quinta-feira, 25 de junho de 2026
Saúde pública

Projeto prevê cadastro para mapear obesidade infantojuvenil em 75 mil estudantes da rede pública de Goiás

Proposta em tramitação na Alego prevê avaliações anuais para monitorar casos e orientar políticas públicas de prevenção de obesidade infantil

João Césarpor João César em 5 de junho de 2026
Obesidade
Dados da SES mostram que 35,4% das crianças de até 10 anos acompanhadas pela Atenção Primária apresentam obesidade no Estado - Foto: Marcello Casal Jr./ABr

A criação de um cadastro estadual de obesidade infantojuvenil nas escolas da rede pública de Goiás pretende ampliar o monitoramento de um problema que já preocupa as autoridades de saúde. Dados da Secretaria de Estado da Saúde (SES-GO) mostram que 35,4% das crianças de 0 a 10 anos acompanhadas pela Atenção Primária à Saúde apresentam obesidade. Ao todo, são 75.867 crianças nessa condição, segundo informações do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) referentes a 2025.

Diante desse cenário, um projeto de lei, de autoria do deputado estadual Karlos Cabral (PSB), em tramitação na Assembleia Legislativa propõe a criação de um cadastro de obesidade infantojuvenil nas escolas de ensino fundamental e médio da rede estadual. A iniciativa prevê avaliações antropométricas anuais dos estudantes e a formação de um banco de dados compartilhado entre as secretarias estaduais de Educação e Saúde para subsidiar políticas públicas de prevenção e tratamento.

A proposta estabelece que, nos primeiros 60 dias de cada ano letivo, os alunos sejam submetidos a avaliações individuais que incluam medidas de peso, altura e circunferência da cintura e do pescoço. Com base nesses dados, será calculado o Índice de Massa Corporal (IMC), indicador utilizado internacionalmente para identificar situações de baixo peso, sobrepeso e obesidade.

O cadastro deverá reunir informações como nome, data de nascimento, endereço e contato dos responsáveis, além dos dados antropométricos. As informações serão encaminhadas às Coordenadorias Regionais de Educação e integradas a um banco de dados único do Estado.

Segundo a justificativa do projeto, o objetivo é identificar precocemente crianças e adolescentes com desvios nutricionais e possibilitar intervenções antes que o excesso de peso evolua para doenças mais graves. O texto destaca que a obesidade infantil está associada a problemas como hipertensão arterial, diabetes tipo 2 e outros fatores de risco cardiometabólico.

Os números da própria SES-GO reforçam a dimensão do desafio. Entre as macrorregiões de saúde do Estado, a maior prevalência percentual foi registrada na região Centro-Sudeste, com 37,8% das crianças acompanhadas apresentando obesidade. Já a região Centro-Oeste concentra o maior número absoluto de casos, com 22.271 crianças.

A preocupação não é exclusiva de Goiás. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a obesidade como uma doença crônica e multifatorial, influenciada por fatores genéticos, ambientais, comportamentais e socioeconômicos. Em 2022, mais de 390 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos estavam com sobrepeso no mundo. Desse total, mais de 160 milhões viviam com obesidade.

A OMS também alerta que o excesso de peso na infância aumenta o risco de desenvolvimento precoce de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares. Além das consequências físicas, a obesidade infantil pode afetar a saúde mental, o desempenho escolar e a qualidade de vida, estando frequentemente associada a situações de estigma, discriminação e bullying.

Escolas como espaço estratégico  para combate a obesidade infantil

A proposta aposta no ambiente escolar como um dos principais locais para identificar e enfrentar o problema. A justificativa do projeto cita estudos que apontam a importância da participação da escola e da família na prevenção e no tratamento da obesidade.

O texto também prevê que escolas integradas ao Programa Saúde na Escola (PSE) possam oferecer orientação nutricional aos estudantes por meio das equipes de saúde vinculadas ao programa.

A iniciativa se soma a outras ações já adotadas pelo Estado. Em 2024, Goiás aprovou a Lei Estadual nº 22.830, que estabelece diretrizes para prevenção e enfrentamento da obesidade infantojuvenil no ambiente escolar, incluindo triagens periódicas, acompanhamento dos estudantes e ações educativas voltadas à alimentação saudável e à prática de atividades físicas.

Além disso, a SES-GO afirma que mantém programas de promoção da saúde e prevenção de doenças crônicas, como o Programa Saúde na Escola, a Academia da Saúde e o Incentivo à Atividade Física nas Unidades Básicas de Saúde.

Embora o cadastro possa ampliar a capacidade de monitoramento da obesidade infantil, órgãos de saúde apontam que o enfrentamento do problema exige ações mais amplas. A OMS destaca que o excesso de peso resulta de uma combinação de fatores, incluindo o consumo frequente de alimentos ultraprocessados, o sedentarismo, o excesso de tempo em frente às telas e a dificuldade de acesso a alimentos saudáveis.

Por isso, além da identificação precoce dos casos, as estratégias de prevenção envolvem educação alimentar, incentivo à atividade física, fortalecimento da atenção primária à saúde e participação ativa das famílias.

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