El Niño pode ter impacto de quase 10% na safra brasileira de soja
Estudo da Serasa Experian aponta impacto financeiro de R$ 33 bilhões na produção nacional e Goiás pode ter perda de até 4 milhões de toneladas
O agronegócio brasileiro pode enfrentar problemas na safra 2026/27 devido aos efeitos climáticos do El Niño. Um estudo conduzido pela Serasa Experian estimou que a produção brasileira de soja pode encolher 9,7% caso o próximo período acompanhe as condições de produtividade observadas sob a influência do fenômeno climático em 2023/24, na comparação com um cenário de clima neutro. Em números, isso representa uma quebra de 17,6 milhões de toneladas, o equivalente a cerca de 293 milhões de sacas do grão.
A preços balizados em outubro deste ano, a Serasa Experian calcula que essa diferença de volume geraria um rombo potencial de cerca de R$ 33 bilhões no Valor Bruto da Produção (VBP) da soja brasileira.
“Buscamos dimensionar o risco produtivo associado a um cenário climático adverso, e não antecipar o que necessariamente acontecerá na próxima safra. Ao traduzirmos esse possível impacto também para uma dimensão econômica, conseguimos mostrar a relevância que uma mudança de produtividade pode assumir para o produtor e para toda a cadeia ligada à soja”, explica Sabrina Muñoz, gerente de inteligência de dados agro da Serasa Experian.
O levantamento projeta que a soja ocupará 49,9 milhões de hectares na safra 2026/27, um avanço de quase 1 milhão de hectares em relação à temporada anterior. Mesmo com essa expansão de 1,8% na área, a produção total cairia de 181,5 milhões para 163,6 milhões de toneladas sob a influência do El Niño.
“A área plantada é apenas uma das variáveis que determinam o tamanho da safra. Então, em um cenário de maior adversidade climática, o desempenho por hectare ganha peso decisivo. É possível ampliar a área cultivada e, ainda assim, colher menos”, esclarece Sabrina Muñoz.
Os efeitos do El Niño operam de forma assimétrica pelo País. Enquanto a disponibilidade hídrica no Rio Grande do Sul geraria um ganho de 5,5 milhões de toneladas no cenário projetado, o Centro-Oeste sofreria o maior impacto. O Mato Grosso lidera o ranking de perdas estimadas, com um rombo projetado de 9,6 milhões de toneladas.
O Estado de Goiás aparece como o segundo mais impactado do Brasil. Segundo o levantamento da Serasa, em um cenário neutro, as lavouras goianas colheriam 24,2 milhões de toneladas. Sob o impacto do El Niño, essa produção despencaria para 20,2 milhões de toneladas, o que resulta em uma perda de 4 milhões de toneladas de soja.
O gerente do Centro de Informações Hidrológicas, Meteorológicas e Geológicas de Goiás (Cimehgo), André Amorim, descreve o comportamento climático responsável por essa frustração na região central. “O problema é que a chuva não se estabelece, deve ficar em um chove e para”, o que provoca ondas de calor que roubam a umidade do ar e do solo durante a fase crítica de desenvolvimento da planta.
O déficit hídrico prolongado em áreas de sequeiro afeta diretamente a umidade dos grãos e reduz o seu peso comercial. Com a permanência de um padrão de temperaturas elevadas combinado com a baixa umidade nas lavouras, o risco de perdas produtivas e a ocorrência de incêndios nas áreas rurais tornam-se os principais pontos de atenção no campo.
A economista Greice Guerra explica que o choque de oferta nos grãos afeta a inflação. “Quando há uma escassez, há elevação de preço. Uma vez os preços sendo elevados, vai ocorrer um aumento na inflação”, comenta.
Esse aumento nos preços dos alimentos pode amarrar a política monetária do País. “Tendo inflação, nós vamos ter uma Selic com dificuldade de queda, com mais intensidade até o final do ano”, pontua.
Para o Estado de Goiás, onde a cadeia do agronegócio sustenta a economia de grande parte dos municípios do interior, Guerra prevê efeitos em cascata. Segundo a especialista, a redução da produção no Estado provoca “desemprego, oscilação na renda, retração na renda e até mesmo queda na arrecadação”.
Para tentar reduzir os danos de um clima adverso, o setor produtivo precisa investir em resiliência agronômica. Medidas técnicas como o uso do sistema de plantio direto, a manutenção da palhada, a cobertura do solo, a escolha adequada de cultivares e o planejamento correto da época de plantio despontam como ações necessárias para manter a qualidade do solo e reduzir perdas. Além do manejo agrícola, a economista Greice Guerra avalia que o produtor rural também precisa se proteger da descapitalização utilizando tecnologia e garantindo a contração de instrumentos de proteção financeira, como o seguro.
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