quarta-feira, 24 de junho de 2026
AGRO

Baixa do milho impulsiona cultivo de sorgo e girassol em Goiás

Queda na produtividade do milho safrinha leva produtores rurais a ampliar sorgo e girassol como alternativas para conter riscos

Lalice Fernandespor Lalice Fernandes em 24 de junho de 2026
milho
Segundo relatório, 43% das áreas de milho foram semeadas fora da janela ideal, consequência do atraso no plantio e chuvas (Foto: Lucas George Wendt/ Unsplash)

A redução prevista na produção de milho safrinha em Goiás tem levado produtores rurais a ampliar o cultivo de culturas alternativas, como sorgo e girassol, em uma estratégia para reduzir riscos diante do atraso no plantio e das adversidades climáticas registradas nesta safra. Segundo dados da Expedição Safra Goiás 2025/26, realizada pelo Sistema Faeg/Senar/Ifag e parceiros, foram percorridos mais de 2,4 mil quilômetros em campo e analisadas lavouras em 19 municípios, alcançando cerca de 77% da área da segunda safra.

O levantamento aponta que aproximadamente 43% das áreas de milho foram semeadas fora da janela considerada ideal, consequência do atraso no plantio da soja e da irregularidade das chuvas. Com isso, muitos produtores deixaram de investir exclusivamente no milho e passaram a distribuir parte da área entre outras culturas.

Para o analista de mercado do IFAG/Faeg, Vilmar Júnior, a mudança já era esperada antes mesmo de a expedição percorrer as propriedades rurais. “Agora que a gente retornou da expedição, a gente viu de fato que o cultivo do milho deve reduzir na casa dos quase 30%, 29%, 30% em relação à última safra. A última safra foi muito importante, teve uma alta produtividade, o clima foi satisfatório. Para essa safra, a gente viu um cenário já um pouco desafiador, mesmo antes de ir a campo”, afirma ao O HOJE.

Segundo o analista, o atraso provocado pelo plantio mais tardio da soja comprometeu a janela do milho. “O que isso resultou? Produtores tendo que plantar mais milho dentro de março do que geralmente se acostuma. E muitos produtores também optaram por mudar o cultivo, ou seja, migraram para o sorgo e para o girassol.”

Avanço do sorgo e do girassol

O sorgo foi o principal destaque entre as culturas avaliadas, com estimativa de produção de 2,01 milhões de toneladas. O crescimento foi impulsionado pela expansão da área cultivada, que alcançou 631,1 mil hectares, aumento de 60% em relação à safra anterior. Segundo Vilmar Júnior, o girassol também registrou expansão da área plantada, “chegando próximo dos 60 mil hectares plantados”.

Na avaliação de Vilmar Júnior, a decisão de ampliar o cultivo de sorgo e girassol está diretamente relacionada à redução dos riscos econômicos e produtivos. “Essa mudança se dá principalmente visando à maior redução de riscos, porque o sorgo e o girassol, em comparação com o milho plantado no final da janela, tendem a trazer uma maior rentabilidade. Por isso que, nesse cenário em que o milho traz uma menor produtividade, sorgo e girassol podem trazer uma melhor rentabilidade”, diz.

Durante a expedição, a equipe identificou propriedades que alteraram completamente o planejamento da segunda safra. “Produtores que na última safra plantavam mil e quinze hectares de milho exclusivamente, para esta safra eles precisaram diversificar. Plantaram parte com milho, depois migraram para o sorgo e, por último, também optaram, em algumas situações, pelo milheto”, afirma o analista.

Estratégia para reduzir riscos

O economista Luiz Carlos Ongaratto afirma que a escolha por culturas alternativas é influenciada tanto pelo comportamento do mercado quanto pelas características agronômicas dessas lavouras. Segundo Ongaratto, o sorgo possui menor custo de produção, é uma cultura mais rústica e menos suscetível às adversidades climáticas, enquanto o girassol apresenta maior valor agregado e demanda crescente.

Para Ongaratto, o movimento observado neste ano segue uma lógica econômica. Os produtores ajustam a composição das lavouras conforme a rentabilidade de cada cultura. Na avaliação do economista, não se trata de “um mecanismo de compensação, mas sim de substituir uma cultura por outra, total ou parcialmente, para diminuir riscos climáticos e de preço”.

Apesar do crescimento do sorgo e do girassol, os especialistas avaliam que o avanço dessas culturas dependerá das próximas condições climáticas e da capacidade do mercado de absorver a produção. “A gente sabe que o sorgo pode ser uma fonte de energia mais barata do que o milho em algumas situações, mas ele não substitui completamente o milho. O aumento desses cultivos vai depender muito das condições climáticas que a gente tiver”, afirma Vilmar Júnior.

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