terça-feira, 7 de julho de 2026
Estratégia

PT quer desvincular aproximação com evangélicos de interesses eleitorais

Partido aposta em estratégia do não uso eleitoral da fé para se aproximar do segmento religioso

Thiago Borgespor Thiago Borges em 9 de junho de 2026
PT quer desvincular aproximação com evangélicos de interesses eleitorais
Partido organizou o IV Encontro Nacional de Evangélicos e Evangélicas do PT, em Brasília | Foto: Marcelo Camargo/ABr

Em meio às articulações políticas que podem render frutos eleitorais em outubro, o PT tem apostado suas fichas na aproximação com o segmento evangélico como uma das frentes que pode contribuir para a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Na última segunda-feira (8), o partido organizou o IV Encontro Nacional de Evangélicos e Evangélicas do PT, em Brasília. O evento reuniu lideranças religiosas, parlamentares, pesquisadores, comunicadores e representantes de movimentos sociais. A primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, marcou presença, assim como o presidente nacional da legenda, Edinho Silva.

O tom dos discursos no evento deixou claro que a estratégia petista de aproximação com o segmento visa confrontar a associação imediata dos evangélicos aos setores da direita e evitar a pecha de que o movimento do partido acontece apenas por interesses eleitorais.

Em sua fala, Edinho destacou que o partido não fará disputa política “usando a fé de ninguém”. “Nós não vamos manipular a fé de ninguém. Não vamos fazer disputa político-eleitoral usando a fé de ninguém. Nós temos que construir o espaço de diálogo.” O evento também marcou o lançamento de uma carta do PT aos evangélicos. O documento prega que o compromisso da legenda “não nasce do uso eleitoral na fé”.

Representante do Estado

A vereadora por Goiânia, Aava Santiago (PSB), foi a única parlamentar goiana presente. “Durante muito tempo, falar sobre os evangélicos no Brasil significou ouvir sempre as mesmas vozes. Este encontro mostra que existe uma diversidade enorme dentro das igrejas e que milhões de cristãos defendem a justiça social, o combate à fome, a dignidade humana e os valores democráticos. Nós existimos, estamos organizados e queremos participar da construção dos rumos do País”, disse Aava em seu discurso.

O movimento aconteceu na esteira de declarações recentes de Lula. Na última semana, o presidente da República afirmou que não participa de eventos religiosos em época de eleição por não querer “passar a ideia” de que queira “tirar proveito político de coisa sagrada”.

A fala foi dada durante a “Marcha Para Jesus”, em São Paulo, durante uma ligação por telefone de Lula com o apóstolo Estevam Hernandes, fundador do evento. O contato foi feito por intermédio do advogado-geral da União, Jorge Messias, que é membro da Igreja Batista Cristã de Brasília e um dos principais articuladores da relação do governo com os evangélicos.

Busca às igrejas por capilaridade

Para o doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Brasília (UnB) e professor da PUC-GO, Pedro Pietrafesa, os movimentos recentes do partido mostram que a legenda busca aumentar a capilaridade no meio evangélico e frear a atuação dos parlamentares à direita.

“Essa iniciativa busca ampliar o diálogo e a capilaridade do PT junto a um conjunto maior de denominações evangélicas. O objetivo é evitar que o eleitorado evangélico identifique o PT apenas a partir da atuação de lideranças religiosas ligadas a partidos de direita, que hoje possuem presença mais expressiva nesse segmento”, diz o cientista.

Apesar de entender que o partido busca reduzir a percepção de distanciamento dos evangélicos, Pietrafesa diz que “eliminar completamente esse imaginário é difícil”. “Historicamente, existem lideranças evangélicas ligadas ao PT e à esquerda, mas, em termos quantitativos, elas são muito menos numerosas do que aquelas vinculadas aos partidos de direita. Por isso, é importante que o partido mantenha e intensifique esse diálogo e construa uma relação que vá além das eleições de 2026”, destaca o professor.

“Os partidos de direita tiveram, ao longo dos anos, uma presença mais intensa nesse campo, embora isso não signifique que o PT e os partidos de centro-esquerda não tenham qualquer diálogo com esses grupos. Essa interlocução existe, mas em menor intensidade”, afirma Pietrafesa.

Leia mais: Malafaia rebate Janja e acusa primeira-dama de distorcer declaração sobre mulheres evangélicas

Aumento de evangélicos

Além disso, o professor frisa que a estratégia ganha sentido quando pensado no aumento dos evangélicos na população brasileira. “O fortalecimento dessa presença será importante para o PT nos próximos anos. Manter um diálogo constante com o segmento evangélico contribui para ampliar a interlocução do partido com uma parcela crescente da população brasileira, da mesma forma que ele já possui uma relação historicamente mais consolidada com setores do campo católico” conclui.

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