diversos anos, desde a gestão anterior de Iris Rezende (1991-1994) e Maguito Vilela tentou “de todas as formas” arrumar dinheiro para o reformar. Teria feito o projeto para a obra em seu segundo mandato, que não houve porque Iris preferiu ser o candidato do partido a governador e, mesmo havendo a reeleição, Maguito disputou o Senado. “Tanto que o Marconi Perillo ganhou do Iris e reformou o HGG”, recorda o ex-auxiliar de primeiro escalão.
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Falta de experiência de Daniel veio à tona
A falta de experiência de Daniel veio à tona ao anunciar a derrubada do prédio. Para embasar este texto, O HOJE ouviu apenas aliados do governador e nenhum disse que concorda com sua decisão. A maioria atribui a sua mocidade (42 anos) o ímpeto de, mesmo durante uma pré-campanha, confessar que pretende destruir um dos prédios mais icônicos de Goiânia. Foi como se o jovem quisesse se perpetuar logo nos primeiros meses do primeiro emprego que tem, como Pelé, que aos 17 anos decidiu a Copa do Mundo de 1958, comparação devida pelo fato de Daniel ter sido jogador de futebol, como explicou um ex-auxiliar de Maguito: “Faltou alguém lhe dizer que até o Messi só apareceu mesmo para o futebol em sua 5ª Copa do Mundo”, a do Catar, quando foi campeão.
Mais incisivo, um componente do quadro atual do governo tem “medo de que o chefe fique com essa marca” de demolidor, referência a outro personagem da Marvel. Ele preferia que Daniel, de quem diz gostar “como se fosse um filho”, usasse como exemplo a Maternidade Dona Íris, “que estava em petição de miséria, foi refeita e hoje está aí servindo às mulheres”. Em sua opinião, emitida após ressaltar que não sabe qual a situação do Hugo atualmente, “não precisa demolir, pode fechar por um tempo enquanto faz uma reforma total”.
Lista dos que desejam manter o Hugo no mesmo lugar é grande
Dois médicos que também integraram governos do MDB, inclusive no Ipasgo, reforçam a lista dos que desejam manter o Hugo no Setor Pedro Ludovico, sem transferência para o Conjunto Fabiana. O mais velho deles conta a história de um hospital particular em Aparecida que abriga “uma bactéria impossível de sumir”. Acha que o governador “pode estar querendo evitar” tragédias advindas de eventual situação extrema do Hugo. Mesmo assim, é contra “demolir por demolir” qualquer unidade de saúde, “ainda mais uma tradicional como o Hugo”. O outro, que atuou quando Maguito era prefeito de Aparecida de Goiânia (2009 a 2016), acha “perfeitamente possível reformar um hospital daquele tamanho sem interromper o atendimento, vai isolando onde estiver sendo mexido na obra, até ficar pronta”.
No primeiro de seus quatro governos, Marconi Perillo (PSDB), que enfrenta Daniel na expectativa de voltar ao cargo, enfrentou problema semelhante. O Centro Administrativo, rebatizado depois para Palácio Pedro Ludovico Teixeira, teve um andar destruído por incêndio e outro na operação para salvar o restante. Os mais puristas, que defendem o projeto original de Goiânia, defendem a demolição do prédio e estava ali a chance de isso ocorrer. Nos desenhos da nova Capital, a Praça Cívica tinha como apogeu em arquitetura o Palácio das Esmeraldas. A novidade arquitetônica é ainda hoje xingada, pois atrapalharia o esboço arquitetônico e até a ventilação no centro da cidade. Marconi preferiu desocupar o prédio e reformá-lo.
Conselheiro do Tribunal de Contas aconselha o governador a “não fazer isso”
O Hugo, que não foi consumido pelo fogo, pode ser salvo pela turma do deixa-disso. Um conselheiro de Tribunal de Contas ouvido por O HOJE aconselha o governador a “não fazer isso”, pois junto com o hospital destruiria seu futuro político. Acha que “o povo não vai perdoar”. Em sua análise, o prédio é o mais conhecido do Estado de Goiás e até do Brasil, pois já atendeu goianos de todos os cantos, nordestinos, paraenses, tocantinenses e “antigamente recebia muito mais, nem precisava ter ficha nem chegar de ambulância, bastava estar precisando de socorro”. (Especial para O HOJE)
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