Lula muda tom, inclui defesa em programa de governo e alerta para ameaça nuclear no mundo
Presidente afirma que tratará formalmente da defesa nacional pela primeira vez em seu plano de governo, cita avanço de potências nucleares e defende projeto estratégico para fortalecer a soberania brasileira
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou uma mudança significativa no discurso de governo ao afirmar que incluirá, pela primeira vez, a defesa nacional como eixo formal de seu programa político. A declaração foi feita durante agenda em Itajaí, Santa Catarina, na cerimônia de lançamento da fragata Cunha Moreira, em um pronunciamento marcado por alertas sobre a escalada militar global e pela defesa de maior preparação estratégica do Brasil.
Ao abordar o tema, Lula sinalizou preocupação com o atual cenário geopolítico e afirmou que, embora o Brasil mantenha uma tradição diplomática e pacífica, o país precisa estar preparado diante do fortalecimento militar de outras nações.
“Eu quero que vocês saibam que faz parte do meu programa de governo a questão da defesa”, declarou o presidente. Em seguida, reforçou a mudança de postura: “Pela primeira vez eu vou colocar a questão da defesa nacional num programa de governo.”
A fala representa uma inflexão importante em relação ao discurso histórico da esquerda brasileira, que tradicionalmente prioriza temas sociais, econômicos e institucionais em detrimento da pauta militar. Ao trazer a defesa nacional para o centro do debate, Lula busca reposicionar o tema dentro de uma agenda estratégica de Estado.
Durante o discurso, o presidente relembrou sua posição histórica favorável à não proliferação nuclear, mas afirmou que a realidade internacional mudou de forma significativa nas últimas décadas. Segundo ele, o compromisso global de redução de arsenais não se concretizou.
“Eu fui daqueles que votei pela não proliferação de armas nucleares, porque havia o compromisso de que quem tinha armas nucleares iria desativá-las. Alguém desativou?”, questionou.
Na sequência, Lula citou países que ampliaram suas capacidades militares e nucleares, argumentando que o cenário internacional se tornou mais instável e imprevisível.
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“De lá para cá, o Paquistão se armou, a Coreia do Norte se armou, a Índia se armou, a China se armou, a Rússia e os Estados Unidos continuam fabricando cada vez mais armas nucleares”, afirmou.
Sem citar conflitos específicos, o presidente indicou que o avanço armamentista mundial exige atenção do Brasil e cobrou uma visão mais pragmática sobre soberania e segurança territorial. Em tom enfático, Lula sugeriu que a capacidade de defesa também está diretamente ligada ao respeito internacional.
“Quem vai nos respeitar se a gente não se respeitar?”, disse.
Lula também revelou que o assunto tem sido recorrente em conversas com comandantes militares e defendeu a construção de uma política de defesa de longo prazo, estruturada e permanente, em vez de ações pontuais.
“Nós precisamos construir um projeto estratégico”, afirmou, acrescentando que esse planejamento exigirá investimentos consistentes do Estado brasileiro.
Segundo o presidente, ampliar a capacidade de defesa não significa adotar postura beligerante, mas garantir capacidade de reação e proteção diante de eventuais ameaças externas. Ele reforçou que a proposta não está ligada a ambições expansionistas ou militares.
“Nós não queremos briga com ninguém, não queremos invadir ninguém, não queremos guerra com ninguém”, afirmou. “Mas estaremos preparados para defender nossos oito milhões e meio de quilômetros quadrados e 215 milhões de habitantes.”
A declaração ocorre em um momento de crescente tensão internacional, com guerras regionais, fortalecimento de alianças militares e expansão de investimentos em tecnologia bélica e defesa cibernética. Nesse contexto, a fala de Lula também sinaliza tentativa de ampliar o debate sobre soberania para além da diplomacia tradicional, incluindo capacidade industrial, tecnológica e militar.
Nos bastidores políticos, a inclusão da defesa nacional no programa de governo também é vista como um gesto de aproximação institucional com as Forças Armadas, em um tema historicamente sensível na relação entre militares e governos civis. A mudança de tom sugere que o Planalto pretende tratar defesa não apenas como pauta militar, mas como componente central da estratégia de Estado para as próximas décadas.