quinta-feira, 27 de agosto de 2026
ECONOMIA

Contas de Goiás fecham quadrimestre no azul, mas com pressão sobre Previdência e incentivos

Com receita líquida de R$ 16,33 bilhões e resultado positivo de R$ 708 milhões, governo apresenta equilíbrio fiscal, enquanto deputados questionam renúncias, bônus da educação e medidas de austeridade

Luma Silveirapor em
superávit de Goiás
Na aplicação dos recursos em áreas que possuem percentuais mínimos definidos pela Constituição, a saúde chegou a 15,89% da receita, acima do piso de 12% | Foto: Wenderson Araújo

As contas públicas de Goiás apresentaram resultado positivo no primeiro quadrimestre de 2026, segundo os dados apresentados pela Secretaria de Estado da Economia durante audiência pública realizada nesta quarta-feira (26), na Assembleia Legislativa de Goiás (Alego). A receita corrente líquida acumulada nos últimos 12 meses chegou a R$ 46,18 bilhões, enquanto a dívida consolidada do Estado foi calculada em R$ 28,5 bilhões. No período, a receita realizada líquida alcançou R$ 16,33 bilhões, contra R$ 15,62 bilhões de despesas liquidadas, uma diferença favorável de R$ 710 milhões. A apresentação foi conduzida pela secretária Renata Lacerda Noleto, durante reunião da Comissão de Tributação, Finanças e Orçamento, presidida na ocasião pelo deputado Wagner Camargo Neto.

O desempenho positivo também apareceu nos indicadores orçamentários apresentados pela pasta. De acordo com a Secretaria da Economia, o Estado registrou superávit orçamentário de R$ 708 milhões no primeiro quadrimestre. A arrecadação bruta chegou a R$ 22,89 bilhões, mas quase R$ 7 bilhões foram destinados a repasses e deduções, o equivalente a 28% do total. Entre as fontes que compõem a arrecadação, a receita tributária tem maior participação, com destaque para o ICMS, responsável por 73,11% desse grupo. Também integram a receita bruta as transferências correntes da União, com 19,3%; demais receitas correntes, que incluem contribuições, receitas patrimoniais, serviços, Fundeinfra e Protege, com 16,8%; e receitas de capital, com 0,3%.

Na aplicação dos recursos em áreas que possuem percentuais mínimos definidos pela Constituição, a saúde chegou a 15,89% da receita, acima do piso de 12%. Na educação, o índice registrado foi de 22,98%, ainda abaixo da exigência anual de 25%. A Secretaria da Economia ressalta que a verificação definitiva do cumprimento dos percentuais constitucionais ocorre somente após o encerramento do exercício financeiro. Ainda assim, no segundo bimestre, a aplicação em educação atingiu R$ 2,75 bilhões, valor superior ao registrado no exercício anterior. A área também esteve no centro dos questionamentos feitos durante a audiência, especialmente em relação ao bônus destinado aos profissionais da educação.

O deputado Antônio Gomide questionou a condução do bônus da educação, a autonomia financeira da Universidade Estadual de Goiás (UEG) e o nível de renúncia de receitas concedido pelo Estado. Ao responder aos questionamentos, Renata Noleto afirmou que o bônus foi empenhado de acordo com a legislação e defendeu as medidas adotadas pelo governo a partir de 2019, classificando aquele conjunto de ações como necessário para a sobrevivência fiscal do Estado. A discussão evidenciou uma das principais divergências da audiência: enquanto a Secretaria da Economia sustenta a necessidade de preservar o equilíbrio das contas, parlamentares questionam os efeitos dessas escolhas sobre áreas públicas e categorias de servidores.

A renúncia fiscal também foi alvo de debate. A secretária afirmou que os incentivos concedidos pelo Estado estão controlados em 1,4% do faturamento das empresas e argumentou que a política tem caráter estratégico para a atração de investimentos. Segundo Renata, determinados empreendimentos não se instalariam em Goiás sem os benefícios fiscais, citando como exemplo a indústria farmacêutica. A defesa ocorre em meio à discussão sobre o impacto da renúncia na capacidade de arrecadação do Estado e sobre a relação entre incentivos, geração de investimentos e equilíbrio das contas públicas.

A deputada Bia de Lima, por sua vez, direcionou críticas aos efeitos das políticas de austeridade sobre os servidores públicos e à taxação de aposentados. O posicionamento acrescentou ao debate fiscal uma dimensão relacionada à despesa de pessoal e às consequências das medidas de contenção para o funcionalismo. Pelos números apresentados pela Economia, a despesa total com pessoal dos Poderes Executivo, Judiciário e Legislativo, além do Ministério Público e dos Tribunais de Contas, chegou a R$ 23,27 bilhões, correspondente a 50,41% da receita. Desse total, R$ 18,60 bilhões, ou 40,28%, correspondem ao Governo do Estado; R$ 2,57 bilhões (5,57%) ao Tribunal de Justiça; R$ 0,61 bilhão (1,32%) à Assembleia Legislativa; R$ 0,44 bilhão (0,95%) ao Tribunal de Contas do Estado; R$ 0,21 bilhão (0,45%) ao Tribunal de Contas dos Municípios; e R$ 0,85 bilhão (1,84%) ao Ministério Público.

O endividamento estadual, outro indicador apresentado na audiência, permanece distante do limite legal quando considerado o percentual da dívida consolidada líquida em relação à receita corrente líquida. O índice ficou em 32,48% em 2026, enquanto o limite estabelecido pela legislação é de 200%. Ao ser questionada sobre a evolução da dívida, Renata Noleto informou que o estoque, que era de R$ 19,6 bilhões em 2018, chegou a R$ 28,5 bilhões atualmente, representando crescimento nominal de 45%. Em termos reais, entretanto, segundo a secretária, houve redução de 2%. A dívida com a União passou de R$ 8,9 bilhões para R$ 21,1 bilhões, aumento que ela atribuiu ao refinanciamento relacionado ao Regime de Recuperação Fiscal (RRF).

A Previdência permanece entre os principais pontos de pressão sobre as finanças estaduais. Entre janeiro e abril, o Tesouro Estadual destinou R$ 2,67 bilhões para o sistema previdenciário. O valor corresponde a aproximadamente 33% da estimativa de R$ 8 bilhões necessária para cobrir o déficit previdenciário ao longo de 2026. No conjunto das despesas por função, a Previdência Social aparece na primeira posição, com R$ 3,26 bilhões, seguida pela educação, com R$ 2,72 bilhões; saúde, com R$ 2,16 bilhões; segurança pública, com R$ 1,68 bilhão; dívidas do Estado, com R$ 1,02 bilhão; assistência e habitação, com R$ 0,40 bilhão; e transporte e infraestrutura, com R$ 0,29 bilhão.

Apesar das divergências apresentadas pelos parlamentares, a Secretaria da Economia sustenta que os indicadores demonstram uma trajetória de equilíbrio das contas estaduais ao longo dos primeiros meses do ano. O resultado positivo entre receitas e despesas, o nível de endividamento abaixo do limite legal e o cumprimento do piso constitucional da saúde foram apresentados como sinais favoráveis. Ao mesmo tempo, os números mostram desafios que permanecem no horizonte, principalmente o déficit previdenciário projetado em R$ 8 bilhões, a necessidade de alcançar o percentual anual de 25% na educação e a discussão sobre o impacto dos incentivos fiscais e das políticas de contenção de despesas. A audiência foi encerrada pelo deputado Wagner Camargo Neto após a apresentação e os questionamentos aos representantes da Secretaria da Economia.

Leia também:

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:

Veja também