China recua em exigências para soja brasileira, mas caso acende alerta sobre sanidade das exportações goianas
Três meses após devolução de navios e suspensão de embarques de soja, setor avalia que impactos foram limitados, mas reforça necessidade de vigilância fitossanitária
Três meses após a China devolver cargas de soja brasileira por descumprimento de exigências sanitárias e provocar uma crise momentânea nas exportações do grão, os reflexos para Goiás foram limitados. Ainda assim, o episódio colocou em evidência a importância dos controles fitossanitários para a manutenção do acesso aos principais mercados internacionais.
Em março deste ano, cerca de 20 navios brasileiros carregados com soja foram rejeitados pelas autoridades chinesas após a identificação de sementes de ervas daninhas consideradas proibidas pela legislação do país asiático. O problema também levou grandes exportadoras, como a Cargill, a suspender temporariamente embarques destinados à China.
Na época, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) adotou uma postura mais rigorosa na emissão dos certificados fitossanitários, documento obrigatório para a exportação. Sem a certificação, os carregamentos não poderiam seguir para o mercado chinês nem receber pagamento pela mercadoria.
A situação mobilizou autoridades dos dois países e abriu uma rodada de negociações para evitar prejuízos maiores ao comércio bilateral. Posteriormente, a China concordou em flexibilizar parte das exigências e deixou de adotar, na prática, o critério de tolerância zero para a presença de impurezas nas cargas, embora a fiscalização continue ocorrendo.
O episódio teve relevância especial para Goiás. O Estado ocupa posição estratégica na produção nacional de soja e mantém forte relação comercial com a China, principal compradora do grão brasileiro. Dados da Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa) mostram que a colheita da safra 2025/2026 foi praticamente concluída em abril, consolidando mais uma temporada de grande produção agrícola no Estado.
Para o diretor de Defesa Agropecuária da Agrodefesa, Rafael Vieira, o episódio não comprometeu a imagem da produção goiana no mercado internacional.
“A produção agropecuária goiana atende aos mais altos requisitos de sanidade exigidos pelos principais mercados externos. Goiás é o terceiro maior exportador entre os estados brasileiros e a China é o principal destino dos produtos goianos e brasileiros. O incidente de março foi algo pontual e passou a ser tratado pelo Ministério da Agricultura”, afirmou.
Segundo ele, Goiás mantém programas específicos voltados para a sanidade da cultura da soja e para o monitoramento de possíveis ameaças fitossanitárias. Entre as ações está o Programa Estadual de Prevenção e Controle de Pragas para a Cultura da Soja, que atua no combate à ferrugem asiática, uma das principais doenças da lavoura.
A Agrodefesa também trabalha na elaboração de uma instrução normativa para instituir o Programa Estadual de Prevenção, Controle e Erradicação do Amaranthus palmeri, conhecido como caruru-gigante, erva daninha considerada uma das mais agressivas para a produção agrícola mundial.
De acordo com Vieira, Goiás possui uma vantagem importante nesse cenário. “Diferente de outros estados, Goiás é considerado área livre de Amaranthus palmeri. Isso mostra que estamos atentos e vigilantes à sanidade da nossa produção agrícola, sempre contando com a parceria das entidades e dos produtores rurais para manter os mais altos níveis de conformidade e qualidade exigidos pelos parceiros comerciais internos e externos”, destacou.
Apesar da repercussão internacional do caso, analistas do mercado avaliam que o impacto econômico foi pequeno diante do volume total exportado pelo Brasil. As cargas devolvidas representavam entre 1,2 milhão e 1,5 milhão de toneladas, enquanto as exportações brasileiras de soja devem superar 110 milhões de toneladas neste ano.
Ainda assim, especialistas apontam que o episódio serviu como alerta para toda a cadeia produtiva. A dependência da China, destino de aproximadamente 80% da soja exportada pelo Brasil, exige atenção constante ao cumprimento das exigências sanitárias internacionais.
Para Goiás, onde o agronegócio responde por parcela significativa da economia e das exportações, a manutenção da credibilidade sanitária é considerada fundamental para garantir competitividade e preservar mercados estratégicos nos próximos anos.
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