EUA colocam Brasil em lista de países suspeitos de triangulação de produtos chineses
Relatório da Casa Branca coloca o Brasil no Nível 2 de risco e cita integração comercial e logística com a China
O governo dos Estados Unidos incluiu o Brasil em uma lista de países associados a uma possível rede de triangulação de mercadorias originárias da China. A informação consta em relatório divulgado nesta quinta-feira pelo Escritório de Política Comercial e Industrial da Casa Branca.
O documento trata do chamado transshipment. A prática ocorre quando mercadorias passam por um terceiro país antes de chegar ao destino final. Segundo o governo americano, esse mecanismo pode ser utilizado para evitar tarifas de importação e outras medidas comerciais aplicadas diretamente aos produtos chineses.
Ao todo, mais de 40 países aparecem no levantamento em diferentes níveis de risco. O Brasil foi colocado no Nível 2, grupo que reúne países com volumes considerados relevantes de transbordo e integração com cadeias de fornecimento, sistemas logísticos e plataformas industriais relacionadas à China.
Além do Brasil, aparecem nessa categoria Indonésia, Malásia, Tailândia, Turquia e Vietnã.
Por que o Brasil entrou na lista
Segundo o relatório, Brasil e Turquia funcionam como plataformas regionais de produção e logística. O documento afirma que esses países podem oferecer condições para operações de redirecionamento ou transformação de determinados produtos.
No caso brasileiro, a Casa Branca relaciona a posição do país ao volume de comércio com a China e à integração econômica entre os dois mercados.
O relatório também afirma que países intermediários podem obter receitas com operações de triangulação. Entre os exemplos citados estão serviços de montagem, armazenamento, logística, operações portuárias, despachos aduaneiros e aluguel de áreas destinadas à produção e exportação.
Além disso, segundo o documento, governos podem obter empregos, arrecadação tributária, investimentos estrangeiros e aumento do comércio.
A Casa Branca, contudo, reconhece que a identificação de operações ilegais não é simples. Produtos fabricados com componentes provenientes de diferentes países podem passar por processos legítimos de transformação antes da exportação.

Por isso, o relatório afirma que a fiscalização precisa diferenciar operações comerciais regulares de simples passagem de mercadorias ou alteração fraudulenta da origem.
China amplia presença nas cadeias globais
O relatório relaciona o cenário atual às mudanças ocorridas nas cadeias globais de produção nos últimos anos.
Durante o primeiro mandato de Donald Trump, os Estados Unidos elevaram tarifas sobre produtos chineses. Em resposta, empresas passaram a diversificar suas cadeias de produção e a transferir parte das atividades para outros países.
Esse movimento ficou conhecido como estratégia “China + 1”. A iniciativa estimulou investimentos em países como Vietnã e Camboja. Em alguns casos, empresas chinesas também participaram diretamente desses investimentos.
Agora, com a retomada da política de tarifas por país, o governo americano afirma que aumentou o risco de empresas utilizarem terceiros países para evitar as sobretaxas aplicadas às mercadorias chinesas.
De acordo com o relatório, México e Canadá, por causa da proximidade com os Estados Unidos, estão entre os principais pontos utilizados para facilitar esse tipo de operação. A lista também cita União Europeia, Índia, Japão e Coreia do Sul.
EUA anunciam fiscalização com inteligência artificial
Para combater possíveis fraudes, a Casa Branca afirma que está desenvolvendo novas ferramentas de fiscalização.
Uma delas foi descrita no relatório como uma espécie de “fronteira detetive”. A ferramenta deverá utilizar inteligência artificial para analisar informações sobre remessas e comparar os dados com históricos de rotas comerciais.
O sistema também poderá verificar a capacidade de produção das empresas, relações de propriedade e padrões de embalagem. Além disso, imagens de raio-X obtidas nos portos poderão ser analisadas para identificar diferenças entre a documentação apresentada e o conteúdo dos contêineres.

Segundo o relatório, a tecnologia pretende aumentar a capacidade das autoridades americanas de identificar possíveis desvios de origem e operações destinadas a escapar das tarifas.
O diretor do Escritório de Política Comercial e Industrial da Casa Branca, Peter Navarro, afirmou que as medidas funcionam como um alerta aos países envolvidos no comércio internacional.
Relatório estima bilhões em mercadorias trianguladas
O documento cita uma estimativa da empresa Exiger, especializada em cadeias de suprimentos e inteligência artificial. Segundo a companhia, cerca de US$ 75 bilhões em mercadorias teriam sido triangulados ilegalmente entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026.
A estimativa aponta ainda uma possível perda de receita tarifária entre US$ 19 bilhões e US$ 34 bilhões para os Estados Unidos.
Os valores, segundo o relatório, foram calculados com base em análises de duas fontes governamentais e três fontes do setor privado.
A Casa Branca afirma que pretende ampliar a fiscalização para impedir que diferenças nas tarifas entre países criem incentivos para operações de redirecionamento de mercadorias.
O relatório, porém, ressalta que nem toda mudança nas cadeias de produção representa uma operação ilegal. A transferência legítima de etapas de fabricação para outros países também pode alterar a origem e a rota dos produtos.
Nesse cenário, a fiscalização americana deverá buscar identificar quando uma mercadoria passou por uma transformação substancial em outro país e quando houve apenas uma mudança formal de origem para evitar tarifas.
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