terça-feira, 23 de junho de 2026
NEGÓCIOS

Menos vendas, mais valor: mercado de artes decorativas volta a crescer

Arte decorativa movimenta US$ 3,9 bilhões e aposta em peças raras para crescer

Otavio Augustopor Otavio Augusto em 1 de junho de 2026
Menos vendas, mais valor: mercado de artes decorativas volta a crescer

O mercado internacional de artes decorativas voltou a crescer em 2025 e movimentou cerca de 3,9 bilhões de dólares, resultado 7,1% superior ao registrado no ano anterior. Apesar da recuperação, o setor ainda opera abaixo do pico alcançado em 2023, quando as vendas somaram aproximadamente 5,7 bilhões de dólares. O cenário atual revela uma transformação importante no comportamento dos compradores: menos obras estão sendo negociadas, mas os valores pagos por peças consideradas exclusivas ou históricas dispararam.

O segmento engloba mobiliário de luxo, design colecionável, joias, relógios, esculturas decorativas e objetos assinados por artistas e designers consagrados. O movimento observado em 2025 reforça uma tendência que vem se consolidando no mercado global de arte: a concentração dos investimentos em peças de prestígio, capazes de unir valor cultural, exclusividade e potencial financeiro.

A dinâmica também acompanha uma retomada mais ampla do mercado mundial de arte, que voltou a crescer após anos de desaceleração e atingiu cerca de 59,6 bilhões de dólares em vendas globais durante 2025.

Menos obras vendidas, mas preços muito mais altos

Os números revelam uma mudança significativa na estrutura das negociações. Enquanto o volume de lotes comercializados caiu 11,9% entre 2024 e 2025, o preço médio por obra vendida aumentou 21,6%, alcançando cerca de 15.247 dólares.

Na prática, isso significa que os compradores estão mais seletivos e concentrando recursos em itens considerados raros ou altamente desejados. Em vez de adquirir várias peças de valor intermediário, colecionadores e investidores têm priorizado obras icônicas, assinadas por nomes consolidados e com histórico de valorização.

Esse comportamento também aparece em outros segmentos do mercado artístico. Relatórios internacionais apontam que obras vendidas por mais de 1 milhão de dólares responderam por grande parte do crescimento registrado em 2025, enquanto faixas de preço mais baixas enfrentaram desaceleração nas vendas.

Especialistas avaliam que o fenômeno reflete um momento de maior cautela econômica global. Em períodos de instabilidade, compradores de alta renda costumam buscar ativos considerados mais seguros e exclusivos, incluindo obras de arte e objetos históricos.

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Leilões milionários impulsionam o setor

O principal símbolo dessa nova fase do mercado surgiu em dezembro, durante um leilão da Sotheby’s. Um hipopótamo-bar criado em 1976 pelo artista e designer francês François-Xavier Lalanne foi arrematado por impressionantes 31,4 milhões de dólares após uma disputa de 26 minutos entre compradores. O valor estabeleceu um novo recorde para o artista e se tornou uma das vendas mais comentadas do ano.

O episódio ilustra como o mercado tem direcionado atenção para peças que combinam arte, design e raridade. Obras únicas ou produzidas em tiragens extremamente limitadas passaram a atrair colecionadores internacionais dispostos a disputar valores cada vez mais elevados.

Além do aspecto estético, muitos desses objetos passaram a ser vistos como ativos patrimoniais. Em alguns casos, peças de design histórico têm apresentado desempenho semelhante ao de investimentos tradicionais, impulsionando a presença de fundos, consultores e investidores especializados no setor.

Geograficamente, a Europa continua sendo o principal mercado de artes decorativas do mundo, movimentando cerca de 1,4 bilhão de dólares em 2025. Mesmo assim, a região registrou retração de 4,9% em relação ao ano anterior.

A principal mudança ocorreu na América do Norte. Impulsionada pelo aquecimento dos leilões de alto valor e pela forte presença de colecionadores norte-americanos, a região alcançou 1,2 bilhão de dólares em vendas e ultrapassou a Ásia, registrando crescimento expressivo de 31,4%. A Ásia encerrou o ano com aproximadamente 1,1 bilhão de dólares movimentados.

arte

Mercado se torna mais seletivo e exclusivo

Embora os indicadores mostrem recuperação, o mercado de artes decorativas vive uma fase de reestruturação. O crescimento das vendas não está sendo impulsionado por uma expansão ampla do número de compradores, mas pela valorização de obras raras e pela concentração dos investimentos em peças de alto prestígio.

O cenário evidencia uma transformação no perfil dos colecionadores, que buscam cada vez mais exclusividade, procedência comprovada e potencial de valorização. Ao mesmo tempo, o segmento intermediário enfrenta desafios maiores para manter liquidez e atrair compradores.

Nesse contexto, arte, design e objetos decorativos deixam de ser apenas itens de decoração e consolidam espaço como ativos de luxo e patrimônio cultural, reforçando uma tendência que vem remodelando o comportamento dos investidores em diferentes partes do mundo.

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