quinta-feira, 2 de julho de 2026
SEM COMPROMISSO

Alcolumbre adia pautas do Planalto e impõe novo teste à articulação de Lula

Presidente do Senado evita assumir compromisso com a tramitação da PEC da Segurança Pública e do fim da escala 6×1

Bruno Goulartpor Bruno Goulart em 2 de julho de 2026
Alcolumbre
Impasse não deve comprometer a imagem do governo, mas pode ampliar desgaste da oposição. Foto: Ton Molina/Agência Senado

Bruno Goulart

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), evitou assumir compromisso com a tramitação das principais pautas do Palácio do Planalto após a primeira reunião com a nova líder do governo na Casa, senadora Teresa Leitão (PT-PE). Entre os temas apresentados pelo Executivo estão a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública e a proposta que reduz a jornada máxima de trabalho e extingue a escala 6×1. Ao fim do encontro, realizado na residência oficial do Senado, Alcolumbre afirmou apenas que fará uma avaliação das matérias antes de definir quando as propostas poderão ser votadas.

Além das pautas prioritárias do governo, Teresa Leitão também solicitou a retirada da PEC que cria aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde e agentes de combate às endemias, considerada pela equipe econômica de alto impacto fiscal. O pedido, no entanto, foi negado por Alcolumbre, que manteve a tramitação da proposta.

A indefinição sobre os projetos considerados estratégicos para o governo ocorre em um momento de retomada dos trabalhos legislativos e reforça o desafio do Planalto para construir maioria no Congresso. Embora Alcolumbre tenha promovido um amplo debate sobre o fim da escala 6×1, nesta quarta-feira (1º), o presidente do Senado não estabeleceu um calendário para votação da matéria. Nos bastidores, aliados do presidente do Senado avaliam que a proposta só deverá avançar depois do recesso parlamentar.

Jornada de trabalho

Para o mestre em História e especialista em Políticas Públicas Tiago Zancopé, a demora na tramitação das propostas não representa, necessariamente, um prejuízo político para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Na avaliação de Zancopé, a população, especialmente os trabalhadores de menor renda, já associa o governo à defesa do fim da escala 6×1.

“A sensação que eu tenho é que, entre a classe trabalhadora, o fim da escala 6×1 é algo praticamente pacificado. Quando Alcolumbre diz que não tem pressa para pautar essa matéria, ele faz uma escolha política”, afirma.

Segundo Zancopé, a postura do presidente do Senado sinaliza uma aproximação com setores do empresariado que defendem mais tempo para discutir os impactos econômicos da proposta. “Quando Alcolumbre fala que não há pressa, ele acaba tomando um lado: o lado de quem não quer que essa discussão avance com a velocidade desejada pelos trabalhadores”, diz.

O especialista observa que o tema já foi amplamente debatido ao longo do primeiro semestre e ganhou força entre movimentos sociais e sindicatos. Para Zancopé, o adiamento da votação dificilmente mudará a percepção do eleitor sobre quem defende a proposta. “Eu não vejo isso comprometendo Lula. Pelo contrário, para o trabalhador está claro que o governo é favorável ao fim da escala 6×1”, afirma.

Fortalece narrativa do Planalto

Na avaliação de Zancopé, o impasse pode até fortalecer a narrativa do Planalto durante a campanha eleitoral. Caso as propostas permaneçam travadas, o governo poderá sustentar que tentou colocá-las em votação, mas encontrou resistência no Congresso. Ao mesmo tempo, a oposição poderá ser pressionada a assumir posição sobre um tema que, segundo pesquisas e debates recentes, desperta amplo interesse entre os trabalhadores.

“Esse movimento pode até produzir um efeito colateral para a oposição. Lideranças como Flávio Bolsonaro também serão cobradas sobre qual posição defendem em relação ao fim da escala 6×1”, avalia. (Especial para O HOJE)

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