quarta-feira, 30 de setembro de 2026
Economia

Brasil bate recorde de ocupação enquanto inadimplência chega a 5%

103,5 milhões de ocupados: o que os dados revelam sobre a economia

Otavio Augustopor em
Brasil bate recorde de ocupação enquanto inadimplência chega a 5%
Foto: Divulgação

O mercado de trabalho brasileiro manteve o desemprego em nível baixo no trimestre encerrado em agosto. Ao mesmo tempo, a inadimplência nas operações de crédito atingiu o maior patamar da série histórica do Banco Central.

Os dados divulgados nesta terça-feira (29) mostram que o Brasil tinha 103,5 milhões de pessoas ocupadas no período. O número representa o maior nível da série histórica do IBGE.

Por outro lado, a inadimplência média nas operações de crédito chegou a 5% em agosto. O indicador considera contratos com mais de 90 dias de atraso e reúne operações de pessoas físicas e empresas.

O cenário combina aumento da ocupação e da renda com maior dificuldade das famílias e empresas para manter os pagamentos em dia.

Desemprego fica em 5,3%

Segundo o IBGE, a taxa de desocupação ficou em 5,3% no trimestre encerrado em agosto. O resultado representa queda de 0,3 ponto percentual em relação ao trimestre encerrado em maio e também na comparação com o mesmo período de 2025.

Com isso, o país tinha 5,8 milhões de pessoas desocupadas.

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Foto: Divulgação

Já a população ocupada chegou a 103,5 milhões. O número representa crescimento de 0,8% no trimestre, com 774 mil pessoas a mais trabalhando. Na comparação anual, houve alta de 1%, equivalente a 1,1 milhão de ocupados.

O nível de ocupação também avançou. O indicador passou de 58,6% para 58,9% em relação ao trimestre anterior. Na comparação com um ano antes, ficou praticamente estável, em 58,8%.

Entre os principais números da pesquisa, o IBGE registrou ainda 66,4 milhões de pessoas fora da força de trabalho e 2,4 milhões de desalentados.

O país tinha 39,5 milhões de empregados com carteira assinada, sem considerar trabalhadores domésticos. Outros 13,7 milhões trabalhavam sem carteira. Já o número de trabalhadores por conta própria chegou a 26,1 milhões.

 

 

 

Inadimplência alcança novo recorde

Enquanto o mercado de trabalho apresentou novos recordes de ocupação, a inadimplência avançou.

De acordo com o Banco Central, a taxa média de inadimplência das operações de crédito passou de 4,9% em julho para 5% em agosto. Esse é o maior nível desde o início da série histórica, em março de 2011.

Entre as pessoas físicas, o indicador subiu de 5,8% para 6%. Também nesse caso, agosto registrou o maior patamar da série.

Nas empresas, a inadimplência ficou em 3,3%. O resultado permaneceu estável em relação a julho e representa o maior nível desde outubro de 2017, quando o indicador chegou a 3,4%.

A alta ocorre em um cenário de crédito ainda restritivo. Os juros elevados aumentam o custo dos financiamentos e podem dificultar a capacidade de pagamento de famílias e empresas.

Para o economista Leonardo Costa, da ASA Investimentos, o mercado de trabalho continua sustentando a renda e o consumo, mas alguns sinais exigem acompanhamento.

Segundo ele, a taxa de desemprego permanece baixa e estável, porém o ritmo de criação de vagas perdeu força. O economista também citou a sequência de quedas da massa salarial como um fator de atenção para o consumo das famílias.

 

 

 

Ocupação cresce, mas ritmo perde força

O crescimento do emprego não ocorreu de maneira uniforme entre os setores da economia. Segundo o IBGE, a expansão recente da ocupação ficou concentrada principalmente na construção e na indústria. Os demais setores permaneceram estáveis.

A economista-chefe do PicPay, Ariane Benedito, avaliou que a combinação entre desemprego baixo e crescimento concentrado em poucos setores pode indicar uma perda de força do mercado de trabalho.

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Foto: Divulgação

Ela explicou que os efeitos da desaceleração econômica costumam aparecer primeiro no ritmo de contratação. Depois, podem alcançar o estoque de empregos.

Nesse contexto, os dados de ocupação ainda mostram um mercado de trabalho com elevado número de pessoas trabalhando. No entanto, a evolução dos novos postos passa a ser acompanhada em um cenário de juros elevados e menor ritmo de atividade econômica.

Contas do governo registram déficit

Outro indicador divulgado nesta terça-feira ajuda a completar o quadro econômico. As contas do governo registraram déficit primário de R$ 13,58 bilhões em agosto, segundo o Tesouro Nacional.

O resultado ocorre quando as despesas superam as receitas, sem considerar os juros da dívida pública.

Apesar do déficit, o resultado ficou abaixo do registrado em agosto de 2025. Naquele mês, o déficit chegou a R$ 16,2 bilhões, em valores corrigidos pela inflação.

Além disso, o resultado de agosto foi o melhor para o mês desde 2021. Naquele ano, o déficit primário havia sido de R$ 11,8 bilhões, também em valores corrigidos.

As contas públicas entram no debate sobre juros porque a situação fiscal é considerada pelo Banco Central na avaliação do cenário econômico. A evolução das despesas e das receitas também pode afetar as expectativas de inflação.

Selic passa por quinto corte consecutivo

Os sinais de desaceleração do mercado de trabalho aparecem enquanto o Banco Central mantém o ciclo de redução da taxa básica de juros.

Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), a Selic caiu de 14% para 13,75% ao ano. Foi o quinto corte consecutivo.

Para Ariane Benedito, do PicPay, a perda de força do mercado de trabalho pode abrir espaço para novas reduções. Ao mesmo tempo, a economista defende cortes graduais diante da pouca mobilidade ainda observada no mercado de trabalho.

Na ata da reunião mais recente, o Copom afirmou que continuará avaliando a evolução do cenário econômico para definir a intensidade do ciclo de juros.

O comitê também destacou a necessidade de manter uma política monetária restritiva para assegurar a convergência da inflação para a meta.

Assim, os dados divulgados nesta terça-feira mostram dois movimentos simultâneos. De um lado, o país atingiu o maior número de ocupados da série histórica. De outro, a inadimplência chegou ao maior nível registrado pelo Banco Central desde 2011. A evolução desses indicadores será acompanhada enquanto a economia passa por um processo de desaceleração e o ciclo de cortes da Selic continua.

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