Nova fase do Desenrola mira adimplentes e expõe debate sobre crédito caro
Proposta do Desenrola busca alcançar trabalhadores que mantêm as contas em dia, mas enfrentam juros altos
A nova fase do programa Desenrola Brasil, anunciada pelo governo federal e ainda em construção, deve marcar uma mudança importante no foco da política de renegociação financeira no País. Diferentemente da primeira etapa, voltada a consumidores inadimplentes, a nova proposta pretende atender brasileiros que mantêm suas contas em dia, mas continuam enfrentando altas taxas de juros no mercado de crédito. A iniciativa também deve alcançar trabalhadores informais, grupo que historicamente encontra mais dificuldade para acessar financiamentos em condições favoráveis.
A ideia, segundo o Ministério da Fazenda, é criar uma linha de crédito mais acessível para esse público, especialmente diante de um cenário em que o custo do dinheiro segue elevado. O objetivo é ampliar o acesso ao crédito e oferecer condições mais vantajosas para quem, mesmo sem dívidas em atraso, sente os impactos dos juros sobre o orçamento.
Para o economista Luiz Carlos Ongaratto, no entanto, a proposta ainda carece de detalhes e precisa ser analisada com cautela. Segundo ele, como o programa ainda não foi formalmente desenhado, é cedo para avaliar os impactos concretos da medida, mas alguns pontos já levantam preocupação.
Na avaliação do especialista, para trabalhadores formais que possuem saldo no Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), a possibilidade de usar esse recurso como base para antecipação de pagamentos ou obtenção de crédito pode representar um alívio financeiro imediato. Por outro lado, o mecanismo exige atenção.
Ainda de acordo com ele, o trabalhador pode até ter uma folga no orçamento ou quitar parcelas antecipadamente, mas é importante entender que esse não é um dinheiro novo. É um patrimônio que já pertence a ele e que, originalmente, teria outra finalidade, como a aposentadoria ou uma reserva futura.
Segundo o economista, o principal risco está na antecipação de consumo. Ao utilizar recursos que estariam guardados para o futuro, o trabalhador ganha fôlego no presente, mas reduz sua proteção financeira de longo prazo. Para ele, sem educação financeira, a medida pode gerar um efeito contrário ao esperado.
A situação se torna ainda mais complexa quando o foco recai sobre os trabalhadores informais. Sem vínculo formal de trabalho e sem depósitos regulares em FGTS, esse grupo depende de alternativas que ainda não foram esclarecidas pelo governo.
Para Ongaratto, a grande barreira para esse público continua sendo a comprovação de renda. Sem estabilidade financeira formalizada, bancos e instituições de crédito encontram dificuldade para medir o risco de inadimplência, o que acaba elevando os juros cobrados.
“É por isso que a formalização é tão importante dentro da economia e até mesmo negócios que a primeiro momento são informais eles podem ser formalizados”, afirma. O mercado financeiro precisa de previsibilidade, quando não existe uma renda fixa ou um histórico consistente de recebimentos, o risco percebido aumenta e isso encarece o crédito.
O economista destaca que esse cenário reforça a importância da formalização no mercado de trabalho. Além de ampliar a arrecadação tributária, a formalização cria condições mais favoráveis para o acesso a serviços financeiros, especialmente crédito com juros menores.
Em Estados como Goiás, onde uma parcela importante da atividade econômica também passa por trabalhadores autônomos e pequenos empreendedores, a discussão ganha peso adicional. O acesso a crédito mais barato pode significar capital de giro, investimento e maior capacidade de consumo, mas a efetividade depende da estrutura do programa.
Ongaratto avalia que o problema central do crédito caro no Brasil não está, necessariamente, na falta de programas de antecipação de recursos, mas no ambiente macroeconômico.
Segundo ele, o custo do crédito está diretamente ligado à política fiscal e ao equilíbrio das contas públicas. O aumento dos gastos governamentais e a pressão sobre o cenário fiscal mantêm o Banco Central em posição de cautela, o que sustenta taxas de juros elevadas. O economista reforça que crédito barato não se constrói apenas com antecipação de recursos, isso pode aliviar momentaneamente, mas não muda a estrutura de juros do País.
Na prática, ele explica que, para quem já está inadimplente, o Desenrola atua na renegociação de dívidas e redução de encargos acumulados. Já para quem está adimplente, a lógica muda: o benefício estaria na antecipação de pagamentos futuros, o que reduz encargos, mas não altera o custo estrutural do crédito.
A expectativa do governo é apresentar os detalhes da nova fase do programa até o início de junho. Até lá, o mercado e especialistas acompanham a construção da proposta, que pode abrir uma nova frente de discussão sobre crédito, consumo e inclusão financeira no País.