Realpolitik explica a aliança entre Daniel Vilela e Ronaldo Caiado

Postado em: 16-09-2021 às 09h22
Por: Marcelo Mariano
MDB terá reunião nesta quinta-feira para discutir a aliança com o DEM | Foto: Reprodução

Os noticiários da política goiana dos anos 1990 e da atualidade envolvem praticamente os mesmos nomes e sobrenomes, mas com mudanças importantes nas alianças entre eles.

Por exemplo, em 1994, Maguito Vilela (MDB) foi eleito governador de Goiás em uma disputa contra Lúcia Vânia (à época no PP e hoje no Cidadania) e Ronaldo Caiado (à época no PFL, que, mais tarde, virou DEM).

Em 1998, Maguito não tentou a reeleição. O candidato do MDB foi Iris Rezende, que, apesar de favorito, foi derrotado por Marconi Perillo (PSDB), com apoio de Ronaldo Caiado.

O MDB comandou Goiás por 16 anos, de 1982 até 1998. Porém, desde 1º de janeiro de 1999, está fora do poder, ou seja, há quase 23 anos. 

Realpolitik

Marcada para esta quinta-feira (16), a reunião da executiva do MDB deve reforçar o ex-deputado federal e presidente estadual do partido, Daniel Vilela, como candidato a vice na chapa à reeleição do governador Ronaldo Caiado em 2022.

Historicamente, MDB e DEM são partidos ideologicamente antagônicos. O primeiro foi oposição à ditadura, enquanto o segundo tem raízes em uma dissidência do PDS, sucessor da Arena, que dava sustentação ao regime militar.

Em Goiás, as campanhas de 1994 e 1998, com fortes acusações entre os lados, provam que MDB e Caiado nem sempre foram amigos.

Contudo, depois de tanto tempo fora do governo, o MDB, mais pragmático, vê no atual governador a chance de voltar a ter influência – embora o cargo de vice, se não houver indicações em outras áreas, tem pouca importância. Trata-se, portanto, da realpolitik em sua essência.

Uma leitura frequente entre emedebistas que apoiam a aliança com Caiado é a de que esta é a única saída para a salvação do partido, que se enfraqueceu nos últimos anos – em 2018, pela primeira vez na história, não elegeu um deputado federal – e não controla grandes prefeituras, com exceção de Aparecida de Goiânia.

Alas emedebistas

O MDB goiano tem duas grandes alas: os iristas, liderados por Iris Rezende, e os vilelistas, liderados por Maguito e, agora, Daniel. Como em qualquer partido grande, é natural que haja divergências, e ambas as alas já estiveram de lados opostos.

Em 2018, os iristas queriam aliança com Caiado, que esteve na chapa do próprio Iris quatro anos antes. Daniel, por sua vez, manteve candidatura própria ao governo. Alguns iristas, então, deixaram o partido.

Do ponto de vista da articulação política do MDB, Daniel sofreu esta derrota em 2018 e outra em 2021, quando o partido rompeu com o prefeito de Goiânia, Rogério Cruz (Republicanos), eleito como vice na chapa de Maguito, que faleceu em decorrência de complicações da Covid-19.

Se o MDB ainda estivesse no comando da Prefeitura de Goiânia, somada à Prefeitura de Aparecida de Goiânia, o partido, com duas grandes cidades nas mãos, dificilmente recuaria de uma candidatura ao governo. Tanto é que o próprio Daniel mantinha publicamente uma postura de oposição a Caiado até pouco tempo antes da ruptura com Rogério Cruz.

Pacificação

Por outro lado, há quem elogie a postura do presidente estadual do MDB ao se aliar a Caiado porque, dessa forma, enfim poderia haver uma pacificação entre as alas de iristas e vilelistas.

O único receio de defensores desta pacificação é o de que o estado de saúde de Iris Rezende possa interferir na aliança, já que, na avaliação de alguns, o compromisso de Caiado é primeiro com Iris e depois com Daniel.

A pacificação emedebista, entretanto, esbarra no prefeito de Aparecida de Goiânia, Gustavo Mendanha, contrário à aliança com o DEM e defensor de uma candidatura própria do MDB em 2022.

Ao lado de Mendanha, estão o deputado estadual Paulo Cezar Martins e o advogado Enio Salviano, presidente da Fundação Ulysses Guimarães em Goiás. Eles alegam que a reunião desta quinta-feira é irrelevante.

Os defensores de uma candidatura própria argumentam que a decisão deveria ser feita por meio de uma consulta aos delegados do MDB, que, segundo eles, são quem realmente têm poder de voto conforme o estatuto.

Paulo Cezar Martins não descarta a possibilidade de uma intervenção do comando nacional do MDB no diretório goiano, caso a definição não seja de acordo com o estatuto e uma candidatura emedebista tenha boas intenções de voto.

A executiva nacional do MDB, a propósito, orienta que o partido lance candidatos a governador em todos os 26 estados e no Distrito Federal.

Enio Salviano diz que, se houver a devida consulta aos delegados e o resultado for contra a candidatura própria, ele apoiaria a decisão do partido. Aliás, o presidente da Fundação Ulysses Guimarães em Goiás ressalta que não tem compromisso de apoiar Mendanha em outro partido e só estará ao lado do prefeito de Aparecida de Goiânia como candidato a governador pelo MDB.

Já os emedebistas que defendem a aliança com o DEM, como o prefeito de Valparaíso de Goiás, Pábio Mossoró, afirmam que todos do partido estão sendo ouvidos e que a maioria deve bancar o apoio a Caiado.

Para Pábio Mossoró, apesar das divergências, o intuito é unir todo o partido, e convencer os que defendem a candidatura própria que o melhor, hoje, é “dar um passo para trás para depois dar dois passos para frente”.

Mendanha

A verdade é que, uma vez confirmada a aliança entre o DEM de Caiado e o MDB de Daniel, Mendanha tende a sair do partido.

Durante recente visita a Brasília, o prefeito de Aparecida Goiânia teria recebido um conselho do ex-presidente Michel Temer (MDB) para não ser candidato a governador. Segundo Temer, por ser jovem, haveria outras oportunidades no futuro.

No entanto, Mendanha não dá sinais de que recuará de sua candidatura e está em constante articulação com diferentes forças políticas.

Por ter várias opções disponíveis, Mendanha não está preocupado, neste momento, com o partido ao qual se filiará nem com eventuais companheiros de chapa.

Conhecido na região metropolitana, o Prefeito de Aparecida de Goiânia tem como prioridades crescer no interior e garantir que terá o apoio de seu vice, Vilmar Mariano (MDB), que, com a provável saída de Mendanha para disputar o governo, assume como prefeito a partir de abril. (Especial para O Hoje)

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