Itamaraty acusa Milei de ingerência externa após ataques ao sistema eleitoral brasileiro
Chancelaria brasileira classifica declarações do presidente argentino como ingerência externa; tensão diplomática entre os dois países já levou ao rebaixamento da representação em Buenos Aires
O governo brasileiro elevou o tom contra o presidente da Argentina, Javier Milei, após novas declarações do líder argentino contra Luiz Inácio Lula da Silva e insinuações de fraude nas eleições brasileiras. Em nota divulgada nesta terça-feira (20), o Ministério das Relações Exteriores classificou as manifestações como uma tentativa de interferência no processo democrático do país, às vésperas do segundo turno, marcado para domingo (25).
A reação ocorreu depois de Milei publicar mensagens na rede social X com críticas ao presidente brasileiro. Em uma delas, compartilhou um trecho de uma entrevista concedida por Lula ao SBT na noite de segunda-feira (19) e afirmou esperar que o que chamou de “último truque de campanha suja” não envolvesse “roubar a eleição”. Em outra publicação, divulgou imagens do debate entre Lula e Flávio Bolsonaro, realizado no domingo (18), e descreveu o petista como um “autoritário adorado pelos progressistas locais”.
Na nota, o Itamaraty afirmou que as declarações dirigidas ao Poder Judiciário e ao sistema de votação eletrônica representam uma “nova e inaceitável tentativa de ingerência externa no processo democrático brasileiro”. A pasta também acusou Milei de repetir informações falsas disseminadas por grupos que contestaram o resultado eleitoral anterior e estiveram envolvidos na tentativa frustrada de golpe de Estado, em referência aos acontecimentos de quatro anos atrás.
O ministério acrescentou que as manifestações são incompatíveis com a postura esperada de um chefe de Estado de um país considerado amigo. Sobre o sistema eleitoral, reiterou que a votação eletrônica brasileira é segura e afirmou que observadores internacionais já reconheceram essa condição durante o primeiro turno.
Ao concluir o comunicado, o Itamaraty defendeu que a escolha dos próximos dirigentes cabe exclusivamente aos eleitores brasileiros. “A decisão sobre o futuro do Brasil cabe exclusivamente ao povo brasileiro, que se manifestará livremente nas urnas, e sem qualquer tipo de ingerência externa, no domingo, dia 25”, declarou a pasta.
Atritos políticos afetam relação diplomática
As declarações de Milei ocorrem em meio ao desgaste das relações entre Brasília e Buenos Aires, agravado por sucessivos ataques verbais do presidente argentino a Lula e a autoridades brasileiras. Desde agosto, o Brasil está sem embaixador na Argentina, enquanto o representante diplomático argentino deixou Brasília. A representação brasileira passou a ser conduzida por um encarregado de negócios, função de nível inferior à de embaixador.
Em 26 de julho, o embaixador brasileiro Julio Bitelli foi chamado de volta a Brasília após Milei insultar Lula durante uma convenção partidária do Partido Liberal (PL), legenda que lançou Flávio Bolsonaro à disputa presidencial. Na ocasião, o argentino chamou o presidente brasileiro de “presidiário” e também criticou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, relator do processo que condenou Jair Bolsonaro, pai de Flávio, a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.
Apesar da deterioração política, Brasil e Argentina mantêm uma relação econômica estratégica. O Brasil é o principal parceiro comercial argentino, e os dois países são integrantes centrais do Mercosul. As economias estão fortemente conectadas, sobretudo nas cadeias automotiva e industrial, além de compartilharem uma relação diplomática de mais de dois séculos.
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