sexta-feira, 16 de outubro de 2026
Carne

Restrição da UE pode causar prejuízo de US$ 16,8 mi por mês para Goiás

Suspensão atinge carnes, pescados, mel e ovos e permanecerá até que o Brasil comprove o cumprimento das exigências de controle e rastreabilidade

João César Almeidapor em
União Europeia
Foto: Divulgação/Governo de Goiás

A suspensão das importações de produtos de origem animal do Brasil pela União Europeia, em vigor desde quinta-feira (3), passou a afetar frigoríficos e exportadores brasileiros, com reflexos em Goiás. A medida alcança carnes bovina, de aves e suína, além de pescados, mel, ovos, equinos e envoltórios, e permanecerá até que o País comprove o atendimento às exigências de controle e rastreabilidade estabelecidas pelo bloco europeu. 

 

O bloqueio não decorre da identificação de contaminação ou de problemas sanitários em produtos brasileiros. A restrição está relacionada à comprovação do cumprimento das regras europeias para utilização de antimicrobianos durante todo o ciclo produtivo. A avaliação da União Europeia é de que os mecanismos brasileiros ainda não oferecem garantias suficientes para demonstrar o atendimento às normas. 

 

“Cabe destacar que a suspensão se trata de uma questão de capacidade de comprovação documental, e não de questões sanitárias sobre a carne brasileira”, explica o analista econômico da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), Saulo Nogueira. 

 

Em Goiás, a estimativa inicial da Fieg aponta prejuízo de US$ 16,8 milhões por mês com a restrição. Os produtos de origem animal exportados pelo Estado para a União Europeia somaram US$ 190 milhões em 2025. Entre janeiro e julho deste ano, as vendas chegaram a US$ 96 milhões, com as carnes bovinas representando a maior parcela das exportações goianas destinadas ao mercado europeu. 

 

O impacto é maior porque os preços pagos pela União Europeia aos produtos brasileiros de origem animal são cerca de 20% superiores aos praticados em outros destinos.  

 

A dificuldade não se resume à necessidade de encontrar novos compradores, uma vez que diferentes mercados demandam cortes e produtos específicos, o que pode dificultar a substituição imediata das vendas destinadas aos consumidores europeus. A Fieg recomenda que empresas busquem alternativas como China, Estados Unidos, Japão, Indonésia e Coreia do Sul.  

 

Governo tenta reverter suspensão

 

Desde que a decisão europeia foi anunciada, em maio, o governo brasileiro mantém negociações com as autoridades do bloco. Em nota conjunta, os ministérios da Agricultura e Pecuária (Mapa) e das Relações Exteriores (MRE) afirmaram que o Brasil adotou medidas para atender aos requisitos e encaminhou documentação relativa às cadeias produtivas afetadas. O País também concordou com uma auditoria europeia nas cadeias de aves e mel, iniciada em 24 de agosto e prevista para terminar nesta sexta-feira (4). 

 

O Ministério da Agricultura também publicou novas regras que proíbem o uso de antimicrobianos como melhoradores de desempenho animal e estabelecem procedimentos adicionais de controle para certificação. As novas exigências demandam rastreamento durante todo o ciclo de vida do animal, o que pode aumentar o impacto da suspensão para o mercado de carne bovina.

Um bovino pode levar entre 24 e 36 meses para chegar ao abate, a adequação integral da produção às regras pode demorar mesmo que a União Europeia reconheça os novos controles brasileiros. 

 

A Fieg aponta que Goiás possui elementos que podem auxiliar nesse processo, como a rastreabilidade individual pelo Sisbov, o reconhecimento como área livre de febre aftosa sem vacinação e a estrutura sanitária estadual. Ainda assim, a entidade recomenda planejamento das exportações e diversificação dos mercados enquanto não houver definição sobre a retomada das vendas para a Europa. 

 

O governo brasileiro afirma esperar uma solução por meio do diálogo técnico, mas informou que poderá recorrer a instrumentos comerciais caso não haja acordo. Até que o bloqueio seja revisto, frigoríficos e demais setores atingidos terão de administrar estoques e buscar novos destinos para parte da produção anteriormente destinada à União Europeia.

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