Novo crédito rural alivia dívidas, mas amplia risco de endividamento
Produtores com perdas entre 2019 e 2025 poderão contratar financiamento para quitar débitos antigos, com juros reduzidos e prazo de até dez anos
Produtores rurais que acumularam perdas entre 2019 e 2025 poderão recorrer a uma nova linha de crédito para reorganizar dívidas antigas. Regulamentada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), a medida permite que agricultores familiares atendidos pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), produtores do Pronamp, demais produtores e cooperativas contratem um novo financiamento para quitar ou amortizar operações anteriores.
Para aderir, será necessário comprovar perdas em pelo menos duas safras no período, com redução mínima de 30% da renda bruta esperada. Na regra geral, agricultores do Pronaf poderão financiar até R$ 400 mil, com juros de 6% ao ano e prazo de até oito anos. Nos dois primeiros anos, serão pagos apenas os juros, e a amortização do valor principal começará depois da carência.
As condições serão ampliadas para quem comprovar prejuízos mais graves. Produtores que tenham perdido três ou mais safras e registrado queda mínima de 40% da renda esperada poderão acessar até R$ 500 mil pelo Pronaf, com juros de 5% ao ano e prazo de dez anos. A linha poderá abranger operações de custeio, comercialização, industrialização e investimento contratadas até o fim de 2025, inclusive débitos já renegociados ou inadimplentes.
Os interessados poderão contratar a nova linha até 12 de novembro. Quando a dívida superar os limites do programa, os bancos poderão financiar o valor excedente com recursos próprios, mas os juros serão negociados diretamente com o produtor, o que pode elevar o custo da operação.
Embora ofereça prazo maior e taxas reduzidas, o programa não elimina a dívida. Na prática, substitui um débito anterior por um novo empréstimo. Para a economista Greice Guerra, a possibilidade representa um “respiro” para produtores que enfrentam dificuldades financeiras, mas também pode ampliar o endividamento caso a operação seja contratada sem uma avaliação cuidadosa da capacidade de pagamento.
Mesmo durante a carência, o agricultor continuará pagando juros e dependerá do desempenho das próximas safras. Em um setor sujeito a eventos climáticos, oscilações de preços e aumento dos custos, a renegociação pode aliviar a pressão imediata, mas não garante a recuperação da atividade.
Outro obstáculo é a análise feita pelos bancos. Segundo Guerra, a concessão continuará dependente das instituições financeiras, o que pode dificultar o acesso de pequenos e médios produtores com restrições de crédito ou inadimplência. A economista aponta que agricultores com nomes negativados podem não ser contemplados, mesmo estando entre os mais afetados pela crise financeira no campo. A economista defende uma atuação mais ativa do Banco do Brasil para incorporar produtores em situação de vulnerabilidade.
A renegociação ocorre no mesmo período em que o Plano Safra da Agricultura Familiar 2026/2027 prevê R$ 85,2 bilhões para operações do Pronaf, crescimento de 9% em relação ao ciclo anterior. O aumento do crédito e a redução das taxas ampliam os recursos disponíveis para custeio e investimento. Ao mesmo tempo, o fato de parte dos produtores precisar contratar novos financiamentos para pagar empréstimos anteriores revela a pressão financeira enfrentada pelo setor.
Para Guerra, falta uma resposta mais estrutural. A economista critica a ausência de mecanismos de proteção de preços e de seguro rural vinculados ao crédito. Sem instrumentos capazes de reduzir os impactos de novas perdas, o produtor pode reorganizar o débito atual e voltar a enfrentar dificuldades nas próximas temporadas. Assim, a nova linha oferece alívio imediato e permite alongar os pagamentos, mas transfere a solução definitiva para o desempenho futuro da produção.
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