quarta-feira, 7 de outubro de 2026
Apostas

Bets drenam R$ 143 bilhões do varejo brasileiro em dois anos

Levantamento da CNC mostra que recursos destinados ao consumo foram direcionados para apostas on-line

João César Almeidapor em
Bets drenam R$ 143 bilhões do varejo brasileiro em dois anos
Especialistas alertam para o aumento do endividamento das famílias e os impactos sobre a economia - Foto: Unsplash

A indústria de bets e cassinos on-line é um setor relativamente novo em solo brasileiro, com suas operações tendo início em janeiro do ano passado. Porém, mesmo ainda dando seus primeiros passos, já arrecadou com impostos mais do que a indústria do tabaco, agricultura e drenou faturamento do setor varejista. De acordo com dados da Receita Federal, a receita das empresas de apostas on-line licenciadas dobrou nos quatro primeiros meses deste ano em relação ao mesmo período de 2025.

Esse aumento aconteceu mesmo em meio a diversas discussões quanto à legalidade e ao vício que essas casas de apostas causam. Mesmo com restrições, a arrecadação de impostos das apostas saiu de R$ 2,2 bilhões nos primeiros quatro meses do ano passado para R$ 4,5 bilhões no mesmo período de 2026.

Com esses números, as empresas de bets tiveram uma receita de R$ 12,2 bilhões nos quatro primeiros meses do ano. Em 2025, o faturamento do setor foi de R$ 36,9 bilhões.

Segundo um levantamento da Confederação Nacional do Comércio (CNC), as bets e casas de apostas drenaram R$ 143 bilhões, ou cerca de 2,5% do faturamento do varejo brasileiro nos últimos dois anos. A economista Greice Guerra explicou para o O HOJE que o setor de apostas ajuda no endividamento de famílias e, com isso, outros setores são comprometidos.

“Aquele dinheiro que ia ser gasto no comércio, na economia local, ele é gasto nas apostas. E muitas vezes sem retorno nenhum. É um dinheiro que foi embora. Aí a pessoa fica sem recurso para gastar e endividada”, comenta.

O levantamento da CNC ainda mostra que cada R$ 1 bilhão gasto em apostas reduz cerca de 0,7% do faturamento do varejo.

Um dos principais problemas apontados pela economista é a drenagem de recursos que deveriam aquecer o varejo e outros setores da economia. As plataformas utilizam propagandas e mecanismos de recompensa semelhantes a outros vícios, impulsionando os usuários a deixarem de consumir produtos de primeira necessidade e serviços.

“É um entretenimento perigoso que pode levar ao vício, comprometer a renda das pessoas, que já anda muito comprometida, e acirrar ainda mais esse endividamento”, ressalta.

Impacto para outros setores

Para efeito de comparação com a arrecadação das bets, a indústria tabagista e a agropecuária pagaram em impostos cerca de R$ 4 bilhões cada, no mesmo período analisado.

Além desse avanço nos primeiros meses do ano, um ponto que deve alavancar o faturamento do setor de apostas é a Copa do Mundo, com um aumento entre R$ 20 bilhões e R$ 25 bilhões nos valores usados para bets e cassinos. A estimativa da consultoria H2 Gambling Capital projeta aumento entre R$ 20 bilhões e R$ 25 bilhões nos valores depositados para se fazer apostas esportivas durante o evento.

Ainda de acordo com a H2, no final do ano passado, dez marcas concentravam 68,8% do mercado. Em primeiro lugar vinha a Betano, com 23% da receita gerada com apostas no Brasil em 2025. A Bet365 (15,1%), Superbet (7,3%), SportingBet (6,1%) e a Esportes da Sorte (4%) fecham o topo do ranking.

De acordo com a economista, o setor não deve ser classificado como uma atividade econômica tradicional, uma vez que não gera empregos, não produz bens e não movimenta a indústria de forma produtiva. “Nós precisamos de entender que apostas não é investimento, é entretenimento”, afirma Guerra.

Combate aos danos das bets

Para combater o cenário de endividamento e vício, a economista defende uma dupla abordagem baseada em regulação estatal e educação. Na opinião de Guerra, é preciso adotar políticas mais rígidas e o aumento da tributação sobre as plataformas de apostas, além de fortalecer ações de conscientização sobre os riscos financeiros envolvidos, apontando a falta de educação financeira. “Na minha opinião tinha que ser matéria obrigatória nas escolas, desde criança”, pontua.

No Brasil, as principais ações para coibir e diminuir o volume de apostas são punições para sites irregulares, principalmente aqueles divulgados por influenciadores. Outra ação é a autoexclusão do CPF do banco de dados de bets, que é uma ferramenta eficaz para prevenir problemas e proteger quem sente que o jogo impacta negativamente sua saúde física, mental, financeira e social.

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aposta bets Economia faturamento varejo

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