Vendas de alimentos crescem até 6,5% após restrições às bets
Associação Brasileira de Supermercados (Abras), o avanço ocorreu em diferentes formatos de varejo e incluiu produtos essenciais, como arroz, óleo, macarrão e café
O desempenho recente dos supermercados brasileiros colocou em evidência uma questão importante para o varejo: como mudanças nos hábitos financeiros das famílias podem refletir nas compras do dia a dia. Levantamento da Associação Brasileira de Supermercados (Abras) aponta crescimento de 6,5% nas vendas de alimentos na semana de 5 a 11 de outubro e de 6,3% entre os dias 12 e 18, na comparação com os mesmos períodos de 2025.
Os resultados foram divulgados em 28 de outubro, durante a feira Supervendas, em Aracaju (SE). A entidade relacionou o avanço à redução das apostas on-line após as restrições impostas pelo governo federal. No entanto, embora a coincidência temporal tenha chamado a atenção do setor, os números apresentados não comprovam que o dinheiro antes destinado às bets foi transferido diretamente para a compra de alimentos.

Para o mercado de consumo, o dado é relevante porque envolve uma categoria essencial do orçamento doméstico. Arroz, óleo, macarrão e café estão entre os produtos que tiveram aumento nas compras, segundo a Abras. O movimento foi observado em diferentes formatos de varejo, como supermercados, atacarejos e lojas de vizinhança.
Produtos essenciais puxam o movimento
O presidente da Abras, João Galassi, afirmou que o crescimento ocorreu nos diferentes modelos de negócio acompanhados pela entidade. A expansão das vendas de itens básicos sugere um aumento no consumo desses produtos nos períodos analisados, embora o levantamento divulgado não permita concluir, por si só, quais fatores explicam o resultado.
O comportamento do consumidor é acompanhado de perto pelo setor supermercadista, que depende da frequência de compra das famílias e do volume de produtos levado para casa. Como alimentos fazem parte das despesas recorrentes, mudanças no orçamento podem alterar tanto a quantidade adquirida quanto a escolha entre marcas, embalagens e estabelecimentos.
A associação entre o avanço das vendas e a restrição às apostas, porém, precisa ser tratada com cautela. A renda disponível, a evolução dos preços, os benefícios sociais e outras despesas também influenciam as decisões de consumo. Sem uma análise que isole esses fatores, não é possível atribuir o crescimento a uma única causa.
Alta aparece em todas as regiões
O crescimento foi registrado em todas as regiões pesquisadas, mas com diferenças entre os mercados. Na semana de 5 a 11 de outubro, o Sul e o grupo formado por Minas Gerais, Espírito Santo e interior do Rio de Janeiro lideraram, ambos com alta de 10,6%. O Nordeste avançou 6,5%, enquanto o Centro-Oeste registrou aumento de 3,6%.
Na semana seguinte, o Sul manteve a maior variação, com crescimento de 9%. Minas Gerais, Espírito Santo e interior fluminense tiveram alta de 7,1%. No Centro-Oeste, o avanço foi de 3,5%, enquanto o Grande Rio registrou 6%. Os dados mostram que a expansão não ficou concentrada em uma única área do país.

Para o varejo alimentar, a distribuição regional ajuda a dimensionar o alcance do movimento. Ainda assim, duas semanas de resultados positivos não bastam para estabelecer uma tendência duradoura nem para identificar, isoladamente, o que levou os consumidores a comprar mais.
Pix recua, mas não comprova mudança de destino do dinheiro
Outro indicador citado por João Galassi foi a redução das transações por Pix após as restrições às apostas. Segundo os números apresentados pela Abras, as operações caíram cerca de 10% logo após a medida e, posteriormente, a retração ficou em torno de 7%.
A entidade considera que parte dos recursos antes utilizados nas apostas pode ter sido direcionada à aquisição de alimentos. Essa hipótese, porém, não equivale a uma comprovação. A redução nas transações por Pix, por si só, não revela quais operações deixaram de ser realizadas nem permite concluir que o dinheiro foi destinado aos supermercados.
Para confirmar essa relação, seria necessário cruzar informações sobre os gastos com apostas, os meios de pagamento e as compras das famílias, além de considerar fatores como renda, inflação e despesas essenciais. Sem essa análise, a associação entre os dois movimentos permanece uma interpretação do setor.
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