quinta-feira, 1 de outubro de 2026
OPINIÃO

Crise no agro e medo de prisão enfraquecem e barateiam campanhas

Agiotas se preocupam com a falta de candidatos atrás de empréstimo e nas gráficas faltam encomendas, pois os partidos não estão cumprindo trato de mandar dinheiro e faltam repasses até para majoritários

Nilson Gomespor em
agro
O mesmo sujeito que atende na repartição até as 5 da tarde, às 17h14 já está balançando bandeira de candidatos ligados aos governos federal, estadual e municipais - Foto: Marcelo Camargo/ABr

O cenário dos fins de tarde em todo o Estado de Goiás é de servidores comissionados e gratificados lotando esquinas. O mesmo sujeito que atende na repartição até as 5 da tarde, às 17h14 já está balançando bandeira de candidatos ligados aos governos federal, estadual e municipais. O mesmo vale para o pessoal sem concurso nos Tribunais de Contas, na Assembleia Legislativa, nas Câmaras Municipais e nas empresas públicas. Sempre foi assim, mas agora piorou, porque os políticos não conseguem dinheiro a fundo perdido para contratar cabos eleitorais pagos.

A secura financeira é atribuída a diversas causas, como a crise no agro. O campo contabiliza três anos de seca, preços ruins e, agora, o comércio externo trancado para a carne bovina. Só que esse recurso dos produtores é limpo, eles gastam quando se envolvem diretamente na política ou se querem eleger representantes. A situação está de tal modo ruim que nem dinheiro sujo, de caixa 2 emprestado por agiotas ou egresso de corrupção, está pintando nos comitês.

Os fornecedores, como O HOJE já noticiou, lamentam a falta de encomendas, sejam elas para acerto “no 1”, a gíria do mercado para produtos com nota que serão declarados à Justiça Eleitoral, ou “por fora”, nos velhos esquemas de escapar da fiscalização. Nas gráficas, o costume tem organograma: o deputado estadual quita os próprios papéis e plásticos, o deputado federal paga para os seus e os das dobradinhas com estaduais, o senador banca os dele e os dos deputados federais e estaduais, o governador mal paga os seus e o presidente encomenda em outros Estados. Para piorar, aumentou a concorrência com gráficas de Brasília, Uberlândia (MG) e Ribeirão Preto (SP).

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A maioria aí só abre a mão para cumprimentar eleitor

A última alegria dos fornecedores se deu quando souberam que seriam candidatos dezenas de deputados com mandato, primeiras-damas atuais e ex, dois dos três senadores, cupinchas dos prefeitos das maiores cidades, presidente da República, o governador e dois dos três senadores. Além deles, as famílias mais ricas do Estado estão com integrantes ou aliados disputando cargos, como Alexandre Baldy (dono da BYD brasileira, genro de Marcelo Limírio e 1° suplente de Gracinha Caiado), o próprio casal Gracinha e Ronaldo Caiado, Wilder Morais (senador que tenta o governo), Daniel Vilela (que herdou de Caiado o governo e do pai, Maguito Vilela, fortunas em terras no Sudoeste); Magda Mofatto, Glaustin da Fokus e Professor Alcides (deputados federais ricaços à custa do próprio trabalho que tentam mais uma reeleição sem dó de gastar), Marconi Perillo (governador durante quatro mandatos, uns dizem que está pobre, mas ninguém acredita), Bruno Peixoto (dono de usinas), Adair Henriques (o Vovô do Jeep é multimilionário e os carros que lhe deram o apelido foram troco de balinha para os netos), Daniel Agrobom (virou multibilionário pela própria inteligência, tem uma Bolsa de Valores de Cereais), Gil Tavares e Carlão da Fox (ex-prefeitos de Nerópolis e Goianira por diversos mandatos, também ficaram ultrarricos como empresários), além de candidatos que escondem patrimônio.

Para completar a falta de sorte de quem tentava sair do buraco servindo a esses políticos, a má notícia se confirmou: a maioria aí só abre a mão para cumprimentar eleitor. Não existe pessoa mais pão-dura que Baldy, Marconi e Ronaldo Caiado. Wilder é justo, mas também não gasta 1 centavo sequer do patrimônio em campanha, no melhor estilo Caiado (o presidenciável do PSD tirou do bolso apenas em 1994, pois perdeu para governador no finalzinho e as contas sobraram apenas para ele, já que amigo some quando tem boleto esperando). Marconi e Caiado divergem em tudo, menos em suas habilidades de muquiranas. Esperar gastos de Caiado, Wilder e Marconi é igual a beliscar azulejo.

O pavor de cadeia

Outro fator impeditivo da circulação de moedas é o pavor de cadeia. Depois que crime eleitoral passou a render temporadas na prisão, os financiadores se especializaram em correr dos amigos candidatos. Ficaram no limbo, a um passo do purgatório, somente os prestadores de serviço e os que vendem para os poderes Executivos e Legislativos estaduais e municipais. Assim como os ocupantes de cargos comissionados, quem negocia com órgão público não pode negar ajuda, mesmo que isso signifique a expectativa de algemas.

Os Fundões Partidário e Eleitoral, tão bilionários quanto alguns candidatos, podem ter aparecido em muitos lugares, mas os goianos choram sua ausência. Trata-se de uma verba lícita, apesar de imoral, que todo presidente de partido promete para todos que deseja filiar. Os esperançosos ficam aguardando até depois da eleição e, em geral, levam o cano. Outra grande encrenca é o endereço das malas de dinheiro: só o presidente do diretório estadual alcança os repasses. Depois, distribui para quem quer. Essa é a bomba atual do MDB: Daniel não precisa de dinheiro, pois chefia o Executivo e os doadores em campanha adoram governador, mas tem outra candidatura majoritária no partido, a do deputado federal Zacharias Calil, que deseja ser senador.

Tudo ia bem para Zacharias, as pesquisas qualitativas indicam que é palatável e as quantitativas sérias o colocam em 2° empatado com uns três, mas apareceram de última hora na chapa do governo Vanderlan Cardoso, depois que Caiado foi para o PSD, e Gustavo Mendanha, o preferido dos primos Daniel e Leandro Vilela, prefeito de Aparecida de Goiânia. A secura financeira ficou tamanha que explodiu nas redes a primeira notícia ruim da história do médico de fama internacional: um companheiro de chapa que teria ficado de repassar R$ 2 milhões estaria negando o aporte. Em campanha de senador, o partido teria de acudir. Até agora, isso não ocorreu. (Especial para O HOJE)

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