sexta-feira, 23 de outubro de 2026
patrimônio

Reconhecimento da Rua do Lazer amplia debate sobre preservação do patrimônio histórico de Goiânia

A declaração da Rua do Lazer como patrimônio cultural imaterial reacendeu a discussão sobre a necessidade de preservar outros espaços históricos da capital

Anna Salgadopor em
rua do lazer
Legenda : A Rua do Lazer, no Setor Central, tornou-se patrimônio cultural imaterial de Goiânia em 2026 e passou a integrar o debate sobre a valorização de outros espaços históricos da capital | Foto: Instagram/@barfubanga

A sanção da Lei nº 11.614, em 24 de abril de 2026, pelo prefeito Sandro Mabel, declarou a Rua do Lazer (Rua 8, no Setor Central) patrimônio cultural imaterial de Goiânia. O reconhecimento oficial do espaço, inaugurado em 1981 e concebido para atividades culturais e de convivência, ampliou as discussões sobre a preservação de outros locais com relevância histórica e cultural na capital, especialmente em áreas como o Centro e Campinas. Especialistas ouvidos pela reportagem defendem que o reconhecimento patrimonial deve ser acompanhado de políticas permanentes de preservação, ocupação e educação patrimonial, de forma que a medida não se restrinja ao caráter simbólico, mas resulte em ações efetivas de valorização da memória urbana.

De acordo com a professora da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás, Ana Amélia Moura Ribeiro, o reconhecimento da Rua do Lazer está alinhado ao conceito de patrimônio cultural imaterial previsto na Constituição Federal de 1988 e nas diretrizes da UNESCO. Segundo a pesquisadora, o caso se enquadra na categoria de “Registro dos Lugares”, prevista pelo Decreto Federal nº 3.551/2000, destinada à proteção de espaços associados a práticas culturais coletivas.

Ana Amélia explica que o registro de um lugar como patrimônio imaterial busca preservar os aspectos simbólicos, as relações sociais e a permanência das práticas culturais vinculadas ao espaço. Na avaliação da professora, o reconhecimento da Rua do Lazer contribui para ampliar a atenção da população sobre o Setor Central e pode estimular o desenvolvimento de novas políticas públicas voltadas à região, favorecendo iniciativas de preservação, ocupação e valorização do patrimônio urbano.

Embora considere positiva a iniciativa, o arquiteto e urbanista Fred Le Blue afirma que o reconhecimento não deve restringir o debate patrimonial a um único logradouro. Segundo o especialista, existe o risco de que a atuação conjunta do poder público e da iniciativa privada transforme a Rua 8 no “exclusivo local passível de preocupação patrimonial”.

Fred Le Blue também avalia que há uma tendência de mercantilização e gourmetização do espaço público que, segundo o arquiteto, nem sempre corresponde às manifestações da cultura popular. Como alternativa, defende uma abordagem baseada no conceito de “Centro expandido”, integrando o Setor Central a bairros vizinhos e áreas próximas. “O Art Déco não é só o Art Déco, o lazer não é só na Rua do Lazer e o Centro não é só o Centro”, afirma.

Setor Sul e Campinas estão entre os espaços apontados

Entre os locais apontados com potencial para reconhecimento patrimonial está o Setor Sul. De acordo com Fred Le Blue, o bairro reúne características urbanísticas singulares por ter sido concebido com inspiração no modelo inglês de cidade-jardim. Na avaliação do arquiteto, as vielas e fundos de vielas deveriam ser preservados para manter as características originais do projeto urbanístico da capital.

Atualmente, o Observatório Goiânia 100 por Centro desenvolve no bairro o projeto “Setor Sul Real”, voltado à implantação de um museu de arte urbana a céu aberto. A iniciativa busca incentivar novas formas de ocupação dos espaços públicos e fortalecer a relação entre patrimônio, cultura e uso cotidiano da cidade.

Outro espaço destacado é o núcleo pioneiro de Campinas. Ana Amélia Moura Ribeiro observa que, apesar da intensa atividade comercial durante o dia, o bairro registra esvaziamento no período noturno, situação que contribui para a percepção de abandono em áreas históricas, como a Praça Joaquim Lúcio.

Segundo a professora, a preservação desses espaços envolve desafios relacionados à segurança pública e a questões sociais, além da conservação física dos imóveis. Para a pesquisadora, a proteção do patrimônio histórico depende de políticas públicas capazes de articular diferentes áreas da administração, incluindo cultura, planejamento urbano, segurança, mobilidade e habitação.

Em nota, a Secretaria Municipal de Cultura de Goiânia (Secult) informou que atua na salvaguarda dos bens que compõem a memória coletiva da cidade. A pasta afirma que a preservação do patrimônio histórico representa uma forma de valorizar a trajetória dos pioneiros e o projeto urbanístico idealizado por Pedro Ludovico Teixeira e Attilio Corrêa Lima.

A secretaria também destacou a importância do conjunto arquitetônico Art Déco do Centro Histórico, considerado um dos principais acervos do país. Além da Rua do Lazer, a Secult cita a Praça Atílio Corrêa Lima, conhecida como Praça dos Bandeirantes, e as vias do entorno como elementos representativos da formação da capital planejada.

rua do lazer
Legenda: Pesquisadores defendem que a preservação do patrimônio histórico vá além do reconhecimento oficial e seja acompanhada por políticas públicas permanentes de conservação e ocupação dos espaços urbanos | Foto: Reprodução/Instagram

Preservação depende de políticas permanentes

Para Ana Amélia Moura Ribeiro, o reconhecimento patrimonial deve ser acompanhado por ações permanentes de preservação. A professora afirma que a salvaguarda depende da ocupação contínua dos espaços pela população e defende medidas como isenção total ou parcial de IPTU para imóveis históricos restaurados, assistência técnica a proprietários na adaptação de edificações preservadas, melhoria da sinalização turística e ampliação de eventos e editais culturais voltados à ocupação dos espaços públicos.

Fred Le Blue também defende políticas urbanas permanentes para as áreas históricas. Segundo o arquiteto, o planejamento deve considerar princípios de ecologia, equidade e economia, em consonância com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU, além de estimular o sentimento de pertencimento da população aos espaços urbanos.

A educação patrimonial também aparece como um dos pontos de convergência entre os especialistas. Ana Amélia Moura Ribeiro afirma que a prefeitura deve ampliar ações voltadas às crianças e aos estudantes para apresentar a história da construção de Goiânia e as características do patrimônio arquitetônico da cidade. “As novas gerações não construíram essa relação afetiva que as gerações anteriores têm com o Centro”, afirma.

Segundo a professora, é necessário criar novas memórias afetivas e fortalecer a relação da população com os espaços históricos da capital. Na avaliação da pesquisadora, a aproximação entre estudantes e patrimônio cultural pode contribuir para ampliar o conhecimento sobre a história da cidade e estimular a preservação desses espaços pelas futuras gerações.

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:
Rua do Lazer

Veja também

Festival Viva Goiânia reúne Seu Jorge, Murilo Huff e Sandra de Sá na Avenida Goiás neste sábado

ANIVERSÁRIO DE GOIÂNIA

Goiânia 93 anos: veja a programação completa do Festival Viva Goiânia neste sábado

Festival Viva Goiânia reúne shows, esporte, moda e gastronomia na Avenida Goiás a partir das 9h, ...
Anápolis

tragédia em Goianésia

PCGO investiga morte de jovem de 21 anos em um motel em Goianésia

Jovem passou mal durante encontro e foi encontrada sem vida em uma suíte; homem que estava com ela ...
Polícia investiga mortes de bebês em São Paulo

investigação

Polícia investiga mortes de bebês em São Paulo

Inquérito apura seis casos de crianças que morreram após possíveis infecções hospitalares; adv...
Incêndio destrói apartamento de babá de filha de Virginia Fonseca em Goiânia

Incêndio em edificação

Incêndio destrói apartamento de babá de filha de Virginia Fonseca em Goiânia

A babá Jaqueline Bianca relatou nas redes sociais que perdeu os bens que levou anos para conquistar...
Operação da PCDF mira consórcio do tráfico que movimentou R$ 1,3 milhão em 60 dias

Tráfico de drogas no DF

Operação da PCDF mira consórcio do tráfico que movimentou R$ 1,3 milhão em 60 dias

Investigação aponta que grupo comprava drogas em outros estados e distribuía os entorpecentes a t...
Uso de remédios sem prescrição pode causar intoxicação e agravar doenças

Alerta na saúde

Uso de remédios sem prescrição pode causar intoxicação e agravar doenças

Pesquisa indica que nove em cada dez brasileiros tomam medicamentos sem prescrição; especialistas ...
Pai de Meghan Markle é investigado após denúncia do próprio filho nas Filipinas

IMAGENS DE ABUSO INFANTIL

Pai de Meghan Markle é investigado após denúncia do próprio filho nas Filipinas

Thomas Markle Jr. diz ter encontrado imagens de abuso sexual infantil entre os pertences do pai, em ...
Ônibus serão gratuitos no domingo de eleição em Goiânia e região metropolitana

2º TURNO

Ônibus serão gratuitos no domingo de eleição em Goiânia e região metropolitana

Gratuidade valerá durante toda a operação da RMTC no dia 25; linhas terão frequência de dias ú...