Jardim América muda com expansão urbana e verticalização em Goiânia
Oficializado em 1952, bairro passou por obras de infraestrutura, valorização imobiliária e expansão comercial, além de mudanças no perfil dos moradores
A história do Jardim América, em Goiânia, é marcada pela expansão urbana em direção ao sudoeste da Capital, pela implantação de infraestrutura e pelas mudanças no perfil dos moradores. Originado de uma área da antiga Fazenda Macambira, o setor foi oficializado em 28 de novembro de 1952, por meio do Decreto-Lei nº 185. Inicialmente planejado como um bairro-jardim destinado às classes A e B, teve a ocupação pioneira marcada pela presença de trabalhadores de baixa renda. A partir das décadas seguintes, intervenções urbanísticas contribuíram para a valorização dos terrenos, a expansão comercial e, mais recentemente, a verticalização.
Da Fazenda Macambira ao loteamento
A formação do Jardim América está ligada ao processo de crescimento de Goiânia em direção à região sudoeste. A área que atualmente abriga o setor fazia parte da antiga Fazenda Macambira. Em 1951, o antigo Setor Macambira passou por um processo de desmembramento que resultou, em 28 de novembro de 1952, na criação do loteamento do Jardim América e do vizinho Setor Sudoeste Macambira, conforme o Decreto-Lei nº 185.
Inspirado em loteamentos de São Paulo, o projeto previa a formação de um bairro-jardim voltado principalmente às classes A e B. A proposta buscava associar o empreendimento à modernidade e ao prestígio social. A ocupação inicial, no entanto, ocorreu de maneira diferente do planejamento.
O historiador Adriano de Castro Melo, que pesquisou a formação histórica do setor, explica que os primeiros moradores tinham um perfil socioeconômico distinto daquele previsto no projeto.
“A princípio, o bairro foi projetado para ser de classe média, seguindo já a tendência da região sul da cidade. Mas a ocupação primeira foi por trabalhadores de origem muito humilde.”
Ocupação marcada pela falta de infraestrutura
Nas primeiras décadas, a ocupação do Jardim América ocorreu de forma dispersa, com concentração na porção norte, próxima ao Setor Coimbra e a Campinas. Os moradores enfrentavam a ausência de infraestrutura básica, como pavimentação, abastecimento de água e redes de energia elétrica.
Durante a estiagem, a poeira predominava nas ruas de terra. No período chuvoso, a lama e os buracos dificultavam a circulação. A distância em relação às áreas centrais também fazia parte da rotina dos primeiros habitantes.
Américo Poteiro, morador do bairro há 59 anos e filho do artista plástico Antônio Poteiro, que instalou seu instituto de arte primitiva no setor, recorda as mudanças na região e a relação da família com o local.
“A região tinha outro nome e era uma enorme Fazenda. Essa Fazenda foi loteada e se chamava Macambira. Com o tempo, passou a ser Jardim América […]. Se você pegar nas escrituras antigas nos cartórios, continua sendo Macambira Sul. […] A minha infância foi aqui, convivi com meu pai e minha mãe, me casei e morei aqui. A raiz continua toda aqui.”
Projeto CURA e mudanças no perfil dos moradores
As transformações na infraestrutura e na ocupação do Jardim América ganharam força a partir da década de 1970. Com a aprovação do Plano de Desenvolvimento Integrado de Goiânia (PDIG), em 1969, elaborado pelo urbanista Jorge Wilheim, o planejamento municipal estabeleceu eixos viários para orientar o crescimento da cidade e direcionar a expansão urbana para o sudoeste.
Entre as décadas de 1970 e 1980, o Projeto CURA (Comunidade Urbana de Recuperação Acelerada) promoveu intervenções na região. As obras incluíram pavimentação, iluminação pública, redes de saneamento, escolas e praças urbanizadas.
A implantação da infraestrutura foi acompanhada pela valorização dos terrenos e por mudanças na composição social do bairro. Segundo Adriano de Castro Melo, a alteração no perfil dos moradores esteve relacionada às intervenções promovidas pelo poder público.
“A mudança no perfil dos moradores do Jardim América só aconteceu a partir da década de 80. A passagem não foi obra do acaso ou apenas consequência do processo de crescimento da cidade. Houve um projeto do poder público chamado CURA com esse intuito. Em poucos anos, a maioria dos moradores mais pobres foi saindo do Jardim América. E no lugar deles, chegaram famílias mais abastadas, arranha-céus e muitas empresas.”
A pesquisadora Sandra Catharinne Pantaleão Resende, em estudos acadêmicos sobre a expansão urbana de Goiânia, também destaca a relação entre o planejamento territorial, o sistema viário e a consolidação do setor como uma área de concentração de atividades econômicas.

Grandes avenidas ampliam a circulação e a atividade comercial
A consolidação do Jardim América como polo comercial da região sudoeste esteve associada à abertura e à pavimentação de corredores viários, entre os quais as avenidas T-7, com a C-4, T-9 e T-63. Os eixos contribuíram para conectar o setor a outras regiões da Capital e superar barreiras naturais, como o Córrego Cascavel.
Ao longo dessas vias, o comércio se expandiu e passou a reunir estabelecimentos de diferentes segmentos, como supermercados, agências bancárias, panificadoras e clínicas médicas.
O setor também reúne espaços de convivência e comércio popular, como o Centro Popular de Alimentação e Lazer (Cepal) do Jardim América e a Feira Livre de sábado. Entre as áreas públicas estão as praças Wilson Salles e Santos. A região da Praça Nova Suíça abriga estabelecimentos tradicionais, como a panificadora Della, além de outros serviços e atividades comerciais distribuídos pelas principais vias.
Verticalização altera a paisagem do setor
Nas últimas décadas do século XX, o Jardim América era caracterizado pela presença predominante de residências unifamiliares e terrenos com áreas superiores a 360 metros quadrados. Nos últimos cinco anos, o setor passou por uma intensificação da construção de edifícios residenciais, movimento associado às diretrizes do Plano Diretor de Goiânia.
A legislação prevê o adensamento construtivo ao longo de eixos de transporte, incluindo as avenidas T-9, T-63 e C-4. A medida permite a construção de edifícios em áreas anteriormente ocupadas por casas.
Na perspectiva da gestão municipal, o adensamento ao longo dos eixos de transporte busca aproveitar a infraestrutura existente e orientar a ocupação urbana. O coordenador da comissão do Plano Diretor de Goiânia explica que o Jardim América está entre as regiões contempladas pelas diretrizes de verticalização.
“O objetivo do Plano Diretor é fazer esse adensamento ao longo dos eixos. O Jardim América possui quatro eixos importantíssimos do transporte de Goiânia, sendo três com direito à verticalização: a C-4, a T-63 e a T-9. Trata-se de áreas delimitadas estrategicamente para aproveitar a infraestrutura existente.”
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