sexta-feira, 28 de agosto de 2026
renda comprometida

Endividamento de 82% das famílias pressiona consumo em Goiás

Índice se aproxima de 85% entre consumidores com renda de até três salários mínimos e afeta a margem disponível para gastos

Anna Salgadopor em
real
Legenda: As dívidas das famílias também se aproximam de 50% da renda, ante os 38% registrados antes da recessão de 2014 a 2016 | Foto: Marcello Casal Jr./ABr

O endividamento das famílias brasileiras alcançou 82% em julho de 2026, enquanto entre consumidores com renda de até três salários mínimos o índice se aproxima de 85%. Nesse grupo, 38,5% estão com contas em atraso e quase 18% afirmam que não conseguirão quitar as dívidas. Em Goiânia, o cenário repercute sobre o consumo e as vendas nas 122 feiras registradas na capital, incluindo a Feira Hippie, que reúne 6.884 feirantes cadastrados.

O aumento do comprometimento da renda ocorre em um contexto de expansão de negócios voltados ao consumo de menor custo. Em Goiás, o segmento de marmitas congeladas registra crescimento de 25,2%, impulsionado pela busca dos consumidores por opções mais baratas de alimentação. Ao mesmo tempo, o endividamento reduz a margem disponível para gastos além das despesas básicas.

Para o economista Luiz Carlos Ongaratto, o uso do crédito pelas famílias passou por uma mudança. “Cada vez mais a gente vê as famílias recorrendo ao crédito para pagar suas contas do dia a dia”, afirma. Segundo Ongaratto, anteriormente o endividamento estava mais associado a aquisições de maior valor, como imóveis e veículos.

“As famílias de menor renda estão precisando de crédito porque o custo de vida aumentou, porém a sua renda não acompanhou na mesma velocidade. A renda não está suficiente para pagar as despesas básicas como moradia, transporte, educação, saúde, então são levadas a recorrer ao crédito”, analisa o economista.

A redução das reservas financeiras também amplia a exposição das famílias a mudanças na renda. “Quaisquer alterações no planejamento, seja por desemprego, piora nos negócios próprios e outras causas, tendem a gerar um impacto grande quando não há mais reservas”, afirma Ongaratto.

A taxa básica de juros, a Selic, está em 14% ao ano, mas a redução da taxa não necessariamente se traduz em queda proporcional dos juros cobrados dos consumidores. “A Selic é a taxa base da economia… Mas o risco de crédito não é 100% Selic”, explica o economista. Como exemplo, Ongaratto cita uma operação contratada a CDI mais 20% ao ano. Nesse caso, uma redução de 0,25 ponto percentual no CDI não altera a parcela prefixada de 20%. “Numa análise de crédito, o que importa é a qualidade de quem está fazendo o pedido pelo crédito e não a Selic em si”, afirma.

Os juros médios cobrados dos consumidores chegam a 64% ao ano, enquanto a inadimplência geral alcança 6,9% nos atrasos superiores a 90 dias. Entre consumidores de baixa renda, o índice de atrasos acima de 90 dias chega a 7,5%.

Entre as modalidades de crédito livre, o rotativo do cartão de crédito apresenta juros de 428,3% ao ano, equivalentes a 14,81% ao mês, e inadimplência de 63,5%. No cartão parcelado, a taxa chega a 192,1% ao ano, ou 9,43% ao mês. O cheque especial registra juros de 137,9% ao ano, equivalentes a 7,52% ao mês, enquanto o crédito pessoal não consignado apresenta taxa de 117,1% ao ano.

O valor médio da dívida inadimplida no Serasa chegou a R$ 6.300, o dobro do rendimento real médio mensal apontado pelo IBGE. O comprometimento médio da renda com dívidas está em 29,3%, próximo ao pico histórico de 29,7% registrado em fevereiro de 2026. Do total, 10,38% correspondem ao pagamento de juros e 18,81% ao principal.

As dívidas das famílias também se aproximam de 50% da renda, ante 38% registrados na véspera da recessão de 2014 a 2016. Para 2027, o BTG Pactual estima crescimento de apenas 0,8% no consumo das famílias. Em um cenário de endividamento de 51%, a economia pode registrar contração de 6% no crédito bancário. A projeção para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2027 no relatório Focus caiu para 1,57%.

Desenrola entra no debate

O programa Desenrola também é citado no debate sobre o endividamento. Para Ongaratto, medidas de renegociação atuam sobre as consequências do problema. “Não há programa de renegociação que resolva esse problema do endividamento”, afirma.

Na avaliação do economista, a redução do endividamento depende de fatores como política fiscal, inflação, juros e ambiente de negócios. “Precisamos de política fiscal, inflação baixa, juros baixos, ambiente de negócios melhorando, assim teremos mais renda para pagar dívidas”, afirma.

Ongaratto também aponta o uso de recursos como FGTS, antecipações e empréstimos para o pagamento de compromissos financeiros. “O trabalhador está usando seus recursos de FGTS, fazendo antecipações, empréstimos, etc, e está ficando sem nenhuma reserva para o futuro, e mesmo assim não consegue pagar suas dívidas”, afirma.

A avaliação sobre as causas do endividamento também inclui críticas à interpretação de que o problema estaria relacionado exclusivamente à educação financeira. “Não é um problema de educação financeira como o presidente Lula comentou. É um problema do governo que não consegue criar um ambiente próspero”, afirma o economista.

 

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