terça-feira, 7 de julho de 2026
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Reconhecimento da Rua do Lazer amplia debate sobre preservação do patrimônio histórico de Goiânia

A declaração da Rua do Lazer como patrimônio cultural imaterial reacendeu a discussão sobre a necessidade de preservar outros espaços históricos da capital

Anna Salgadopor Anna Salgado em 7 de julho de 2026
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Legenda : A Rua do Lazer, no Setor Central, tornou-se patrimônio cultural imaterial de Goiânia em 2026 e passou a integrar o debate sobre a valorização de outros espaços históricos da capital | Foto: Instagram/@barfubanga

A sanção da Lei nº 11.614, em 24 de abril de 2026, pelo prefeito Sandro Mabel, declarou a Rua do Lazer (Rua 8, no Setor Central) patrimônio cultural imaterial de Goiânia. O reconhecimento oficial do espaço, inaugurado em 1981 e concebido para atividades culturais e de convivência, ampliou as discussões sobre a preservação de outros locais com relevância histórica e cultural na capital, especialmente em áreas como o Centro e Campinas. Especialistas ouvidos pela reportagem defendem que o reconhecimento patrimonial deve ser acompanhado de políticas permanentes de preservação, ocupação e educação patrimonial, de forma que a medida não se restrinja ao caráter simbólico, mas resulte em ações efetivas de valorização da memória urbana.

De acordo com a professora da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás, Ana Amélia Moura Ribeiro, o reconhecimento da Rua do Lazer está alinhado ao conceito de patrimônio cultural imaterial previsto na Constituição Federal de 1988 e nas diretrizes da UNESCO. Segundo a pesquisadora, o caso se enquadra na categoria de “Registro dos Lugares”, prevista pelo Decreto Federal nº 3.551/2000, destinada à proteção de espaços associados a práticas culturais coletivas.

Ana Amélia explica que o registro de um lugar como patrimônio imaterial busca preservar os aspectos simbólicos, as relações sociais e a permanência das práticas culturais vinculadas ao espaço. Na avaliação da professora, o reconhecimento da Rua do Lazer contribui para ampliar a atenção da população sobre o Setor Central e pode estimular o desenvolvimento de novas políticas públicas voltadas à região, favorecendo iniciativas de preservação, ocupação e valorização do patrimônio urbano.

Embora considere positiva a iniciativa, o arquiteto e urbanista Fred Le Blue afirma que o reconhecimento não deve restringir o debate patrimonial a um único logradouro. Segundo o especialista, existe o risco de que a atuação conjunta do poder público e da iniciativa privada transforme a Rua 8 no “exclusivo local passível de preocupação patrimonial”.

Fred Le Blue também avalia que há uma tendência de mercantilização e gourmetização do espaço público que, segundo o arquiteto, nem sempre corresponde às manifestações da cultura popular. Como alternativa, defende uma abordagem baseada no conceito de “Centro expandido”, integrando o Setor Central a bairros vizinhos e áreas próximas. “O Art Déco não é só o Art Déco, o lazer não é só na Rua do Lazer e o Centro não é só o Centro”, afirma.

Setor Sul e Campinas estão entre os espaços apontados

Entre os locais apontados com potencial para reconhecimento patrimonial está o Setor Sul. De acordo com Fred Le Blue, o bairro reúne características urbanísticas singulares por ter sido concebido com inspiração no modelo inglês de cidade-jardim. Na avaliação do arquiteto, as vielas e fundos de vielas deveriam ser preservados para manter as características originais do projeto urbanístico da capital.

Atualmente, o Observatório Goiânia 100 por Centro desenvolve no bairro o projeto “Setor Sul Real”, voltado à implantação de um museu de arte urbana a céu aberto. A iniciativa busca incentivar novas formas de ocupação dos espaços públicos e fortalecer a relação entre patrimônio, cultura e uso cotidiano da cidade.

Outro espaço destacado é o núcleo pioneiro de Campinas. Ana Amélia Moura Ribeiro observa que, apesar da intensa atividade comercial durante o dia, o bairro registra esvaziamento no período noturno, situação que contribui para a percepção de abandono em áreas históricas, como a Praça Joaquim Lúcio.

Segundo a professora, a preservação desses espaços envolve desafios relacionados à segurança pública e a questões sociais, além da conservação física dos imóveis. Para a pesquisadora, a proteção do patrimônio histórico depende de políticas públicas capazes de articular diferentes áreas da administração, incluindo cultura, planejamento urbano, segurança, mobilidade e habitação.

Em nota, a Secretaria Municipal de Cultura de Goiânia (Secult) informou que atua na salvaguarda dos bens que compõem a memória coletiva da cidade. A pasta afirma que a preservação do patrimônio histórico representa uma forma de valorizar a trajetória dos pioneiros e o projeto urbanístico idealizado por Pedro Ludovico Teixeira e Attilio Corrêa Lima.

A secretaria também destacou a importância do conjunto arquitetônico Art Déco do Centro Histórico, considerado um dos principais acervos do país. Além da Rua do Lazer, a Secult cita a Praça Atílio Corrêa Lima, conhecida como Praça dos Bandeirantes, e as vias do entorno como elementos representativos da formação da capital planejada.

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Legenda: Pesquisadores defendem que a preservação do patrimônio histórico vá além do reconhecimento oficial e seja acompanhada por políticas públicas permanentes de conservação e ocupação dos espaços urbanos | Foto: Reprodução/Instagram

Preservação depende de políticas permanentes

Para Ana Amélia Moura Ribeiro, o reconhecimento patrimonial deve ser acompanhado por ações permanentes de preservação. A professora afirma que a salvaguarda depende da ocupação contínua dos espaços pela população e defende medidas como isenção total ou parcial de IPTU para imóveis históricos restaurados, assistência técnica a proprietários na adaptação de edificações preservadas, melhoria da sinalização turística e ampliação de eventos e editais culturais voltados à ocupação dos espaços públicos.

Fred Le Blue também defende políticas urbanas permanentes para as áreas históricas. Segundo o arquiteto, o planejamento deve considerar princípios de ecologia, equidade e economia, em consonância com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU, além de estimular o sentimento de pertencimento da população aos espaços urbanos.

A educação patrimonial também aparece como um dos pontos de convergência entre os especialistas. Ana Amélia Moura Ribeiro afirma que a prefeitura deve ampliar ações voltadas às crianças e aos estudantes para apresentar a história da construção de Goiânia e as características do patrimônio arquitetônico da cidade. “As novas gerações não construíram essa relação afetiva que as gerações anteriores têm com o Centro”, afirma.

Segundo a professora, é necessário criar novas memórias afetivas e fortalecer a relação da população com os espaços históricos da capital. Na avaliação da pesquisadora, a aproximação entre estudantes e patrimônio cultural pode contribuir para ampliar o conhecimento sobre a história da cidade e estimular a preservação desses espaços pelas futuras gerações.

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