Terras raras criam desconforto entre Daniel e Lula sobre exploração mineral
Enquanto governo federal defende controle nacional sobre minerais, Palácio das Esmeraldas faz acordos com estrangeiros
Bruno Goulart
A disputa mundial por terras raras e minerais críticos colocou Goiás no centro de um embate político com o Governo Federal. De um lado, o presidente Lula da Silva (PT) defende que o Brasil mantenha controle sobre essas riquezas minerais. Do outro, o Governo de Goiás faz acordos internacionais para transformar o Estado em referência mundial no setor.
As terras raras são minerais usados na fabricação de carros elétricos, baterias, turbinas eólicas, celulares, equipamentos militares e outras tecnologias modernas. O Brasil possui a segunda maior reserva do mundo, mas ainda depende de outros países, principalmente da China, para processar esse material.
Era das terras raras
Nesta semana, Lula afirmou que o Brasil precisa avançar rapidamente no mapeamento e na exploração desses minerais. Falou ainda que o País conhece apenas cerca de 30% do potencial mineral existente no território nacional.
“Estamos na era das terras raras e dos minerais críticos”, afirmou Lula. O presidente também disse que o Brasil está aberto a parcerias internacionais, inclusive com Estados Unidos, China, Japão e países europeus, mas deixou claro que o País não pretende abrir mão do controle sobre as reservas. “Os minerais críticos são nossos, as terras raras são nossas e a gente quer explorar aqui dentro.”
Mina Serra Verde
O discurso acontece em um momento em que Goiás ganha destaque internacional por causa da mina Serra Verde, localizada em Minaçu, no Norte do Estado. A unidade é considerada a única produtora em grande escala de terras raras pesadas fora da Ásia.
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A atuação do governo goiano, porém, criou desconforto no Palácio do Planalto. O então governador Ronaldo Caiado (PSD) assinou memorandos de entendimento com os governos dos Estados Unidos e do Japão para atrair investimentos e ampliar pesquisas no setor mineral.
A movimentação foi vista por integrantes do Palácio do Planalto como uma tentativa de negociar um tema de competência da União. Contudo, o Governo de Goiás rebate ao dizer que os acordos respeitam a legislação brasileira. A gestão estadual afirma que atua apenas na área de incentivos fiscais, licenciamento ambiental e atração de empresas, sem interferir nas concessões minerais.
O governador Daniel Vilela (MDB) tem adotado postura de menor embate com o Governo Federal e reforçado que Goiás quer mais do que apenas extrair minério. Segundo o emedebista, o Estado pretende garantir que parte do processamento industrial aconteça em território goiano. “O mais importante para nós é ter agregação de valor e processamento desse minério aqui em Goiás. Isso nós não vamos abrir mão”, afirmou o chefe do Executivo goiano.
Daniel também se reuniu, na última quarta-feira (20), com representantes da mineradora Serra Verde e da empresa americana USA Rare Earth, que anunciou fusão com o grupo goiano. O governo estadual quer que novas etapas industriais sejam instaladas em Goiás para gerar empregos e renda. “Queremos tornar Goiás referência e ter ainda mais relevância no mercado internacional”, disse o governador.
Minaçu
Mas, em meio à disputa entre governos, o prefeito de Minaçu, Carlos Leréia (PSDB), chama atenção ao afirmar para o jornal O HOJE que o avanço da mineração aconteceu graças ao investimento estrangeiro, e não por ação de governos.
“Se não fossem os investidores estrangeiros, a mina não teria saído do papel”, declarou. Segundo Leréia, o projeto começou ainda entre 2009 e 2010, atravessou diferentes governos estaduais (Alcides Rodrigues, Marconi Perillo, José Eliton, Ronaldo Caiado), federais (Lula 2, Dilma Roussef, Michel Temer, Jair Bolsonaro e Lula 3) e só avançou porque empresas de fora apostaram no potencial da região. Agora, vejo os governantes querendo levar o mérito. Não teve esquerda e nem direita. O mérito é dos investidores. Conheço a história”, finaliza. (Especial para O HOJE)