segunda-feira, 24 de agosto de 2026
Combustíveis

Safra maior de cana deve favorecer etanol e reduzir produção de açúcar

Conab projeta alta de 4,7% na safra de cana, com maior produção de etanol e redução no volume destinado ao açúcar

João Césarpor João César em
Safra maior de cana deve favorecer etanol e reduzir produção de açúcar
Produção nacional de etanol deve chegar a 41,88 bilhões de litros na safra 2026/27, enquanto o açúcar recua 2,9% - Foto: Elza Fiúza/ABr

A produção brasileira de cana-de-açúcar deve alcançar 705,2 milhões de toneladas na safra 2026/2027, crescimento de 4,7% em relação ao ciclo anterior. A estimativa consta no 2º Levantamento da Safra de Cana-de-açúcar, divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O avanço é resultado tanto da ampliação de 1,1% da área destinada à colheita, prevista em 9,1 milhões de hectares, quanto da melhora de 3,6% na produtividade média nacional, estimada em 77.905 quilos por hectare.

As condições climáticas mais favoráveis contribuíram para a recuperação da produtividade. “Diferente da safra anterior, os índices pluviométricos dessa safra estiveram mais próximos do normal”, afirma Fabiano Vasconcellos, gerente de Acompanhamento de Safras da Conab. O Sudeste continuará concentrando a maior parte da produção, com 451,4 milhões de toneladas, enquanto o Centro-Oeste, segunda principal região produtora, deve colher 157 milhões de toneladas, alta de 4,6% sobre o ciclo anterior.

Apesar da maior disponibilidade de cana, a produção de açúcar deve seguir direção contrária. A Conab estima 42,89 milhões de toneladas do produto, redução de 2,9% em comparação à safra 2025/2026. Ao mesmo tempo, o etanol derivado da cana deve crescer 9,7%, alcançando 29,98 bilhões de litros. A mudança indica maior direcionamento da matéria-prima para a fabricação do biocombustível.

Esse movimento já vinha sendo observado nas usinas do Centro-Sul. Em junho, o processamento de cana caiu 14,5%, para 69,79 milhões de toneladas, enquanto a produção de açúcar recuou 26,33%. No mesmo período, a fabricação de etanol aumentou 2,47%, chegando a 3,80 bilhões de litros. Na primeira quinzena de julho, a tendência continuou: a moagem cresceu 2,6%, mas a produção de açúcar caiu 5,7%, enquanto a de etanol avançou 12,1%.

A rentabilidade ajuda a explicar a alteração no chamado mix de produção das usinas. Os preços internacionais do açúcar permaneceram pressionados em safras recentes, enquanto os custos de produção continuaram elevados. Segundo o analista Enio Fernandes, o etanol também proporciona retorno financeiro mais rápido, enquanto o açúcar envolve despesas com transporte até os portos e um processo de exportação mais demorado. “O etanol você paga para o cara carregar”, afirma.

O mercado do biocombustível também ganha impulso com a ampliação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, que passou de 30% para 32% no fim de julho. A medida tende a elevar a demanda doméstica e reforçar os incentivos para que as usinas direcionam uma parcela maior da cana para a fabricação de etanol. A produção total do combustível, considerando cana e milho, deve atingir 41,88 bilhões de litros nesta safra, avanço de 11,7%.

Goiás participa diretamente dessa transformação. Na safra 2025/2026, o Estado produziu cerca de 5,3 bilhões de litros de etanol, sendo 841,6 milhões provenientes do milho. A expansão dessa matéria-prima ajuda a sustentar a oferta mesmo em momentos de dificuldades na colheita da cana. Em julho de 2026, os estoques de etanol hidratado em Goiás chegaram a ficar 76% acima dos registrados no mesmo período do ano anterior.

No açúcar, o cenário pode trazer efeitos distintos. Apesar da previsão de queda na produção brasileira, as cotações internacionais apresentaram recuperação em agosto, sustentadas pela expectativa de menor oferta global, pelos riscos climáticos em regiões produtoras e pela possibilidade de menor destinação de cana ao adoçante no Brasil. Como o País permanece entre os principais produtores e exportadores mundiais, mudanças no volume destinado ao mercado externo podem influenciar os preços e, futuramente, levar as usinas a rever novamente a proporção entre açúcar e etanol.

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