Conflitos marcam debates e levantam dúvidas dos efeitos sobre o voto
Especialistas avaliam ataques entre candidatos, que buscam voto dos eleitores indecisos a 29 dias das eleições, quando a população vai às urnas, no dia 4 de outubro
Apesar do espaço destinado para apresentação de propostas de governo e respostas para gargalos específicos, o que ganhou destaque nos primeiros debates das eleições de 2026 foram os confrontos entre os candidatos, tanto em Goiás quanto na disputa presidencial.
O embate entre o governador Daniel Vilela (MDB) e o ex-governador Marconi Perillo (PSDB) concentrou boa parte da atenção no segundo debate entre os governadoriáveis goianos, no último domingo (30/8). Os dois trocaram acusações relacionadas a episódios de corrupção. O confronto também teve momentos que ganharam repercussão fora do debate, como quando Marconi, ao solicitar direito de resposta, disse “direito de corrupção”.
O episódio ocorreu durante uma discussão em que os dois candidatos já elevavam o tom das críticas. Marconi chegou a afirmar que iria retirar seus sigilos bancários e convidou Daniel a fazer o mesmo, inclusive com sigilos de sua esposa, a primeira-dama Iara Vilela, e da sogra. Já o emedebista rebateu ao dizer que o tucano esteve envolvido em “todos os escândalos recentes da política brasileira”.
Na corrida para presidente
No cenário presidencial, a tensão apareceu de outra maneira. O primeiro debate, realizado pela Band em 23 de agosto, teve apenas três dos seis candidatos convidados: Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo) não participaram.
A ausência de Lula e Flávio os transformou nos principais alvos dos candidatos presentes. Renan adotou o tom mais agressivo e chamou os dois de “covardes e canalhas”, além de acusá-los de desrespeitar os brasileiros por não comparecerem. O candidato também chegou ao local do debate carregando fraldas geriátricas com os nomes de Lula e Flávio.
Para o professor da PUC-GO e cientista político Pedro Pietrafesa, o impacto dos confrontos nos debates precisa ser analisado também pelo pós-programa. “O debate eleitoral ainda é importante porque não funciona apenas no momento em que ocorre ao vivo. Ele funciona como um multiplicador a posteriori, porque as próprias campanhas utilizam os cortes para as redes sociais”, disse.
Pouco tempo aos candidatos
O professor da PUC-GO explica que os debates servem como “peça de publicidade” para os postulantes que participam do encontro e que, a partir disso, é natural os confrontos entre candidatos. Porém, Pietrafesa chama atenção para o formato atual, que disponibiliza pouco tempo de resposta para cada postulante.
“Os debates eleitorais ainda têm importância, mas é preciso modificar um pouco o formato, não só para não ficar só em uma baixaria, mas para que dê um tempo e haja prazo para que o candidato consiga formular o raciocínio”, frisa.
“Dois, três minutos para o candidato formular um raciocínio é um tempo muito curto. Assim fica nas generalidades mesmo, porque não tem como o candidato desenvolver alguma fundamentação com esse tempo tão pequeno para responder uma pergunta, até para responder um ataque, ou para formular melhor uma pergunta”, completa Pietrafesa.
Foco nos indecisos
Já o doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB), Josimar Gonçalves, chama atenção para o limite da capacidade de conversão de votos. “A literatura e as pesquisas de opinião convergem para uma conclusão pouco romântica: o debate raramente muda o voto de quem já decidiu, mas pode ser decisivo para a fatia de indecisos e eleitores de baixa fidelidade partidária”, destaca.
O cientista político afirma que, apesar de as pesquisas indicarem que o confronto serve mais para reforçar uma decisão que o eleitor já tomou, o desempenho nos debates continua relevante. “O desempenho ruim acumulado ao longo de vários debates pode, sim, corroer a imagem de um candidato entre o público ainda aberto a mudar”, diz Josimar. “Essa tendência não costuma ser um debate isolado que decide, mas a acumulação de sinais ao longo da campanha.”
Na avaliação de Josimar, um episódio como o “direito de corrupção” pode ter grande repercussão sem necessariamente provocar uma mudança imediata no voto. “Um deslize isolado tende a virar meme e reforçar narrativa, mas raramente muda voto sozinho. O que muda voto é um padrão de imagem que se consolida debate após debate”, explica.
Para os especialistas, a lógica segue no comportamento de Renan Santos. Para Pietrafesa, a postura adotada pelo candidato do Missão faz parte de “uma tática do grupo político dele”, que encontra limitações quando o objetivo é ampliar a base de apoio.
Alta taxa de indecisão
Sobre Goiás, os especialistas apontam que o cenário eleitoral explica o foco em Daniel e Marconi. Entretanto, Josimar frisa a existência de um eleitorado ainda aberto como fator capaz de alterar a dinâmica da disputa.
“A alta taxa de indecisão espontânea em Goiás significa que ainda há espaço de movimento, especialmente se o desgaste mútuo entre Daniel Vilela e Marconi Perillo abrir uma janela de ‘voto de protesto’ para os candidatos hoje secundarizados.”
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