domingo, 8 de novembro de 2026
Eleições 2026

Conflitos marcam debates e levantam dúvidas dos efeitos sobre o voto

Especialistas avaliam ataques entre candidatos, que buscam voto dos eleitores indecisos a 29 dias das eleições, quando a população vai às urnas, no dia 4 de outubro

Thiago Borgespor em
Conflitos marcam debates e levantam dúvidas dos efeitos sobre o voto
Daniel x Marconi e Renan Santos com tom agressivo marcaram as primeiras rodadas dos debates | Fotos: Divulgação e Renato Pizzuto/Band

Apesar do espaço destinado para apresentação de propostas de governo e respostas para gargalos específicos, o que ganhou destaque nos primeiros debates das eleições de 2026 foram os confrontos entre os candidatos, tanto em Goiás quanto na disputa presidencial.

O embate entre o governador Daniel Vilela (MDB) e o ex-governador Marconi Perillo (PSDB) concentrou boa parte da atenção no segundo debate entre os governadoriáveis goianos, no último domingo (30/8). Os dois trocaram acusações relacionadas a episódios de corrupção. O confronto também teve momentos que ganharam repercussão fora do debate, como quando Marconi, ao solicitar direito de resposta, disse “direito de corrupção”.

O episódio ocorreu durante uma discussão em que os dois candidatos já elevavam o tom das críticas. Marconi chegou a afirmar que iria retirar seus sigilos bancários e convidou Daniel a fazer o mesmo, inclusive com sigilos de sua esposa, a primeira-dama Iara Vilela, e da sogra. Já o emedebista rebateu ao dizer que o tucano esteve envolvido em “todos os escândalos recentes da política brasileira”.

Na corrida para presidente

No cenário presidencial, a tensão apareceu de outra maneira. O primeiro debate, realizado pela Band em 23 de agosto, teve apenas três dos seis candidatos convidados: Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo) não participaram.

A ausência de Lula e Flávio os transformou nos principais alvos dos candidatos presentes. Renan adotou o tom mais agressivo e chamou os dois de “covardes e canalhas”, além de acusá-los de desrespeitar os brasileiros por não comparecerem. O candidato também chegou ao local do debate carregando fraldas geriátricas com os nomes de Lula e Flávio.

Para o professor da PUC-GO e cientista político Pedro Pietrafesa, o impacto dos confrontos nos debates precisa ser analisado também pelo pós-programa. “O debate eleitoral ainda é importante porque não funciona apenas no momento em que ocorre ao vivo. Ele funciona como um multiplicador a posteriori, porque as próprias campanhas utilizam os cortes para as redes sociais”, disse.

Pouco tempo aos candidatos

O professor da PUC-GO explica que os debates servem como “peça de publicidade” para os postulantes que participam do encontro e que, a partir disso, é natural os confrontos entre candidatos. Porém, Pietrafesa chama atenção para o formato atual, que disponibiliza pouco tempo de resposta para cada postulante.

“Os debates eleitorais ainda têm importância, mas é preciso modificar um pouco o formato, não só para não ficar só em uma baixaria, mas para que dê um tempo e haja prazo para que o candidato consiga formular o raciocínio”, frisa.

“Dois, três minutos para o candidato formular um raciocínio é um tempo muito curto. Assim fica nas generalidades mesmo, porque não tem como o candidato desenvolver alguma fundamentação com esse tempo tão pequeno para responder uma pergunta, até para responder um ataque, ou para formular melhor uma pergunta”, completa Pietrafesa.

Foco nos indecisos

Já o doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB), Josimar Gonçalves, chama atenção para o limite da capacidade de conversão de votos. “A literatura e as pesquisas de opinião convergem para uma conclusão pouco romântica: o debate raramente muda o voto de quem já decidiu, mas pode ser decisivo para a fatia de indecisos e eleitores de baixa fidelidade partidária”, destaca.

O cientista político afirma que, apesar de as pesquisas indicarem que o confronto serve mais para reforçar uma decisão que o eleitor já tomou, o desempenho nos debates continua relevante. “O desempenho ruim acumulado ao longo de vários debates pode, sim, corroer a imagem de um candidato entre o público ainda aberto a mudar”, diz Josimar. “Essa tendência não costuma ser um debate isolado que decide, mas a acumulação de sinais ao longo da campanha.”

Na avaliação de Josimar, um episódio como o “direito de corrupção” pode ter grande repercussão sem necessariamente provocar uma mudança imediata no voto. “Um deslize isolado tende a virar meme e reforçar narrativa, mas raramente muda voto sozinho. O que muda voto é um padrão de imagem que se consolida debate após debate”, explica.

Para os especialistas, a lógica segue no comportamento de Renan Santos. Para Pietrafesa, a postura adotada pelo candidato do Missão faz parte de “uma tática do grupo político dele”, que encontra limitações quando o objetivo é ampliar a base de apoio.

Alta taxa de indecisão

Sobre Goiás, os especialistas apontam que o cenário eleitoral explica o foco em Daniel e Marconi. Entretanto, Josimar frisa a existência de um eleitorado ainda aberto como fator capaz de alterar a dinâmica da disputa.

“A alta taxa de indecisão espontânea em Goiás significa que ainda há espaço de movimento, especialmente se o desgaste mútuo entre Daniel Vilela e Marconi Perillo abrir uma janela de ‘voto de protesto’ para os candidatos hoje secundarizados.”

 

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:
Daniel Vilela debate Debate Eleitoral Flávio Bolsonaro Luiz Inácio Lula da Silva Marconi Perillo Renan Santos

Veja também

Lula

Presidente do Brasil

Lula tenta recuperar voz antes de viagem à Turquia

Presidente reservou este sábado (7) para cuidar da rouquidão. Na segunda-feira (9), embarca para p...
Celina Leão

Distrito Federal

Celina autoriza concurso com 57 vagas para médicos da atenção básica no DF

Governadora Celina Leão também anunciou 100 novas vagas para médicos de urgência e emergência; ...
Bancada goiana terá maioria de oposição e de independentes ao governo Lula

Câmara dos Deputados

Bancada goiana terá maioria de oposição e de independentes ao governo Lula

Petistas devem ser os únicos aliados declarados do presidente entre os 17 deputados federais eleito...
Presidências de Câmara e Senado só se decidem após posse de Lula

OPINIÃO

Presidências de Câmara e Senado só se decidem após posse de Lula

Novo ministério vai definir reeleição de Alcolumbre e Motta, além do impeachment de integrantes ...
Caiado

Debandada

Com Caiado no PSD, União Brasil terá que evitar perda de aliados

Saída do ex-governador pode ampliar a migração de prefeitos da antiga sigla para o novo partido d...
Lula sanciona lei que torna exame nacional obrigatório para exercício da medicina no Brasil

SAÚDE

Lula sanciona lei que torna exame nacional obrigatório para exercício da medicina no Brasil

Enamed será aplicado ao final do 2º, 4º e 6º anos da graduação; formandos que não atingirem p...
“Não tenho provas”: Flávio questiona eleições e admite disputar Presidência em 2030

eleições presidenciais

“Não tenho provas”: Flávio questiona eleições e admite disputar Presidência em 2030

Flávio questiona resultado das eleições, anuncia ação contra Lula e fala em disputar 2030
Saiba detalhes de como será a primeira viagem internacional de Lula após reeleição

COP31

Saiba detalhes de como será a primeira viagem internacional de Lula após reeleição

Da COP31 aos negócios na Ásia: o que Lula vai discutir em sua primeira viagem após reeleição